QUEM SOMOS NÓS

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Somos uma organização marxista revolucionária. Procuramos intervir nas lutas de classes com um programa anticapitalista, com o objetivo de criar o Partido Revolucionário dos Trabalhadores, a seção brasileira de uma nova Internacional Revolucionária. Só com um partido revolucionário, composto em sua maioria por mulheres e negros, é possível lutar pelo governo direto dos trabalhadores, como forma de abrir caminho até o socialismo.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

O Novo Período que se abre na conjuntura internacional

Reorganizar a vanguarda para derrotar de vez os patrões!
O novo período que se abre na conjuntura internacional
Por Leandro Torres – Janeiro de 2011

A Época do Pós-Soviético
            Em 1990, a banda alemã Scorpions comemorava o “vento da mudança” que derrubou o Muro de Berlim e a União Soviética, trazendo uma suposta paz para o mundo tencionado da Guerra Fria e das “ditaduras vermelhas”. Porém, na mesma música em que comemoram o nascimento de um “novo mundo” (Wind of Change), a banda deixa claro que, em uma sociedade de classes, até o vento tem lado. No refrão, cantam “Let your balalaika sing / What my guitar wants to say”, ou seja, “Deixe sua balalaica [instrumento de cordas típico da Rússia] tocar o que meu violão [instrumento tipicamente ocidental] quer dizer”.
            Muito provavelmente os rapazes do Scorpions não sabiam à época, mas o refrão de sua música se tornaria realidade: durante os anos noventa a balalaika do mundo tocou o que o violão da burguesia imperialista queria. Com a queda dos Estados operários do Leste Europeu, abriu-se uma época de fortíssimo retrocesso para o proletariado em termos de consciência de classe e, portanto, de capacidade de organização, combatividade e até mesmo resistência. Ao longo dos anos 1990, o chamado “neoliberalismo” fez a festa da burguesia ao redor do globo, tornando possível demissões em massa, desmobilização e mesmo destruição de sindicatos, cortes salariais, fim de direitos trabalhistas e etc. Iniciava-se a dura Época do Pós-Soviético.
            Para nós marxistas, entender a conjuntura é algo fundamental, pois boa parte das táticas que devemos utilizar para atingir nossos objetivos revolucionários são ditadas pela correlação de forças imposta pela conjuntura global e regional. Não à toa, o entendimento de que o fim da URSS e demais Estados operários europeus implicou um enorme retrocesso de consciência para o proletariado, foi um dos pilares fundacionais de nossa organização e até hoje é um importante critério quando vamos abordar outras organizações buscando estabelecer contatos fraternais.
            Essa questão é importante porque, mesmo esses Estados sendo burocraticamente degenerados, governados de forma anti-democrática por uma casta de burocratas interessados nos privilégios resultantes de sua posição política, sua existência ainda representava importantes bastiões de combate ao imperialismo e, acima de tudo, de esperança para trabalhadores ao redor do mundo que acreditavam na possibilidade de uma sociedade radicalmente diferente.
            Por isso a destruição dos Estados Operários burocratizados, a partir de uma contra-revolução na qual as massas, desejosas de democracia e melhores condições de vida, se deixaram levar por um programa pró-capitalista ditado pela imperialismo internacional através de setores da Igreja Católica, braços da CIA e burocratas que não mais se satisfaziam em administrar os bens do Estado, mas queriam possuí-los, representou a abertura de uma época tão amarga, na qual os trabalhadores ficaram indefesos e inseguros quanto ao futuro. Pois, mesmo que a classe trabalhadora em sua maioria não defendesse um projeto revolucionário e muito menos comunista, a destruição do primeiro Estado operário da História, a URSS, deu um gás imenso para setores reacionários da burguesia, que vinham ganhando força desde meados dos anos 1980. Mas, para citar outra música, essa do saudoso Bob Dylan, os tempos estão mudando (The Times, They are a-changin’, do álbum homônimo de 1964 – dedicada ao movimento pelos Direitos Civis dos negros, nos EUA).

As tarefas atuais e a crise internacional de 2008
            Se era importante, ao longo dos anos 1990, que organizações de estratégia revolucionária compreendessem corretamente o momento histórico de dispersão de forças e recuo da consciência do proletariado, se dedicando centralmente à tarefa de reagrupamento de forças revolucionárias através da propaganda, é tão importante quanto compreendermos as mudanças que se processam nessa atual conjuntura e adaptarmos nossas táticas a elas.
            Erros de caracterização conjuntural podem ter consequências gravíssimas. Só para citarmos alguns exemplos extremos, a organização internacional do PSTU, a LIT-CI (Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional), em suas famosas Teses de ‘90, declarou que a destruição do stalinismo no Leste Europeu abria um período de grandes possibilidades revolucionárias para os trabalhadores de todo o mundo. Isso, somado à política morenista de colar em organizações reformistas (já discutida em diversos outros artigos), teve como resultado o fato de que até hoje o PSTU e as demais seções da LIT vêem revoluções no mais chinfrim dos ascensos, apoiando politicamente setores que de revolucionários nada tem (como o partido burguês Hamas, na Palestina).
            Outro exemplo extremo, digno de nota, é o caso da Liga Espartaquista (SL) dos EUA e sua organização internacional, a ICL. Para essa organização, o mundo caiu junto com o Muro de Berlim e, nos anos ‘90, eles estiveram mais certos do que nunca da sua política de não atuar no movimento sindical para evitar a “degeneração” de seu programa a partir da pressão exercida pela “baixa consciência” das massas. Outro caso semelhante é o da Tendência Bolchevique Internacional (IBT), que, conforme denunciamos em nossa carta de ruptura com tal organização (publicado em nosso site em dezembro de 2010), usa a conjuntura reacionária aberta nos anos ‘90 como desculpa para não atuar no movimento de massas, tendo por real objetivo manter a organização a rédeas curtas para que seus dirigentes possam manter seu controle burocrático.
            Assim, sendo desculpa esfarrapada ou um erro real, a má caracterização da conjuntura pode gerar sérios problemas para uma organização comunista. Por isso, mesmo na época de fundação do CCI, organização que deu origem ao Coletivo Lenin, nossos camaradas fizeram questão de se caracterizar enquanto um grupo de propaganda combativo, com o objetivo de deixar claro que, na conjuntura de então, não bastava fazer propaganda para se criar um Partido Revolucionário. Era necessário estar (ativamente) presente no movimento de massas, mesmo que com um foco na tarefa de propaganda. E tal necessidade é ainda maior nos dias de hoje. Assim, este artigo não representa de forma alguma uma “descoberta incrível” para a militância do CL, mas uma análise pública de algo que consideramos de extrema importância.
            Com a crise econômica deflagrada em 2008, uma série de demissões em massa, cortes de direitos, reduções salariais e perseguições a sindicalistas tomou lugar. Essas ações foram medidas da burguesia e de seus aliados nos governos para reverterem um histórico prejuízo, do que chegou mesmo a ser chamada de “a pior crise desde 1929”. Entretanto, diferentemente do que ocorreu nos anos 1990, esses golpes desferidos por parte da burguesia não passariam tranquilamente.
            Como fica claro pelo infográfico presente no começo do artigo, a década de 2000 presenciou uma série de ascensos resultantes da lenta reorganização do movimento operário e de sua vanguarda radicalizada. Porém, após 2008, tais ascensos aumentaram em número e proporções, indicando um salto quantitativo no árduo processo de superação e reversão da conjuntura reacionária que tem favorecido os patrões, devido à desmobilização do proletariado e à quase extinção de sua consciência de classe. Essa perda de consciência das massas foi um grave recuo após ter sido forjada através de décadas de trabalho por vanguardas radicalizadas e subjetivamente revolucionárias (mesmo que muitas vezes defensoras de um programa equivocado).

A Europa se levanta, mas na defensiva
            Os recentes ascensos, diretamente ligados à crise de 2008, que vão desde passeatas radicalizadas de estudantes e jovens trabalhadores até a ocupação de empresas falidas, passando por fortes greves gerais, por enquanto estão muito concentrados na Europa. Porém, a burguesia de outros países tem tentado implementar medidas semelhantes às da europeia. Para salvar bancos e empresas da falência, governos precisaram desembolsar bilhões e esvaziar seus cofres. Só para se ter uma ideia, até mesmo a GM, símbolo-mor do capitalismo norte-americano, precisou ter ações compradas em massa pelo governo para que não fechasse as portas.
            Porém, os governos necessitam recuperar essa grana preta para poderem dar continuidade aos investimentos em alguns setores fundamentais à existência do mercado capitalista, como a construção de estradas, ferrovias, portos e, em alguns casos, até mesmo serviços públicos como saúde e educação, que por algum motivo a burguesia decidiu não reivindicar para si e deixar os impostos fazerem “sua parte”, lucrando apenas através de concessões para administração e etc.
            Obviamente, os empresários e banqueiros que colocaram no poder os governantes não estão dispostos a pagar a conta. O resultado são as agressivas tentativas por parte dos mais diversos governos de aprovar pacotes de “reformas”, como a previdenciária (aumento do limite mínimo de tempo de trabalho para a aposentadoria e corte de pensões e de serviços “gratuitos” à terceira idade) e a trabalhista (diminuição de salários mínimos, flexibilização de direitos ou mesmo sua extinção para certas categorias, aumento de jornadas de trabalho, etc.).    É contra tais “reformas” que o proletariado europeu tem se levantado, e outros já têm seguido seu exemplo, como os trabalhadores chilenos que pararam o país por uma semana contra o aumento do preço do gás no final de janeiro desse ano.
            Existem dois pontos fundamentais de serem analisados nessa questão. O primeiro é o caráter de tais ascensos. Os mesmos são defensivos, ou seja, não representam uma luta dos trabalhadores por novas conquistas, mas sim uma tentativa de manter conquistas do passado. Isso significa que, por mais que representem um salto quantitativo no processo de reversão da conjuntura reacionária e do refluxo organizativo e de consciência pelo qual a classe está passando, tais ascensos defensivos não serão capazes de alterar qualitativamente tal conjuntura, revertendo-a para uma nova época de ascenso generalizado, como foram os anos 1970 e outras décadas do “Período Soviético”.
            Apenas uma luta (vitoriosa) por novas conquistas poderá cumprir tal tarefa. Isso, entretanto, não significa que os atuais processos de luta não sirvam para nada. Muito pelo contrário, eles são um exemplo para os trabalhadores do mundo todo, não só de que é possível se levantar contra os patrões e seus projetos, mas também de como fazê-lo, ou seja, através de greves, passeatas radicalizadas, ocupações de prédios públicos e sedes de empresas. E mais importante ainda, são processos nos quais as massas fazem a experiência com suas atuais lideranças, que tem traído sem dó nem piedade cada um dos processos listados no infográfico.

A validade da caracterização de Trotsky
            A necessidade de uma vitória significativa na luta por novas conquistas nos leva ao segundo ponto importante de ser analisado, que é justamente o papel das direções operárias e da vanguarda na luta pelo socialismo. Em 1938, no Programa de Transição, escrito para ser o programa da IV Internacional, o velho bolchevique e ferrenho defensor das concepções leninistas, Leon Trotsky, constatou:
            “As premissas objetivas da revolução proletária não estão somente maduras: elas começam a apodrecer. (...) Tudo depende do proletariado, ou seja, antes de mais nada, de sua vanguarda revolucionária. A crise histórica da humanidade reduz-se à crise da direção revolucionária.
            Com essa frase Trotsky quis dizer que as contradições presentes no sistema capitalista já são tamanhas (e isso em 1938!) a ponto de elevar a luta de classes ao patamar de uma explosão revolucionária, com o objetivo de solucioná-las através da luta por um novo projeto de sociedade. Entretanto, nós marxistas não acreditamos no mito forjado por Stalin, e perpetuado por seus defensores, de que as condições objetivas moldam, mecanicamente, as diferentes sociedades. Diferentemente do que as acusações dos “acadêmicos” anti-marxistas fazem crer, nós entendemos que a realidade social é composta por uma multiplicidade de fatores. E de certo modo, podemos acrescentar aí um “infelizmente”. Infelizmente porque um fator em especial tem, há muitas décadas, impedido a tão necessária revolução socialista de acontecer: a crise de direção.
            Qualquer um que milite no movimento de massas percebe que há uma certa divisão, entre uma maioria menos politizada e uma minoria que dispõe não só de um melhor entendimento da realidade, como também de maior disposição para atuar. É a essa minoria que nós leninistas chamamos vanguarda. É a essa minoria que nós leninistas chamamos vanguarda, e entendemos enquanto sua maior tarefa disputar a consciência do proletariado através do programa revolucionário, com o intuído de fazer expandir as fileiras comunistas e propiciar assim a vitória de um ascenso revolucionário.
            Constatar que o proletariado está acometido por uma crise de direção é reconhecer que a vanguarda revolucionária não está na liderança dos processos de massas, que por motivos conjunturais encontram-se nas mãos de burocratas sindicais vendidos ou de falsos revolucionários (sejam eles puros calhordas que usam a imagem do socialismo para se promover, seja porque defendem um programa equivocado, sendo nesse caso revolucionários “subjetivos”).
            Superar essa crise histórica do proletariado é uma tarefa fundamental, contra a qual a atual conjuntura joga pesado. Como analisamos em notas postadas em nosso blog e em artigos como Trabalhadores gregos fazem greve geral contra ataques do governo (março de 2010) e o mais recente, Os caminhos da luta de classes na França (janeiro de 2011), as direções dos atuais processos de massas traem o proletariado e levam à sua derrota, gerando assim um forte clima de desmoralização que pode facilmente levar de volta à desorganização que os trabalhadores enfrentaram por tantos anos.

Atuar no movimento e priorizar a formação de novos quadros
            Mas essa experiência que o proletariado, em especial o europeu, tem tido com direções traidoras, pode ter um saldo positivo. Apesar da derrota material de tais processos, a presença de um grupo de propaganda pode ser capaz de mostrar a setores importantes da classe trabalhadora a traição de seus líderes e ganhá-los para um programa revolucionário. Por isso é tão importante que grupos como o Coletivo Lenin, que almejam construir um Partido Revolucionário, não se limitem a atuar no movimento segundo uma agenda “sindical”, de estar ao lado das massas apenas para ajudá-las a conquistar suas bandeiras por reformas. Esse, aliás, é um dos pressupostos básicos do leninismo que tantas organizações ditas “revolucionárias” fazem questão de esquecer.
            Para fazer avançar a consciência do proletariado, é essencial que os grupos que lutam pela construção de um Partido Revolucionário levantem polêmicas políticas com as demais organizações que disputam a liderança da classe, principalmente aquelas que já ocupam posição influente devido ao seu tamanho e recursos. Porém, para convencer os trabalhadores das traições e insuficiências daquelas organizações nas quais eles depositam sua confiança, é igualmente essencial estar lado a lado com eles, construindo suas lutas, e não simplesmente comentando sobre elas (o que muitos, erradamente, entendem enquanto o papel de um “grupo de propaganda”).
            Achar o balanço correto entre a agitação (ou seja, a dedicação às questões imediatas e pontuais) e a propaganda (a dedicação às polêmicas e demais questões políticas de grande profundidade) é a chave para uma organização ser capaz de cumprir algum papel na luta pela mudança da conjuntura, estando ao lado de cada trabalhador nas suas lutas diárias e denunciando com toda a força as organizações que visam devia-las para um caminho que seja diferente do da revolução socialista (intencionalmente ou não).
            Um grupo de propaganda deve, através desse método de atuação, buscar transformar os elementos mais avançados do movimento operário (ou seja, sua vanguarda) em novos quadros revolucionários, sendo capaz assim de cristalizar uma organização de dedicados militantes capazes de dirigir determinados setores da classe trabalhadora e expandir sua influência quando ocorrerem ascensos significativos.
            Essa é a tarefa à qual o Coletivo Lenin se dedica, e pela qual passa também a busca por outros grupos que reivindiquem um programa e um método semelhantes aos nossos, com o objetivo de reagrupar forças revolucionárias através da discussão e atuação conjunta.
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A Tragédia do Lambertismo

Artigo da nossa revista Revolução Permanente


A Tragédia do Lambertismo

A Crise da Corrente O Trabalho
A corrente O Trabalho (OT), tendência interna do Partido dos Trabalhadores, vive em crise desde o começo do Governo Lula. O motivo principal é a dificuldade de conciliar um discurso trotskista com uma política de eternas exigências ao PT, supondo que este possa romper com a burguesia com a qual chegou ao poder. Essa política impede até a realização das reivindicações simples dos trabalhadores.
A crise de O Trabalho se ampliou ainda mais com o racha da atual Esquerda Marxista (EM), vinculada internacionalmente ao Comitê por uma Internacional Marxista (CMI). Quando o racha aconteceu, parecia ter sido à esquerda, até porque a EM acenou a possibilidade de sair do PT. Logo depois, se viu que isso não ia acontecer, em grande parte porque o CMI tem como estratégia habitar partidos socialdemocratas de massa. A seção inglesa do CMI, por exemplo, está dentro do Partido Trabalhista britânico há mais de 50 anos!
A verdadeira causa da ruptura da EM foi o chavismo: um setor da direção de OT passou a considerar que o governo Hugo Chávez poderia ser pressionado até expropriar a burguesia e transformar a Venezuela em um Estado Operário. Por isso esse setor de OT se aproximou do CMI, que é a corrente que mais capitula ao chavismo no mundo, com o seu maior dirigente, Allan Woods, dando conselhos a Chávez e se tornando seu “instrutor particular” de teoria trotskista.
Também contribuiu muito para essa situação a corrupção econômica dos dirigentes das fábricas ocupadas onde OT militava na época, especialmente Serge Goulart. Eles conseguiram um acordo comercial em que o governo da Venezuela compraria toda a sua produção. “Por coincidência”, esses dirigentes logo abandonaram a correta política de OT de ser contra o Mercosul, no momento em que Chávez tentava entrar no bloco controlado pelo capitalismo brasileiro. Depois disso, muitos militantes da Esquerda Marxista estão voltando para OT, enquanto outros até pararam de militar.
Muitos dos militantes do movimento operário que têm a mais forte identidade trotskista estão sendo destruídos por essa crise. Isso é trágico porque o lambertismo (apelido da corrente internacional de que OT faz parte, que se refere ao dirigente histórico Pierre Lambert) foi uma corrente que resistiu ao processo de degeneração política da Quarta Internacional (assim como a tradição que reivindicamos, o espartaquismo, na época representado pela Liga Espartaquista dos Estados Unidos). Os lambertistas foram os primeiros a lutar contra a destruição da Quarta Internacional pela política capituladora de Michel Pablo. Por isso, é preciso estudar as causas da degeneração do lambertismo para saber qual herança devemos superar na luta para construir um partido revolucionário.

O Lambertismo Nasceu de uma Quarta Internacional em Crise
A origem da tradição política de O Trabalho remonta ao fim da Segunda Guerra mundial. Em 1944, os grupos trotskistas franceses se reunificaram, com exceção do grupo do dirigente Barta, que mais tarde se tornaria o Lutte Ouvrière. Assim, depois de uma década de desvios e rachas, foi criada uma seção unificada da Quarta Internacional no país, voltada para o trabalho na classe operária, o Partido Comunista Internacionalista. Um dos dirigentes do PCI era o jovem eletricista Pierre Boussel, que usava o pseudônimo de Pierre Lambert.
Trotsky tinha previsto, nos seus últimos escritos, que a destruição provocada pela Segunda Guerra empurraria os trabalhadores para a revolução, e que isso acabaria com o stalinismo, tanto na URSS como nos países imperialistas. Como todos sabem, essa previsão estava errada – os movimentos de resistência contra o fascismo foram dirigidos pelos partidos stalinistas, que depois os conduziram a restaurar os Estados burgueses em países como França, Itália e Grécia.
Somado a isso, a grande maioria dos militantes da Quarta Internacional na Europa foi assassinada durante a guerra ou pouco antes do seu início, tanto pelos fascistas como pelos stalinistas. Foi o caso dos dirigentes Leon Sedov, Rudolf Klement e Abraham Leon. Ou seja, a Quarta Internacional na Europa estava acéfala e quase destruída. Os novos dirigentes (Pablo, Mandel, Lambert, Healy, Grant) que substituíram a antiga geração, estava na faixa dos 20 anos, totalmente inexperientes, e as orientações erradas de Trotsky os tinham deixado mais perdidos no pós-guerra do que cego em tiroteio.
Diante dos novos acontecimentos, os dirigentes da Quarta Internacional se refugiaram no dogmatismo para evitar que, ao negar alguns prognósticos de Trotsky, acabassem negando também o programa revolucionário. Esse apego ao dogmatismo é bem descrito no texto Gênese do Pablismo, da Liga Espartaquista (traduzido na revista Revolução Permanente número 4, disponível em nosso site). Como esse dogmatismo afetou o PCI?
Em primeiro lugar, o partido se apegou a teses de Trotsky que haviam sido completamente desmentidas pela realidade. Uma delas é a famosa tese da abertura do Programa de Transição (mas que Trotsky defendia desde 1918, no III Congresso da Internacional Comunista, contra a posição de Lênin) segundo a qual “as forças produtivas pararam de se desenvolver na época imperialista”. Como essa tese na verdade é a base teórica que justifica toda a política atual do lambertismo, vamos gastar mais tempo na sua análise.
É importante desmentir essa tese porque ela também é defendida por todas as correntes do morenismo (são defendidas por Moreno nas Teses sobre a Atualização do Programa de Transição, escritas junto com Lambert), pela LER-QI (Liga Estratégia Revolucionária), que faz exceção para o período entre 1945-75, e pela LQB (Liga Quarta-Internacionalista do Brasil), como seus militantes nos falaram durante as nossas discussões.

A Tese da Estagnação das Forças Produtivas
De acordo com O Capital, o que mede o desenvolvimento das forças produtivas é a produtividade do trabalho – ou seja, quanto cada trabalhador pode produzir fisicamente na indústria. O capitalismo não pode existir sem desenvolver constantemente as forças produtivas, como já é declarado no Manifesto Comunista, além do papel desse desenvolvimento na acumulação do capital ser exaustivamente analisado no capítulo 23 do Livro I de O Capital.
Os lambertistas argumentam que isso foi válido na ascensão do capitalismo, mas que parou de acontecer com o começo da era imperialista. Vamos fazer só uma citação, que liga diretamente o desenvolvimento das forças produtivas com as crises, mostrando assim que, se as forças produtivas estivessem estagnadas, nem mesmo as crises poderiam acontecer, porque a produção acabaria se adequando à demanda.
“As crises não são mais do que soluções momentâneas e violentas das contradições existentes, erupções bruscas que restauram transitoriamente o equilíbrio desfeito.”
“Em termos bem genéricos, a antinomia consiste no seguinte: o modo capitalista de produção tende a desenvolver de maneira absoluta as forças produtivas, independentemente do valor, da mais-valia nele incluída, e das condições sociais nas quais se efetua a produção capitalista, ao mesmo tempo que tem por finalidade manter o valor-capital existente e expandi-lo ao máximo (isto é, acelerar sempre o acréscimo desse valor).” (O Capital, Livro III, capítulo 15, parte 2) .
Se as forças produtivas no capitalismo não se desenvolvessem mais, então o nível capitalista de produção se adequaria à procura existente, sem levar à superprodução que causa as crises econômicas. As crises são causadas justamente pela expansão anárquica (sem nenhuma relação com as condições sociais) das forças produtivas. Para desmentir essa tese, a segunda equação de Marx nos mostra que:

l' = m/c+v

A taxa de lucro l' é resultado da divisão (qu e representa uma relação proporcional) da mais-valia pela soma do capital constante e do capital variável. Em outras palavras, o custo das máquinas e das matérias-primas (capital constante) é um fator que pode diminuir ou aumentar a taxa de lucro. Assim, a taxa de lucro não precisa necessariamente, para aumentar, rebaixar diretamente os salários (capital variável). Ela pode aumentar através da baixa do valor do capital constante – o que acontece por causa do desenvolvimento tecnológico, que aumenta a produtividade das máquinas e reduz o custo da exploração de matérias-primas.
Se as forças produtivas e a tecnologia tivessem parado de se desenvolver, seria impossível aumentar os salários sem rebaixar diretamente a taxa de lucros. Na realidade, o aumento de salários não põe em risco o a taxa de lucro porque ela é mais que compensada com a intensificação do trabalho, facilitada pela automatização parcial da produção.
Caso a tese da estagnação fosse correta, levaria a uma situação social em que cada luta, mesmo que por um aumento salarial, teria que ser derrotada violentamente pelos empresários, ou em que cada aumento do lucro iria piorar diretamente o nível de vida dos trabalhadores. Ou seja, eles não teriam outra opção para fugir da miséria absoluta além da luta revolucionária.
Para argumentar contra toda a realidade, os lambertistas dizem que a maior força produtiva, o ser humano, parou de se desenvolver por causa do capitalismo. Em primeiro lugar, não existe dentro da economia algo como “ser humano”. Do ponto de vista do capitalismo, os trabalhadores são força de trabalho e nada mais. A força de trabalho está, na verdade, se tornando mais produtiva – ela vive hoje mais tempo, tem menos doenças, é mais alfabetizada e tem muito mais conhecimento técnico do que na época de Trotsky.
Mesmo que a condição de vida dos trabalhadores tivesse piorado no mundo inteiro nos últimos 70 anos, isso não mudaria o fato de que as forças produtivas se expandiram. Se cada trabalhador, por pior que vivesse, estivesse produzindo mais, as forças produtivas ainda estariam se desenvolvendo!
Para dar um exemplo, segundo a visão dos lambertistas, o primeiro período da Revolução Industrial (1760-1825) teria significado um atraso colossal das forças produtivas porque, segundo o próprio Marx, em O Capital, houve um retrocesso absurdo nas condições de vida da classe trabalhadora. No entanto, a etapa representou um aumento significativo das forças da produção capitalistas na Europa.
A tese sobre a estagnação das forças produtivas, que parece ortodoxa, pode ser usada para levar a resultados oportunistas. De acordo com a argumentação lambertista, se cada reivindicação por aumento de salários pode colocar todo o sistema em risco, então não há necessidade do programa transitório: as próprias lutas por reformas já cumpririam esse papel. Obviamente, essa não era a concepção do próprio Trotsky, senão não haveria nem mesmo porque existir um programa de transição para o socialismo.
É impossível levar os trabalhadores a posições revolucionárias apenas lutando por reformas ou reivindicações democráticas, simplesmente porque o capitalismo não consegue sequer resolver algumas delas. É justamente pela incapacidade do capitalismo de garantir algumas reformas e reivindicações democráticas que só pondo fim a esse sistema, levantando a necessidade da luta pelo poder operário as conquistas mais básicas podem ser alcançadas de maneira definitiva.
Sempre que a necessidade da luta pelo poder não é colocada, mas ocorre apenas por reformas, as massas são mais cedo ou mais tarde desmobilizadas e ficam presas num beco sem saída. Isso leva à frustração de suas lutas e, futuramente, mesmo à perda das conquistas. A idéia de que a luta por reformas pode levar à revolução pela “objetividade revolucionária” das massas faz parte dos conceitos básicos do pablismo, como discutiremos a seguir.

O Trabalho e a Crise da Quarta Internacional
O pablismo foi o programa político que a Quarta Internacional adotou após o seu Terceiro Congresso em 1951, tendo como principal formulador o dirigente Michel Pablo. O pablismo surgiu sob a pressão do crescimento do nacionalismo (no mundo colonial) e principalmente do stalinismo no movimento operário, enquanto a Quarta permanecia um setor isolado e pequeno.
Vendo a expropriação da burguesia realizada por movimentos liderados pelos stalinistas fora de suas pretensões originais (como foi a Revolução Chinesa e a Revolução Iugoslava), Pablo formulou uma teoria centrista na qual os nacionalistas e principalmente os stalinistas seriam capazes de liderar a classe trabalhadora até a revolução.
Obviamente isso só era possível “ignorando” todas as vezes em que os stalinistas haviam traído a classe e levado à reconstrução do capitalismo, mesmo depois de os trabalhadores terem esmagado o Estado, como foi o caso muito mais comum no pós-guerra. Se o stalinismo não traísse as lutas operárias, não haveria razão para a existência da Quarta Internacional. Essa foi exatamente a conclusão política de Pablo, que passou a defender que os trotskistas se tornassem um grupo de pressão sobre os stalinistas, somado ao resto da massa, para empurrá-los até a revolução.
O efeito disso nas posições políticas era deixar de denunciar as traições dos stalinistas e se adequar às suas demandas reformistas (negando a necessidade de colocar à frente demandas transitórias). Os pablistas acreditavam que as demandas democráticas ou reformas, por serem levadas a frente pelos stalinistas, seriam suficiente para chegar a uma situação revolucionária. Para Pablo, era a “objetividade revolucionária” (ou seja, inconsciente) da classe operária (e não a luta subjetiva, por consciência revolucionária) que seria o fator principal para a revolução.
O pablismo fez da Quarta Internacional um bloco de pressão sobre os stalinistas, uma organização que esperava passivamente que as palavras de ordem do stalinismo (criadas para trair as situações revolucionárias) fossem liderar as massas até a vitória. O resultado disso é que a Quarta Internacional, como foi criada em 1938, hoje já não existe mais. Ela foi destruída por essa política centrista.
Os pablistas não denunciavam as traições dos stalinistas e nacionalistas, pois não tinham o objetivo de desmoralizar eles diante da classe, mas de empurrar esses partidos para a esquerda, ou seja, “convence-los” de uma política revolucionária. Pablo também propôs que várias correntes da Quarta se dissolvessem nos partidos stalinistas sem nenhuma crítica (política que foi chamada de “entrismo sui generis”). Em outras palavras, os pablistas queriam se adaptar, e não resolver, a crise de direção revolucionária. Como dissemos, houve setores da Quarta Internacional que resistiram de maneira revolucionária a esse processo degenerativo, como foi o caso do PCI dos lambertistas, expulso pelo Secretariado Internacional pablista em 1951.
Entretanto, analisando as posições da corrente O Trabalho hoje, vemos nela um ideal muito parecido com aquele dos pablistas, só que direcionado à tendência majoritária do Partido dos Trabalhadores – a Articulação Sindical. Durante o segundo turno das últimas eleições, OT enviou uma carta reafirmando seu compromisso em votar em Dilma e ao mesmo tempo sugere que o PT se afirme como “representante dos oprimidos”.
“Os trabalhadores querem derrotar Serra e enterrar de vez a política pró-imperialista. Chegou a hora do PT se reafirmar como o partido que representa a maioria oprimida da nação! Se hoje no segundo turno os petistas vêem dificuldades, nós, da Corrente O Trabalho, queremos ajudar a buscar a saída.” (Carta da Corrente O Trabalho do Partido dos Trabalhadores, 19 de outubro de 2010).
Na mesma carta é citada a intervenção do principal dirigente de OT, Markus Sokol, na reunião da Comissão Executiva do PT, em que ele propõe que o PT dê aos trabalhadores um “projeto de futuro”. OT sugere, inclusive, que o partido abra o tempo de campanha na televisão para que organizações operárias combatam Serra. Pouco depois, O Trabalho pede que Dilma, quando eleita, retire as tropas de ocupação brasileiras do Haiti. Essa é a política de exigências ao PT à qual nos referimos no começo desse artigo.
OT parece imaginar que o PT, associado à burguesia nacional e estrangeira através de um governo burguês, possa simplesmente abandonar seu programa traidor (e seus dirigentes as condições materiais que possuem) e deixar de participar das reuniões do clube da burguesia. A “estratégia” de OT é tentar fazer pressão sobre a direção majoritária do PT, apesar de suas claras traições, para romper com a burguesia e transformar o Brasil em Estado operário. Isso nada tem a ver com uma estratégia revolucionária. É, na verdade, esperar que uma liderança burocrata traidora e aburguesada seja consequente com os interesses da classe – o que jamais irá acontecer!
De fato, a presença de OT no PT até hoje não tem o objetivo, como eles afirmam, de “estar onde estão os trabalhadores”. As correntes que querem disputar os trabalhadores de base, influenciados pelo PT, para um programa trotskista, devem estar presentes em unidade de ação com o PT, na CUT e demais fóruns onde ocorrem lutas. Dentro do PT, O Trabalho simplesmente tenta fazer pressão na Articulação, se adaptando à crise de direção.
Alguma semelhança com os pablistas? Assim como eles, O Trabalho não faz críticas diretas à Articulação, pois seu objetivo não é desmascarar essa liderança diante dos trabalhadores, mas “ajudar” ela a chegar em conclusões revolucionárias. Na verdade, OT acredita que basta forçar a Articulação a lutar por reformas, já que (de acordo com a tese da estagnação das forças produtivas) isso vai levar o PT a expropriar a burguesia. Essa é a tragédia do lambertismo – uma corrente que se tornou justamente aquilo que tinha se proposto a combater!
Como mostramos, a tese da estagnação das forças produtivas é uma justificativa para conclusões centristas. No entanto, ela por si só não leva a tais conclusões (Trotsky é um exemplo disso). É como se os lambertistas tivessem juntado a fome com a vontade de comer, ou seja, tivessem mantido dogmaticamente uma tese que justifica a sua tendência ao centrismo. Para entender a origem dessa tendência, é preciso analisar as pressões que sofreu e o desenvolvimento histórico da corrente lambertista, o que nós faremos após analisar duas características importantes das correntes lambertistas – a stalinofobia e o obreirismo.

Stalinofobia
Uma segunda consequência da incapacidade do PCI francês de superar os problemas da Quarta Internacional, dessa vez um problema surgido no pós-guerra, é a sua stalinofobia. A stalinofobia é uma negação implícita do caráter dual da burocracia soviética e um preconceito contra a composição operária dos partidos stalinistas.
Segundo Trotsky escreveu em A Revolução Traída, a burocracia stalinista na URSS era uma casta com um caráter dual. Por um lado, ela era uma camada privilegiada que se aproveitava das conquistas da revolução, e que acabaria destruindo elas para se tornar uma nova burguesia (como aconteceu entre 1989-1991). Mas, por outro lado, ela se baseava na planificação econômica criada pela revolução e, portanto, tinha que defender (com métodos burocráticos) a economia planificada, como um parasita que defende o organismo de que se nutre.
Diante do prestígio do stalinismo após a derrota de Hitler, e da expropriação da burguesia nos países do Leste Europeu, alguns trotskistas poderiam pensar que a burocracia tinha ainda um papel revolucionário a desempenhar se empurrada para a esquerda. Na verdade, essa é a tese fundamental do pablismo, como vimos há pouco. Ao negar corretamente qualquer caráter revolucionário no stalinismo, o PCI (assim como outros setores da Quarta Internacional) começou a considerar a burocracia como uma camada “completamente contra-revolucionária”. Qual é o significado dessa concepção?
Ela fez os lambertistas colocarem um sinal de igual entre os dois lados nos conflitos entre a burocracia soviética e o imperialismo, apesar de considerarem a URSS Estado Operário. A noção de que a burocracia não tem nada a perder junto com os Estados operários burocratizados impediu os lambertistas de entenderem a pressão imperialista contra esses países. Para eles, a Guerra Fria foi uma espécie de “armação”, onde não havia nada em jogo. Segundo os lambertistas, o imperialismo não tinha interesse em destruir a URSS stalinista e recuperar ela para economia de mercado. A história já mostrou se eles estavam certos ou não.
Além do mais, essa incompreensão do caráter dual da burocracia os levará com certeza a uma política errada agora, quando Cuba, e principalmente a Coréia do Norte, estão sob ameaça direta do imperialismo dos EUA (até mesmo ameaça de guerra, no caso da Coréia). Outra consequência é que, por causa dessa caracterização, é impossível para os lambertistas entenderem que uma ala da burocracia pode lutar contra a restauração imediata do capitalismo (que destruiria seus privilégios). Num caso assim, a política trotskista seria a frente única com essa ala contra a restauração capitalista. Segundo o Programa de Transição:
“Se amanhã a tendência burguesa-fascista, isto é, ‘fração Butenko’, entra em luta pela conquista do poder, a ‘fração Reiss’ tomará, inevitavelmente, lugar no outro lado da barricada. Encontrando-se momentaneamente como aliada de Stálin, ela defenderá, é claro, não a camarilha bonapartista deste, mas as bases sociais da URSS, isto é, a propriedade arrancada dos capitalistas e estatizada. Se a ‘fração Butenko’ se achar em aliança militar com Hitler, a ‘fração Reiss’ defenderá a URSS contra a intervenção militar no interior da URSS tanto quanto na arena mundial. Qualquer outro comportamento seria uma traição.
“Assim, se não é possível negar, antecipadamente, a possibilidade, em casos estritamente determinados, de uma frente única com a parte termidoriana da burocracia contra a ofensiva aberta da contra-revolução capitalista, a principal tarefa política na URSS continua sendo, apesar de tudo, A DERRUBADA DA PRÓPRIA BUROCRACIA TERMIDORIANA. O prolongamento de seu domínio abala, cada dia mais, os elementos socialistas da economia e aumenta as chances de restauração capitalista.”
Apesar dos efeitos da stalinofobia dos lambertistas na defesa dos Estados operários burocratizados, a maior consequência prática desse desvio foi fazer uma série de blocos no movimento com setores anticomunistas. É por isso que, em 1947, quando um setor de direita da Confederação Geral dos Trabalhadores (maior central sindical francesa, controlada pelo Partido Comunista Francês) rompeu com ajuda financeira dos Estados Unidos para formar a central sindical Força Operária (FO), o PCI lambertista entrou nela. Na verdade, os lambertistas estão até hoje nessa central que diz, em seus estatutos, que os sindicatos não devem se envolver com política. Dessa forma o PCI se retirou da oportunidade de disputar inúmeros trabalhadores radicalizados na época, inevitavelmente atraídos, num primeiro momento, pela CGT do Partido Comunista.
Outro efeito da stalinofobia foi fazer o lambertismo demorar anos e anos para ter uma caracterização clara sobre a China e sobre Cuba como Estados operários deformados. É claro que ela também contribuiu para que o lambertismo estivesse do lado errado das barricadas, apoiando todos os movimentos de direita que destruíram os Estados operários no Leste Europeu e a União Soviética entre 1989 e 1991, como veremos mais a frente.

Obreirismo
Existem alguns problemas nas correntes originadas do lambertismo que foram fruto da sua imaturidade política. Todas as correntes trotskistas francesas de antes da Segunda Guerra eram de composição de classe média. Ao tentar corrigir isso, o PCI exagerou para o outro lado, levando ao obreirismo – ou seja, a desconsiderar quaisquer lutas que não fossem especificamente da classe operária.
Por exemplo, durante o maio de 1968 na França, a OCI (sucessora do PCI) foi a única corrente francesa com uma posição política correta. Ela chamou todos os setores em greve geral a se unificarem num comando único, que seria o embrião de um governo direto dos trabalhadores. Mas ao mesmo tempo, a OCI ignorou que o movimento estudantil fervilhava.
De acordo com relatos, os militantes de sua colateral estudantil, a LER (Liga dos Estudantes Revolucionários), simplesmente abandonaram as barricadas da universidade Sorbonne e foram para as fábricas, onde eles sabiam que a luta realmente seria decidida. Se a atitude foi heróica, não podemos também deixar de notar que impediu a OCI de recrutar toda uma importante camada de jovens militantes, deixando o partido de mãos abanando quando a situação revolucionária foi frustrada. Ao invés disso, a OCI poderia ter consolidado o trotskismo numa grande camada de juventude francesa.
Outra consequência do obreirismo é um método de ver a questão das opressões específicas sob um viés puramente sindical. Por exemplo, O Trabalho resume a sua linha sobre mulheres à defesa da licença-maternidade, não faz propaganda da luta pela legalização do aborto nem discute a opressão da mulher fora do local de trabalho, muito menos o trabalho doméstico.
No caso da questão homossexual é pior ainda – nem a palavra de ordem de previdência pública igual para casais do mesmo sexo eles levantam, capitulando assim ao atraso de consciência dos trabalhadores homofóbicos. Em suma, por causa do viés sindical, eles não lutam coerentemente contra a família burguesa, fonte e base da opressão sobre as mulheres e homossexuais.
A política de O Trabalho sobre a questão negra se limita a denunciar as enganação das cotas, defendendo o fim do Vestibular. OT nunca participa das lutas contra a violência policial e contra a opressão aos trabalhadores de religiões de matriz africana, questões fundamentalmente associadas ao racismo na sociedade brasileira.
A exceção dessa subordinação sindical na questão do negro é a seção estadunidense da corrente lambertista, chamada Socialist Organizer. Eles defendem as teses originais do SWP [Partido dos Trabalhadores Socialistas] adotadas e formuladas por Trotsky em 1938. Por isso, consideram que os negros americanos são uma nação oprimida, que deve ter direito à autodeterminação . Consequentemente, o Socialist Organizer defende, ao lado da formação de um partido operário, a criação de um partido negro. Isso os tem levado a apoiar iniciativas reformistas do movimento negro estadunidense, como a candidatura presidencial de Cynthia McKinney, do Partido Verde americano, em 2006.

A Frente Única Anti-imperialista
A stalinofobia e o obreirismo dos lambertistas são desvios que poderiam ser corrigidos se houvesse democracia interna dentro da corrente e se ela já não tivessese se comprometido com posições centristas ao incorporá-las formalmente ao seu programa. Infelizmente essas duas deformações incorrigíveis (falta de democracia interna e comprometimento centrista) ocorreram ao longo da história dos lambertistas.
Em 1955, importantes membros da direção do PCI que haviam resistido ao pablismo foram expulsos do partido. Esse episódio estava ligado diretamente à aplicação de uma posição centrista pelo PCI, a frente única anti-imperialista. Originalmente formulada pela Terceira Internacional , a frente única anti-imperialista defendia alianças temporárias com movimentos burgueses pela independência das colônias. Essas teses foram formuladas antes que Trotsky tivesse generalizado as conclusões da Teoria da Revolução Permanente (o que aconteceu em 1927-1929). Posteriormente, foram usadas pelo stalinismo para justificar a sua política de colaboração de classes nos países atrasados.
A colaboração dos trabalhadores dos países atrasados com suas burguesias nativas consegue apenas, na melhor das hipóteses, criar independências artificiais, enquanto os países permanecem semi-colônias economicamente dependentes do imperialismo. Somente a destruição do capitalismo num país colonial rompe esses laços de dependência. Por isso, consideramos a frente única anti-imperialista colaboração de classe e defendemos a necessidade de que o movimento operário nos países periféricos rompa quaisquer laços com sua burguesia nativa e se diferencie para lutar pela revolução socialista. Qual é a importância disso para entender a crise do PCI?
Marcel Bleibtreu e Renard foram os principais dirigentes do PCI no rompimento do partido com os pablistas, tendo escrito Para Onde vai o Camarada Pablo? Eles tinham sido enganados por Mandel (que preferiu ficar criticando Pablo diplomaticamente na direção da Quarta Internacional, ao invés de confrontá-lo abertamente perante a base) e foram expulsos da Internacional depois de terem o seu pedido de formar uma seção simpatizante na França negado.
Pierre Lambert, que se tornou o maior dirigente do partido, e deu nome à corrente, desempenhou um papel muito menor nesse processo. Ele era o principal dirigente sindical do PCI e militava dentro da Força Operária. Foi rapidamente ganho para a luta contra os pablistas mas não chegou a travá-la diretamente. Lambert só chegou ao controle da direção do PCI após o debate sobre a posição diante da luta do povo argelino pela libertação nacional contra o imperialismo francês.
Em 1954, o governo francês começou uma operação militar de repressão em massa contra a luta na Argélia. Foi criada a OAS (Organização do Exército Secreto), um grupo paramilitar de torturadores para destruir as organizações que lutavam pela libertação nacional. Guy Mollet, da SFIO (o antigo partido socialdemocrata) se tornou primeiro-ministro para dar uma “cara operária” ao colonialismo.
A Guerra da Argélia dividiu a esquerda francesa, levando todos os partidos a crises. Vários grupos como a ORA (Organização Revolucionária Anarquista) tiveram quase todos os seus militantes presos. Michel Pablo foi preso por falsificar dinheiro com o objetivo de arrecadar fundos para a luta de libertação nacional argelina. A SFIO rachou, criando o PSU (Partido Socialista Unificado), um partido sem base de unidade firme, reunindo várias correntes que defenderam o povo argelino (um tipo de “PSOL melhorado”).
Havia duas correntes principais no movimento de libertação nacional na Argélia. Uma era o MNA (Movimento Nacional Argelino), dirigido por Messali Hadj, que tinha uma base mais urbana e adotava métodos pacíficos. A outra era a FLN (Frente de Libertação Nacional), de Boumediénne e Frantz Fanon, baseada no campo e que estava organizando a luta armada.
À parte da tarefa óbvia de defender militarmente os dois movimentos, os trotskistas deveriam saber que nenhum deles seria seria capaz de libertar a Argélia do imperialismo . Por isso, não deveriam dar a eles nenhum apoio político. Tanto o MNA quanto a FLN eram movimentos policlassistas, sem programa revolucionário e que cairiam facilmente na conciliação de classe com a burguesia. A política correta seria trabalhar junto ao mais dinâmico, tentando criar uma diferenciação de classe dentro dele, que se tornaria o núcleo para um partido revolucionário dos trabalhadores argelinos.
Um setor do PCI liderado por Lambert decidiu apoiar politicamente o MNA, a mesma posição do grupo inglês de Gerry Healy, que também havia rompido com o Secretariado Internacional. Provavelmente o motivo de Lambert foi o caráter pacífico do movimento, mais aceitável pela aristocracia operária francesa. Ficou óbvio o erro dessa concepção logo depois, quando Messali Hadj fez um acordo com o imperialismo francês do general De Gaulle e o MNA abandonou a luta pela independência.
O grupo de Bleibtreu na direção do PCI defendia, assim como o Secretariado Internacional pablista, apoio à FLN. Ao ter uma posição minoritária, Bleibtreu e seus aliados mais próximos foram expulsos do PCI, de forma totalmente antidemocrática, em 1955. É interessante perceber que ambas as posições de Bleibtreu e Lambert eram centristas. Ambas davam apoio político a movimentos que (por suas composições e programas) não poderiam levar adiante uma luta revolucionária contra as burguesias argelina e francesa. No entanto, isso não justifica a expulsão dos dirigentes. Essa expulsão representou um marco que acabou com a democracia interna no PCI, que passou a ser dirigido por Lambert praticamente sem nenhuma oposição interna.
A frente única anti-imperialista aplicada pelo PCI foi um erro centrista grave. Ele foi base para que o PCI começasse uma política de unidade com o Partido Operário Revolucionário (POR) da Bolívia. Como discutimos em outras publicações (veja nosso livreto O Pablismo e a Crise da Quarta Internacional), o POR traiu a revolução boliviana de 1952 com a mesma desculpa da frente única anti-imperialista, dando apoio político ao partido burguês MNR (Movimento Nacionalista Revolucionário). Mas por algum tempo, esse centrismo do PCI (que mudou o nome para OCI em 1965) era apenas potencial, ou seja, o erro poderia ser corrigido. Por que isso não aconteceu?

O “Princípio da Frente Única”
Nessa época, a OCI era vinculada ao Comitê Internacional. O Comitê era um agrupamento de partidos que haviam resistido (embora com muitas falhas) ao pablismo, depois que o maiores grupos “antipablistas” (o SWP americano e o PST argentino de Nahuel Moreno) se reuniram com Pablo e Mandel para formar Secretariado Unificado (SU). A corrente cuja tradição reivindicamos, a Liga Espartaquista, chegou a participar do Comitê Internacional, após romper com o SWP. Mas ela foi expulsa de maneira burocrática em 1966, apenas por apresentar diferenças com a maioria.
O principal membro do Comitê Inernacional era o Workers Revolutionary Party (WRP) inglês, dirigido por Healy e que mandava no agrupamento de maneira antidemocrática. A OCI, que também tinha uma prática burocrática, permanecia no Comitê por ter um acordo de não entrar em conflitos políticos com o WRP. Em outras palavras, o Comitê Internacional não era uma Internacional centralizada, mas um agrupamento em que as seções tinham um acordo de não criticarem uma a outra para manterem seus feudos burocráticos na França e na Inglaterra.
Em 1971, a OCI aprofundou suas relações fraternais com o POR boliviano, quando defendeu uma nova traição que ele cometia sob o mesmo argumento da necessidade de se aliar a setores nacionais da burguesia. Dessa vez, o POR se subordinou à liderança política do General Torres durante a luta contra o golpe militar de direita na Bolívia. Assim como em 1952, o POR foi incapaz de levar adiante uma política que fizesse os trabalhadores bolivianos romperem com os setores burgueses do movimento contra o golpe militar de direita que havia ocorrido. Por isso, a luta contra o golpe foi frustrada e as massas bolivianas enganadas.
Ainda em 1971, a OCI foi expulsa do Comitê Internacional. O WRP de Healy começou a impor normas burocráticas contra os lambertistas, temendo que a aliança da OCI com o POR ameaçasse seu controle sobre o Comitê Internacional. Assim, o CORQUI (Comitê de Organização pela Reconstrução da Quarta Internacional), que foi o bloco formado pelos lambertistas após sua expulsão, já nasceu marcado pela política da colaboração de classes . A OCI dava assim o seu último passo para uma política centrista pois, nos países periféricos do capitalismo, tomava como regra a colaboração com setores da burguesia (como os partidos nacionalistas).
Ao formular a sua defesa da política do POR boliviano, a OCI justificou as suas posições e as transformou na regra de sua ação nos países atrasados, reivindicando formalmente a frente única anti-imperialista. Mais do que isso, a degeneração política da OCI na França também a levou a dizer que a frente única (unidade de ação com outros partidos do movimento) não é uma tática, mas um princípio. Em outras palavras, a OCI dizia que os revolucionários deveriam sempre e necessariamente estar em blocos com os reformistas.
Sob pressão de estar isolada do movimento de massas, a OCI acabou decidindo entrar numa colaboração permanente com os reformistas. A isso, o partido chamou de “princípio da frente única” , numa referência à tática de unidade de ação com outras organizações. A política clássica de frente única (resumida por Lenin na máxima “Bater juntos, marchar separados”) tem o objetivo de expor líderes traidores diante das suas bases durante uma unidade de ação que soma esforços de várias organizações numa reivindicação mínima que pode ser defendida por todos os grupos envolvidos (uma luta por reforma, um comitê de autodefesa, uma assembleia sindical). Já esse “princípio da frente única”, claramente era um nome bonito para “estar grudado à política dos reformistas” e tirar uma casquinha da sua popularidade, abandonando a tarefa de defender um programa revolucionário.
Para selar esse “casamento” com os reformistas, a OCI só teve uma saída – rebaixar o seu programa e sempre tomar, como suas, as bandeiras da socialdemocracia. Sempre, ao invés de formular a sua própria política e defendê-las no movimento, os lambertistas faziam exigências para que as correntes reformistas as adotassem. Quando isso não acontecia, os lambertistas adotavam o programa dos reformistas. Já vimos que a justificativa dessa postura de adotar um programa reformista é encontrada na tese de que as forças produtivas pararam de se desenvolver, o que permite agitar um programa de reformas como supostamente suficiente para levar à revolução.
A OCI levou adiante todas as conclusões políticas do seu “princípio”. Nos anos 70, entrou no Partido Socialista francês para emblocar melhor com a socialdemocracia. Muitos dos seus quadros, como Lionel Jospin, Cambadélis e Jules Favre acabaram rompendo com a corrente lambertista e ficando dentro do PS mesmo. Nessa época também se formava no Brasil o PT e os lambertistas formavam O Trabalho . OT fez também um entrismo (ou melhor, um “entrismo sui generis”) na Articulação, em 1982. Assim como aconteceu com seus camaradas da OCI, muitos quadros de OT acabaram ficando dentro da Articulação (já que não havia difrença na hora da política a ser defendida), como Palloci, Gushiken e Clara Ant.
Para manter sua capitulação à Articulação frente a outros grupos à esquerda no PT, O Trabalho formulou, já em 1981, a tese sectária e oportunista de que o importante é seguir a base operária de massas do partido e não as correntes centristas da esquerda do PT. Por isso, OT sempre emblocou com a Articulação contra a esquerda do PT. No momento em que foi formado o PSOL, a corrente fez várias acusações pela esquerda a Heloísa Helena e os parlamentares “radicais”, mas com o único objetivo de justificar sua permanência dentro do PT, lançando sucessivos manifestos pelo “resgate do PT”. Ao mesmo tempo, OT se mantém tanto na direção do Partido dos Trabalhadores quanto na da CUT, mesmo tendo um peso muito menor do que o necessário para ter esses cargos. Isso sugere fortemente que O Trabalho permanece nessas direções por acordo com a Articulação. Foi esse o caminho para o qual levou o “princípio da frente única”.

“A linha da democracia, a qual as massas darão o conteúdo”
Por tudo isso, o lambertismo poderia se classificar como uma corrente centrista cada vez mais à direita. Mas isso mudou em 1984, quando o congresso da OCI votou uma teoria inteira formulada por Lambert para justificar a sua capitulação. Nesse ano, a OCI referendou todo o seu centrismo como “estratégia revolucionária” válida, mais ou menos como Moreno fez com as teses sobre as “revoluções de fevereiro”, marcando o seu rompimento definitivo com todos os aspectos de um política bolchevique.
Essa teoria era a “linha da democracia, a qual as massas darão o conteúdo”. Radicalizando o objetivismo contido na sua posição sobre as forças produtivas, assim como a defesa da frente única como princípio, Lambert concluiu que, durante a luta pela democracia e pelas reivindicações democráticas, as massas recuperariam o conteúdo democrático que o imperialismo teria destruído no Estado. Nesse processo, as massas poderiam, segundo Lambert, levar as suas direções reformistas a romperem com a burguesia, que já não poderia fazer concessões democráticas. Em outras palavras, o programa democrático é suficiente para dirigir as massas até a revolução socialista, pois as lideranças reformistas e socialdemocratas podem ser levadas a romper com a burguesia pelo “conteúdo revolucionário inerente às massas”, em sua luta por democracia (também exposto no livro já citado de Stéphane Just).
Assim, os lambertistas chegaram, em ritmo diferente, ao mesmo programa dos pablistas que eles dizem combater. Hoje eles defendem um reformismo descarado, se escondendo atrás das correntes reformistas com influência de massas (sem nunca denunciar suas traições) com esperança de fazer pressão com um programa democrático até elas romperem com a burguesia, acreditando que isso é a verdadeira estratégia para a revolução. Na verdade, significa que os lambertistas abandonaram a luta pelo poder operário, substituindo isso por uma concepção em que o “governo dos trabalhadores” é o governo da socialdemocracia sem a burguesia. No Brasil, por exemplo, eles demandam que “o PT rompa com a burguesia”.
A política da OCI frente ao governo Miterrand na França foi agitar algumas palavras de ordem para empurrar o governo para a esquerda, da mesma forma com a qual O Trabalho usa suas “campanhas” para fazer pressão sobre o governo Lula. A OCI jamais levantou a necessidade de construir uma oposição classista contra o governo, muito menos usou palavras de ordem transitórias para desmascarar a sua natureza capitalista. Daí em diante, a trajetória dos lambertistas foi apenas um aprofundamento do ponto ao qual eles chegaram em 1984.
Ainda em 1984, os lambertistas franceses abandonaram a forma organizativa de uma organização leninista ao propor um agrupamento de militantes de várias as matizes políticas. Isso ocorreu com o Movimento por um Partido dos Trabalhadores (inspirado no PT brasileiro). A OCI se tornou uma corrente do PT francês quando ele foi formado e permaneceu nessa posição até 2006, quando o próprio partido se dissolveu numa aliança com parlamentares e prefeitos que haviam rompido com o Partido Socialista, e formou o POI (Partido Operário Independente). O programa do POI sempre se colocou na defesa do “classismo”, sem nem mesmo defender o socialismo, muito menos a revolução.
Durante a queda dos Estados Operários deformados no Leste Europeu e na União Soviética, entre 1989-1991, a “linha da democracia” levou os lambertistas à posição de apoiar todas as mobilizações reacionárias que destruíram os Estados operários burocratizados. Só para dar um exemplo extremo, os lambertistas apoiaram a queda do Muro de Berlim como “defesa da democracia” na Alemanha Oriental, somando a isso o disparate de dizer que a “reconquista da democracia” no país iria levar a revolução socialista até a Alemanha Ocidental!
Depois do fim da União Soviética, o direitismo dos lambertistas se acentuou mais ainda. Quando a burguesia começou a falar em globalização, a “linha da democracia” não poderia levar a outro resultado que não fosse a defesa dos Estados nacionais. O arguemento dos lambertistas é de que as instituições imperialistas, como o FMI e o Banco Mundial, retiram o “conteúdo democrático” dos Estados nacionais (como se eles tivessem algum sob a dominação burguesa). Por isso, a posição dos lambertistas no combate ao imperialismo é de total capitulação ao nacionalismo, tornando-se quase indistinguível.
O pior é que os lambertistas não defendem esse “conteúdo democrático” do Estado apenas nos países atrasados. Neles, onde as palavras de ordem democráticas e nacionais ainda têm algum conteúdo progressivo (como a anulação da dívida externa), os revolucionários devem se esforçar para se diferenciar dos nacionalistas ao defenderem tais bandeiras, apontando sempre a questão de classe em primeiro plano. Mas os lambertistas defendem os Estados nacionais nos próprios países imperialistas (como se o Estado francês fosse uma conquista das massas). Não por acaso, as posições dos lambertistas, em alguns casos, beiram a xenofobia. Eles são contra o direito da autodeterminação da minoria berbere na Argélia, sob o argumento de que isso destruiria o Estado nacional argelino. E sua posição contra o zapatismo, no México, se baseia no fato de serem contra a autonomia das comunidades indígenas.
Em 1993, a corrente lambertista internacional se proclamou como “A Quarta Internacional” (“quem não está dentro é porque não quer”), ignorando a dinâmica do processo pelo qual havia passado o trotskismo ao longo de mais de sessenta anos. Os lambertistas também contribuíram com a formação da AcIT (Acordo Internacional dos Trabalhadores), uma plataforma composta por setores da central sindical americana AFL-CIO e da burocracia sindical de todo o mundo, comprometida (em sua declaração principal) com a manutenção dos Estados nacionais e da ordem burguesa.
O giro a direita da OCI em 1984 foi tão grande, que Stéphane Just, militante da corrente por mais de 30 anos, rompeu para formar o Comitê pela Reorientação do Partido Operário Revolucionário, que lutou por uma política em oposição ao curso que o lambertismo tomou com a “linha da democracia”.
Duas outras organizações se originaram do racha de Stéphane Just com a OCI. Uma é o Círculo pela Construção do Partido Operário Revolucionário e a outra é o Grupo Bolchevique. Ambas fazem várias críticas corretas ao lambertismo (o movimento pelo PT na França, o apoio político ao MNA, a “reproclamação” da Quarta Internacional). Especialmente o Grupo Bolchevique faz várias críticas acertadas contra o centrismo que impregnou a OCI a partir da década de 1970.
Ao mesmo tempo, essas correntes originadas do racha de Just herdaram vários erros do período do PCI, como a tese da estagnação das forças produtivas, o obreirismo e principalmente a stalinofobia. Durante a destruição da URSS, o Grupo Bolchevique, por exemplo, defendeu uma frente com Yeltsin contra os setores resistentes da burocracia (que eram contra a destruição imediata do Estado operário degenerado) para “liquidar a KGB”. Discutir criticamente o legado do lambertismo, principalmente com o Grupo Bolchevique, é uma tarefa fundamental na luta pela reconstrução da Quarta Internacional.

Conclusão
A tragédia do lambertismo é que uma das correntes que mais combateu o pablismo acabou sucumbindo a ele, por outro caminho e em ritmo diferente, ao sustentar dogmaticamente vários erros da Quarta Internacional e se adaptar completamente ao reformismo e às bandeiras democráticas. Isso fez com que as correntes lambertistas se tornassem um grupo que tenta tristemente empurrar os líderes traidores do movimento operário para a revolução, através do “conteúdo objetivamente revolucionário” que as massas supostamente dariam ao processo. O pior é o fato de os dirigentes lambertistas acreditarem que, fazendo isso, cumprem um papel revolucionário.
Mesmo assim, ainda existem numerosos militantes lambertistas que realmente lutam contra concepções centristas no movimento quando defendem a CUT, combatem as ilusões de que cotas e ações afirmativas resolveriam os problemas da classe operária, apoiam na prática o MST e exigem que uma corrente trotskista tenha um caráter de classe realmente operário. Esses militantes precisam discutir seriamente a crise de O Trabalho e do lambertismo, para identificarem a sua origem.
Se você concorda com isso, discuta com nosso Coletivo sobre o legado do lambertismo e sobre as falhas no seu combate ao pablismo. Temos muitos materiais sobre o assunto, assim como a tradição internacional que reivindicamos, o espartaquismo (que surgiu em 1962, na luta contra o pablismo dentro do SWP americano). Mais tarde, a Liga Espartaquista esteve presente no Comitê Internacional e chegou a buscar relações com o CORQUI.
Essa discussão pode criar a base para darmos novos passos na luta pela reconstrução da Quarta Internacional, que ainda é uma tarefa a ser cumprida, em oposição ao discurso ilusório sobre a sua “reproclamação”. No Brasil, parte central desta luta é a criação de uma alternativa de direção comunista dentro da CUT, da UNE e do MST, o que só pode ser conseguido por um Partido Revolucionário dos Trabalhadores. O objetivo do Coletivo Lenin é dar uma contribuição ao reagrupamento revolucionário de correntes e militantes em torno de uma base sólida e principista, capaz de dar os primeiros passos na construção deste partido.

Notas

1 Acreditamos, assim como a tradição que reivindicamos, o espartaquismo, que os negros nos Estados Unidos não são uma nação, mas uma casta racial, já que não possuem território próprio (estão dissolvidos nos setores mais explorados da classe operária das cidades), divisão interna de classes (não existe uma “burguesia negra” independente da burguesia americana) ou idioma próprio. Em outras palavras, os negros estão integrados na sociedade americana e sua opressão é intimamente ligada às necessidades do capitalismo, não podendo ser resolvida de maneira definitiva dentro dos limites capitalistas. Por isso, o programa correto para a questão negra é o integracionismo revolucionário, que significa levantar o combate ao racismo no movimento dos trabalhadores, buscando uma integração dos trabalhadores de todas as etnias na luta pelo socialismo (que é a solução para a destruição da base social para o racismo). Além disso, consideramos que os trabalhadores negros representam um potencial de luta que é estratégico para a revolução e temos como prioridade organizar os trabalhadores negros, que estão nos setores mais explorados do proletariado. Para um debate sobre esta questão, veja o texto A Eleição de Obama e a Questão Racial nos Estados Unidos, disponível no site do Coletivo Lenin.
2 Desenvolvida nas Teses sobre a Questão do Oriente, no IV Congresso, em 1922.
3 A FLN conquistou a independência formal do país em 1962, após derrotar militarmente a França. Mas pelo seu caráter de classe e pelo seu programa, a FLN acabou reconstruindo um Estado burguês no país, dependente e submetido ao imperialismo francês, tornando a Argélia uma moderna semicolônia.
4 A relação entre a OCI e o POR terminou apenas em 1978, quando o último rompeu com o CORQUI pela tentativa dos lambertistas de imporem seu controle sobre o grupo boliviano, liderado por Guillermo Lora. A situação se assemelha muito com o que aconteceu entre o WRP e a OCI, no que diz respeito aos dois grupos evitarem discutir as divergências políticas para manterem intocados os seus respectivos redutos burocráticos. No ano citado, a OCI tentou impor ao POR a absurda concepção de os sindicatos no mundo colonial haviam se tornado organizações não-operárias, e exigir que o POR abandonasse seu trabalho sindical. Após o racha, a OCI imediatamente modificou essa política, forjada na tentativa de impor seu comando burocrático sobre o POR.
5 A adoção dessa prática é amplamente exposta e no livro de Stéphane Just, Como o Revisionismo se Apoderou da Direção da OCI, de 1984.
6 Fato interessante para aqueles que conhecem os morenistas da LIT-QI (organização internacional liderada pelo PSTU) é que em 1980 se formou um bloco entre eles e os lambertistas, o Comitê Paritário pela Reconstrução da Quarta Internacional, que durou pouco mais de um ano. Depois de romper com o Secretariado Unificado, Moreno tentou uma fusão com Lambert mesmo após todo esse histórico de posições oportunistas. Juntos, os dois escreveram as famosas Teses para a Atualização do Programa de Transição. O motivo do fim do Comitê Paritário foi o apoio descarado da OCI à frente popular de Miterrand, do Partido Socialista francês, em cuja candidatura a OCI votou nos dois turnos. Na verdade o apoio eleitoral e as ilusões da OCI com os reformistas poderiam ser vistos claramente muito antes da consolidação do agrupamento. No debate durante o racha com os lambertistas, Moreno escreveu o livro A Traição da OCI, cujas posições justas apresentadas perdem todo o significado pelo fato de Moreno nunca as ter defendido na prática. O próprio PST morenista havia votado em inúmeras frentes populares peronistas na Argentina nos anos anteriores. Também o PSTU (assim como O Trabalho) chamou voto nas sucessivas frentes populares de Lula com a burguesia em 1990, 1994, 1998 e 2002.
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Panfleto da Liga Comunista

Publicamos aqui o panfleto da Liga Comunista a pedido dos camaradas enquanto estes não puderam organizar seu site. Seu contato é o email liga_comunista@yahoo.com.br

Derrotar Kassab, os empresários e a PM, unindo estudantes e trabalhadores!
Passe Livre Já! Pela Estatização dos transportes coletivos sob controle dos trabalhadores!

Em 2010, Kassab deu R$660 milhões aos donos das empresas de ônibus. Parte da verba foi desviada da construção de corredores de ônibus. Para 2011 já foram reservados mais R$ 743 milhões do Orçamento para novamente presentear os empresários do setor. Como se esta lambança não fosse suficiente e a passagem já não fosse tão cara para os estudantes e trabalhadores, o prefeito iniciou 2011 aumentando o valor da tarifa de 2,70 para três reais. Kassab está roubando dos pobres para dar aos ricos. É para isto que serve o Estado capitalista seja ele de uma cidade, de um estado ou de todo um país.

E, se por acaso, a juventude resolve protestar contra este roubo descarado, como ocorreu no dia 13 de janeiro de 2011, nas ruas centrais da capital paulista, entra em cena outro departamento do Estado. A policia apresenta suas armas, utilizando os cassetetes, bombas de gás e de borracha para dissolver a manifestação. Bate, persegue e prende os manifestantes para amedrontá-los a fim de que não façam mais protestos. De forma cristalina a PM mostra para que serve: proteger os interesses da burguesia de seu Estado que amanhã aumentarão também as tarifas do trem e metrô.

Por isto, a luta para reverter este aumento e conter novos precisa avançar em direção a conquista do passe livre para todos. Para isto, é preciso impulsionar uma grande mobilização das vítimas deste assalto, os trabalhadores e estudantes para derrotar Kassab, os empresários, a PM, representados politicamente pelo DEM, PSDB, PV, PPS, que compõem a prefeitura e o governo do Estado.

Os partidos ligados ao governo federal (PT, PCdoB, PCR, Patria Livre, etc.) dizem fazer oposição à Kassab. Mas, apesar de dispor de um enorme aparato sindical, CUT, CTB, UNE, MST, UMES, DCEs e Grêmios dirigidos por esses partidos, comem na mão do governo Dilma, defensor dos capitalistas de todo o país e do imperialismo e, portanto, se opõem a lutar consequentemente contra o roubo de Kassab porque fazem o mesmo em nível federal.

Os partidos pequeno burgueses e entidades ditas de oposição, vinculadas ao PSOL, PSTUe cia. fingem lutar contra Kassab e o capitalismo, mas o fazem de forma inofensiva porque suas ideias estão domesticadas pelo regime “democrático” burguês. Defendem, somente com palavras, o passe livre, mas, mesmo sabendo que ele só pode ser assegurado com a expropriação das empresas de transporte coletivo privado, coisa que nenhum governo capitalista vai realizar, se opõem a organizar a luta pela estatização dos transportes coletivos sem idenização e sob o controle dos trabalhadores e pela tomada do poder pelos mesmos. Dirigem sindicatos como o dos metroviários paulistas, (PSTU, PSOL e o PPS burguês e governista e tucano), mas não colocam a máquina do mesmo a serviço da luta pelo passe livre no metrô, o controle deste importante meio de transporte por seus trabalhadores, nem tampouco mobilizam os metroviários para juntarem-se a nós. Acreditam que é preciso reformar a PM ao invés de lutar para dissolvê-la. Defendem a instalação de uma unidade pacificadora de polícia, as UPPs, em todas as favelas do país, como forma de "conter a violência urbana", ou seja, invocam a política truculenta e assassina que nos espancou mais uma vez no dia 13/01 para combater a violência. Em uma palavra, são a esquerda legalista que jamais vai fazer sequer cócegas nos capitalistas e no seu Estado.

Diante destes tipos de partidos, com justa indignação muitos jovens aderem ao anarquismo de forma teórica ou prática, opondo-se por princípios aos partidos e a qualquer militância partidária, acreditando que o mundo pode ser transformado pela auto-organização dos indivíduos. Isto é um engano, porque sem uma organização formada por militantes regulares que combatam a ideologia burguesa, sem um partido que centralize e impulsione a luta direta das massas e tenha como fim a tomada do poder pelos trabalhadores e o controle da educação, transporte, saúde e de tudo mais pelos mesmos, nossa luta se dissipará e se desperdiçará. Os Kassabs que são muito mais organizados e disciplinados que nós continuarão levando a melhor, continuarão nos roubando. Não é por acaso que todas as muitas lutas pelo passe livre em várias cidades foram desviadas para a impotente pressão sobre as Câmaras dos Vereadores. É preciso construir um partido de novo tipo, revolucionário, dos trabalhadores e da juventude. É isto que deseja firmemente a Liga Comunista. Junte-se a nós!
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O Coletivo Lênin, a FIST e a luta contra os despejos

O Coletivo Lenin é uma organização marxista que tem por maior objetivo lutar por uma revolução socialista, que crie um governo direto dos trabalhadores, ou seja, um governo em que os trabalhadores, e não os patrões, controlem as empresas e a política. Esse controle aconteceria através de assembleias democráticas, como as que já ocorrem em várias ocupações de sem-teto. Chamamos isso de um governo direto, porque não existiriam políticos profissionais que “representassem” os trabalhadores (sendo que na verdade eles representam os interesses dos empresários e banqueiros que financiam as campanhas eleitorais). Essa pode parecer uma ideia sonhadora, mas durante algumas décadas, um terço da humanidade viveu sem patrões, o que acabou com o fim da União Soviética em 1991.
Começamos a atuar no movimento sem-teto em 2009, por acreditar que a luta pela moradia é, acima de tudo, uma luta de trabalhadores pobres contra o grande capital e os governos dos patrões. De 2009 até metade de 2010 estivemos presentes nas ocupações e reuniões da FIST, por ver que essa é uma entidade bastante combativa. Por causa de alguns problemas, tivemos que diminuir nosso ritmo e por isso hoje tem muita gente na FIST que não conhece o Coletivo Lenin.
Resolvidos esses problemas, nós estamos voltando com tudo para o movimento sem-teto, jogando peso na atual luta pela unificação das diversas ocupações e organizações em um único fórum, capaz de organizar nossa resistência contra os despejos que estão acontecendo. É importante dizer que sempre defendemos essa ideia, junto com o companheiro André de Paula e a FIST, mas só depois de muita porrada alguns outros setores do movimento entenderam que não dá para resistir no esquema “cada macaco em seu galho”. Apenas juntos seremos capazes de derrotas mais esse ataque dos patrões e seus fantoches nos governos municipal, estadual e federal!

A FIST e o Coletivo Lenin: uma autocrítica necessária
Nesse momento de retorno ao movimento sem-teto e às reuniões da FIST, achamos importante levantar algumas críticas de erros que cometemos no passado.
A primeira e mais importante é que, quando começamos a atuar nesse movimento, nos “filiamos” a FIST e tentamos unificar os sem-teto a partir dela. Isso foi um erro grave, pois não podemos eleger uma posição privilegiada para debater unificação. Devemos estar presentes na base de todas as outras organizações e, a partir daí, lutar para organizar um fórum conjunto capaz de discutir a questão da unificação e de planejar um calendário conjunto de lutas.
Além desse erro, existem dois materiais que publicamos no passado que também merecem ser criticados. São eles nossa tese para o IV Congresso da FIST e um panfleto que soltamos nas ocupações dessa organização em abril passado. Na tal tese, criticamos o SINDPETRO por usar os sem-teto da FIST como mão de obra barata para sua campanhas. Acontece que os ocupantes se dispunham a atuar nelas em troca de uma ajuda mais do que bem vinda, conseguindo assim um dinheiro a mais para se sustentar. Mas é necessário deixarmos claro que retirar essa crítica que fizemos na tese não significa retirar a crítica principal: que o SINDPETRO e a direção da FIST possuem uma relação de “uma mão lava a outra”, que não é discutida e posta sob aprovação das bases da entidade.
Já sobre o panfleto de agosto, nós criticamos o companheiro André de Paula, figura pública da FIST, de “caluniar” e de “chantagear” ocupantes para conseguir o que quer. Acontece que não apresentamos nenhuma prova disso no panfleto, e uma calúnia é justamente uma acusação sem provas! Por isso gostaríamos de retirar também essas críticas feitas sem provas. Mas por experiência própria e por relatos de diversos ocupantes, temos plena consciência da utilização de métodos de pressão pelo companheiro André, com quem já discutimos alguma vezes sobre a necessidade de não agir dessa forma.

Um longo trabalho pela frente, o comitê de resistência
Agora, depois de reavaliar esses erros, o Coletivo Lenin mudou a sua relação com a FIST.
Nesse nosso retorno para o movimento sem-teto continuaremos a frequentar os espaços da FIST, devido à disposição dos companheiros em lutar pela unificação e pela moradia, mas tentaremos também atuar junto às demais organizações, sem tentar dar um passo maior que nossas pernas curtas, é claro.
Isso porque não consideramos a FIST um fim em si mesmo, e nem queremos estar só “dentro” dela. Ela é parte do movimento sem-teto. Por isso, queremos colaborar com os companheiros dos outros grupos, principalmente o antigo MCL da Baixada, o MTD (Movimento dos Trabalhadores Desempregados) e as comunidades ameaçadas de remoção, na resistência contra os governos dos ricos.
Hoje, a melhor forma de unificar o movimento não é tentar formar uma nova entidade. É criar um comitê de resistência, para reunir todos os setores para ações coordenadas de luta. É sair do social-pacifismo (que cria ilusões no Estado e na Defensoria e só vai para o confronto quando não tem mais jeito), e entender que a nossa defesa deve ser organizada coletivamente.
Nesse comitê, além de ajudar na organização da resistência, vamos atuar defendendo nosso programa para o movimento sem-teto, que só pode ser realmente vitorioso se tiver uma orientação contra o sistema capitalista. Isso inclui defender o fim da polícia racista, lutar pela taxação das grandes empresas para construir moradias populares, por creches gratuitas controladas pela população, pela redução da jornada de trabalho sem redução de salário etc.
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Iêmen, Dias de Raiva contra o governo pró-imperialista

Por Paulo Dias

As revoltas de massas e mesmo algumas situações pré-revolucionárias abertas no mundo árabe após os eventos na Tunísia continuam a se espalhar. Agora é a vez do Iêmen, onde os manifestantes tentam derrubar o governo de Abdullah Saleh (não custa lembrar que ele foi que anexou em 1989 o Iêmen do Sul, um regime nacionalista que dividia o país e era apoiado pela União Soviética, e que foi criado pela luta antiimperialista em 1967).

No Iêmen, a situação se parece mais com a do Egito e menos com a da Tunísia (onde houve embriões de dualidade de poderes). A oposição burguesa (Encontro Unido) está conseguindo canalizar as manifestações para o desgaste eleitoral do regime e para uma reação democrática (como aconteceu no Brasil em 1984, após a derrota das Diretas Já).

Isso mostra mais uma vez a necessidade da formação de um partido revolucionário dos trabalhadores para mostrar ao movimento a perspectiva do socialismo, com o governo direto dos operários e camponeses em toda a região.

Abaixo o governo Saleh!

Formar comitês de bairro e por local de trabalho!

Criar o partido revolucionário dos trabalhadores, com maioria de mulheres

Pela Federação Socialista no Oriente Médio!

Mundo árabe em revolução

Iémen. Segundo "Dia da Raiva" perpetua luta pela saída de Abdullah Saleh

por Joana Viana, Publicado em 05 de Fevereiro de 2011 no IONLINE

Presidente não se recandidata em 2013. Mas como os egípcios, iemenitas exigem que saia "já"

O porta-voz do Joint Meeting Parties, coligação de partidos da oposição do Iémen, disse ontem ao jornal "News Yemen" que os opositores não vão pôr fim aos protestos contra o regime de Ali Abdullah Saleh enquanto o presidente não abandonar o poder. A garantia de Mohammed al-Qubati surgiu a meio da tarde de ontem, durante mais um "Dia de Raiva" pacífico na capital do país e depois de o presidente ter anunciado que não se vai recandidatar nas presidenciais de 2013, mas que, como Hosni Mubarak no Egipto, pretende concluir o seu mandato.

"Precisamos de liberdade. Sai, Ali Abdullah Saleh, sai!" Como nos outros países do mundo árabe, as palavras de ordem dos cerca de 100 mil opositores iemenitas que ontem voltaram a sair às ruas de Sana pedem o mesmo: que o presidente do regime autocrático, há 32 anos no poder, abandone o governo.

Ao contrário da Tunísia - cujo presidente, Ben Ali, fugiu do país ao fim de alguns dias de protesto - no Iémen, as manifestações continuam a ganhar força. As semelhanças com o Egipto não acabam aí: não só as manifestações estão a acontecer numa praça de Sana com o mesmo nome daquela onde os egípcios se concentram há mais de uma semana (Praça Tahrir, "Libertação" em árabe), como ontem já existia uma forte concentração de milhares de apoiantes do regime de Abdullah Saleh entre os opositores. "Vim aqui hoje para fazer parte deste protesto contra o extremismo, para promover a democracia e para mostrar que estou contra o caos", disse ao "The New York Times" Sadiq al-Qadoos, um entre os milhares de manifestantes que mantêm o seu apoio ao presidente.

A diferença em relação às revoluções noutros países da Península Arábica é a natureza dos protestos, que se mantêm pacíficos até agora, apesar da pobreza e das tradições tribais do país, que inicialmente ajudaram a prognósticos de violência na capital.

Operação Iémen
Se o Twitter e o Facebook têm cumprido o seu papel de plataformas de protesto para os povos árabes em revolução, ontem as atenções dos hacktivistas do grupo online Anonymous viraram-se para o Iémen. Depois de entrar nos websites dos presidentes tunisino e egípcio, tornando-os inacessíveis aos internautas dos países, o alvo do grupo de hackers activistas é agora Abdullah Saleh - cujo site foi ontem bloqueado.

Os Anonymous continuam a defender as suas acções de apoio aos opositores dos regimes como uma forma de proteger as liberdades da internet - que, desde o eclodir da Revolução Jasmim na Tunísia, tem sido controlada pelos regimes. Mesmo assim, o grupo não consegue fintar críticas. "Quem participa nesses ataques sabe conscientemente que está a incorrer num crime cibernético", dizia ontem à BBC News Graham Cluley, consultor tecnológico da empresa de segurança cibernética Sophos. "Se alguém não está preparado para ir [para os protestos] mandar pedras, devia pensar duas vezes antes de inundar esses websites de tráfego", defendeu. Ainda assim, na área da segurança cibernética há quem compreenda a táctica do grupo. "Os membros do Anoymous acreditam que, de alguma forma, têm de mostrar apoio aos povos desses países", disse à AFP o director do PandaLabs, Luis Corrons. "É uma coisa global e eles acreditam que, assim, estão a ajudar a obter liberdade para esses países", acredita o responsável pelo laboratório de detecção de malware da firma de segurança Panda Security.

Dominó
Com os protestos no Iémen e no Egipto a aquecer, também a capital da Jordânia foi ontem palco de uma manifestação com centenas de pessoas que pedem a saída do primeiro-ministro. Marouf al-Bakhit foi escolhido pelo rei Abdullah II da Jordânia no início da semana, numa estratégia de controlo de danos.

Mas al-Bakhit continua a não satisfazer as centenas de pessoas reunidas ontem em Amã. O número de manifestantes, contudo, foi bastante mais reduzido do que os dos protestos tunisinos ou egípcios, ou até do que a anterior concentração em Amã contra a subida de preços. Ao quorum reduzido junta-se uma agravante: a Frente de Acção Islâmica, principal partido da Oposição, anunciou ontem estar disposta a dar uma hipótese a al-Bakhit para que cumpra as reformas políticas prometidas. Um dos membros do braço da Irmandade Muçulmana na Jordânia, Nimer al-Assaf, disse mesmo: "Estamos muito optimistas com as mudanças que vão acontecer".

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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Por um comitê de resistência urbana no Rio de Janeiro!

O sentimento no coração de qualquer militante honesto do movimento popular urbano do Rio de Janeiro só pode ser a raiva. Desde 2006, se aprofundou a repressão às ocupações de moradores, comunidades, sem-tetos e camelôs na cidade. Os governos, ávidos por garantir uma cidade pronta para os melhores investimentos capitalistas, sedentos por garantir o aumento da especulação imobiliária, eufóricos com as oportunidades de milhões de dólares para os bolsos do patrões com eventos esportivos internacionais, atacam diariamente a população trabalhadora mais sofrida, aquela desempregada ou com os empregos mais duros, em maioria negros e mulheres. Diante dessa situação, a raiva é inevitável. Mas é preciso que saibamos canalizar toda nossa raiva de maneira a direcioná-la de maneira organizada contra os nossos inimigos, os governos e a burguesia, para sermos capazes de sair dessa situação de crise em que fomos lançados.
O movimento popular do Rio de Janeiro há muito tempo está desorganizado. Há vários grupos ativistas, mas nenhum capaz de fazer um trabalho forte de organização e conscientização dos moradores das ocupações e das comunidades e trazê-los para a luta. Muitos desses grupos tem militantes conscientes, mas que estão lançados em atividades improdutivas, sem organizar a resistência tão necessária. Enquanto isso, as ocupações que restaram caem em desorganização e desmobilização, muitas das quais os ocupantes estão abandonando diante do primeiro sinal de que haverá despejo. Dezenas de comunidades estão sendo despejadas, e até o momento nenhuma conseguiu se manter. Essa situação precisa se modificar.
Em 2009, o Coletivo Lenin atuou com entusiasmo dentro do Reunindo Retalhos. Víamos nele, assim como outros camaradas também viam, a oportunidade de unir os diversos grupos atuantes no movimento popular do Rio, e assim fortalecer a resistência contra os ataques dos governos. Infelizmente, grande parte dos militantes que compuseram o RR (principalmente aqueles vindos do movimento estudantil) não quiseram aglutinar os grupos envolvidos num fórum de resistência. O encontro de 15 de novembro, em Nova Iguaçu, não tirou nenhuma medida prática ao seu final.
Mesmo depois disso, continuamos participando do RR na esperança de que pudéssemos convencer os outros companheiros a formar um fórum de luta permanente, que reunisse todos os militantes do movimento popular numa unidade para a ação. Mas, infelizmente, o RR foi se tornando cada vez mais um grupo de debates, formulador de palestras e que parecia não estar preocupado com o que estava rolando no mundo real. Nos debates do Reunindo Retalhos, a nossa raiva ficou escondida.
Acreditamos que o movimento estudantil pode ser um forte apoio do movimento popular. Ficamos felizes de ver que um setor dos estudantes (inclusive muitos dos camaradas do RR) deixaram de priorizar a organização de palestras e viram a necessidade de ação. Achamos de grande coragem o ato dos camaradas nas duas tentativas de formar a ocupação Guerreiros Urbanos. Nas duas vezes, estivemos presentes até o final. Isso não faz com que deixemos de criticar o lado irresponsável da sua atitude. Acreditamos que na atual conjuntura, com a prefeitura armada até os dentes e, principalmente, com o movimento desorganizado, praticamente sem base, é uma aventura tentar conquistar novas ocupações – ainda mais em locais tão visados, como era a Guerreiros.
Não dizemos isso por covardia, como nossa presença nas duas ocasiões demonstrou. Dizemos que não podemos nos lançar em aventuras porque isso não contribui com nossa luta. Após as duas tentativas fracassadas da Guerreiros, pudemos ver grande desmoralização e desânimo em todos. A nossa raiva acabou se tornando nossa inimiga. Haverá o momento para conquistar novas ocupações, mas agora, quando a base está tímida e somos tão poucos, a hora é de defender as posições remanescentes. Aquele que não sabe defender o que tem, jamais poderá obter novas conquistas. Por isso, dizemos que nosso objetivo tem que ser rearticular e fortalecer o movimento popular. O que isso significa?
Significa que temos que reunir todos os militantes e começar a fazer trabalho de base de resistência. Todas as ocupações onde atuamos tem assembleias constantes que organizam formas de resistência e conscientização? As comunidades de onde viemos tem participação maciça dos moradores contra os ataques da prefeitura? Há um setor considerável de estudantes que conhecem e apoiam as lutas dos moradores sem-teto? Se a resposta a essas perguntas é “não”, então é isso que precisamos providenciar desde já – rearticulação e fortalecimento – para garantir que a próxima “Guerreiros Urbanos” não seja derrotada, mas vitoriosa.
Vemos que muitos militantes tem receio sobre a proposta de um comitê de resistência. Alguns companheiros preferem se dedicar a organizar aventuras que não constroem nada, e só servem para aliviar momentaneamente a sua consciência, lhes permitindo imaginar, por alguns instantes, que a conjuntura atual não é de graves derrotas. Outros acham que é melhor construir grupos de estudos com os ultimos militantes ativos do movimento, se rearticulando a nivel local em suas ocupações, mas ainda céticos quanto as propostas de unificação das bandeiras de luta com outros movimentos e ocupaçoes. Nós negamos essas duas posições. Achamos que não temos que nos limitar nas resistências locais, nem fazer intervençẽs inconsequentes e aventureiras. Achamos que devemos construir a resistência agora, orientada na base que hoje está desmobilizada, para rearticular o movimento popular do Rio de Janeiro com suas bandeiras de lutas em comum. Por isso queremos derrubar alguns mitos.
Alguns companheiros dizem que um comitê de resistência do Rio de Janeiro seria algo autoritário, pois seria só um comitê, onde todos estariam inseridos e acabariam ficando a mercê de uma liderança autoritária. Isso não tem nada a ver com a nossa proposta! Defendemos um comitê de resistência formado por todos os moradores e militantes, onde as decisões sejam tomadas pelas assembleias de base e onde a liderança (necessária para tomar medidas organizativas e políticas) seja eleita democraticamente e possa ser substituída a qualquer momento pelas assembleias.
Outros companheiros dizem que um comitê faria com que certas concepções ideológicas se impusessem sobre outras. Contra esse receio, defendemos que todas as vertentes ideológicas (militantes independentes, anarquistas, comunistas de esquerda, bolcheviques, etc.) se organizem nesse comitê e tenham total liberdade para expor suas posições políticas. O comitê deve ser um fórum permanente para articular as lutas e a resistência, não para homogeneizar algum programa político.
Finalmente há aqueles que não aceitam uma unidade como essa porque, se ela fosse criada, traria novos militantes para locais onde só o seu grupo faz trabalho político, constituindo um “feudo”. Para esses, nós dizemos que tem toda a razão de sentir medo de um comitê de resistência. Nossa proposta é de que todos os grupos atuantes no movimento popular carioca devem estar juntos em tantas ocupações e comunidades quanto possível, sem divisões que só atrapalham a nossa capacidade de resistir. Todos os ativistas que temos hoje (moradores de comunidades ameaçadas, FIST, Reunindo Retalhos, MTD Pela Base, antigo MCL, etc.) devem participar de espaços comuns para fortalecer a rearticulação que tem faltado em nossa luta contra os governos dos patrões.
Assim, nós do Coletivo Lenin fazemos renovado chamado, para todos aqueles interessados, para formar um comitê de resistência urbana do Rio de Janeiro, congregando todos os militantes disponíveis para começar a imediatamente a rearticulação do nosso disperso movimento. Essa é a nossa única saída desta crise. Aqueles que se negam a participar das tentativas de articular a unidade estão inconscientemente defendendo os interesses dos nossos inimigos. Só nos reorganizando poderemos dar total poder à nossa raiva e garantir que ela caia sobre as cabeças dos exploradores e opressores. Viva a luta popular dos trabalhadores! Viva a luta pelo comitê de resistência!
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