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Somos uma organização marxista revolucionária. Procuramos intervir nas lutas de classes com um programa anticapitalista, com o objetivo de criar o Partido Revolucionário dos Trabalhadores, a seção brasileira de uma nova Internacional Revolucionária. Só com um partido revolucionário, composto em sua maioria por mulheres e negros, é possível lutar pelo governo direto dos trabalhadores, como forma de abrir caminho até o socialismo.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

4 de agosto de 1914: a traição da socialdemocracia (1ª parte)




Estamos passando pelo centenário da maior divisão da história do movimento socialista. Significativamente, foi provocada pelo acontecimento que, por assim dizer, abriu o século XX, a Primeira Guerra Mundial. A encruzilhada estratégica de 1914 ainda é o nosso ponto de partida para a luta pelo comunismo. Para entender melhor a dimensão do que aconteceu, vamos explicar rapidamente o contexto.


Catástrofe imperialista

A Grande Guerra foi um acontecimento que estava fora da compreensão de todos naquele momento. Não é que simplesmente as pessoas imaginavam que seria uma guerra curta, como tantas vezes se fala nas aulas de história, mesmo isso sendo verdade. Mas a grande novidade é que era uma guerra que refletia o estágio alcançado pelo capitalismo.

Em primeiro lugar, uma guerra altamente industrializada. A tal ponto que hoje sabemos que quem ganhou foram as potências com maior capacidade industrial. Até o século XIX, ainda existia uma margem para a autonomia das tropas e para alternativas estratégicas mais flexíveis. Mas os tanques de guerra, o arame farpado, as armas químicas, todos esses novos recursos exigiam uma mobilização econômica e formas de combate muito diferentes.

Um dos primeiros resultados foi a guerra de trincheiras, em que as batalhas duravam meses praticamente no mesmo luar, até que um dos lados não tivesse mais recursos para resistir. A violência, também em escala industrial, não tinha precedentes. Em quatro anos, morreram mais de nove milhões de soldados. Infelizmente, a Segunda Guerra Mundial bateu todos esses recordes.

Mas o conteúdo da guerra também foi inédito. Antes, era impossível existir uma guerra mundial. Todo o mundo foi redividido entre as potências imperialistas. Era um novo período histórico, uma fase superior do capitalismo, em que a economia tinha ultrapassado os limites nacionais. O Japão, a Alemanha e a Itália, que se industrializaram mais tarde, já no final do século XIX, tiveram que disputar mercados através da guerra com outras potências.

Nessa guerra interimperialista, os antigos impérios foram destruídos. Acabou a Áustria-Hungria, a Alemanha se tornou uma república e o Império Otomano se tornou a Turquia atual. As várias nacionalidades oprimidas da Europa Central e do Leste puderam se autodeterminar. Ao mesmo tempo, na Rússia começou a onda de revoluções socialistas, que foi o fenômeno mai s importante do século XX.

Não cabe aqui contar como se desenrolou a guerra no campo de batalha, o que faremos em outro texto. O nosso foco é a divisão que a guerra causou no movimento socialista.


A Segunda Internacional

A Primeira Guerra foi o fim de um longo período de paz e prosperidade na Europa, a Belle Époque. Além do grande desenvolvimento científico e econômico, houve um florescimento cultural muito grande, com a criação do cinema, da psicanálise, o início da arte moderna, grandes nomes da literatura. Mas, por trás de tudo isso, estava o imperialismo, promovendo genocídios na África, massacrando revoltas na Índia, desmembrando a China.

Durante esse período, foi formada a Segunda Internacional, que conquistou reivindicações dos trabalhadores como a redução da jornada de trabalho, as férias, a proibição do trabalho infantil e muitas outras, através das lutas sindicais e da atividade parlamentar dos partidos socialistas de massa.

Entre esses partidos, o mais importante, pelo tamanho (chegou a um milhão de filiados um pouco antes da guerra) e pela sua ligação com os maiores intelectuais socialistas da época, foi o SPD (Partido Socialdemocrata Alemão). Como todos os outros partidos da Internacional, ele foi se adaptando pouco a pouco à rotina da militância legal e se burocratizando.

Já no final do século XIX começa a se definir uma ala direita no movimento socialista, primeiro na França, com a participação de dirigentes do Partido Socialista no governo Millerand, em 1899, e depois na Alemanha, quando Eduard Bernstein começa a publicar a sua série Problemas do Socialismo, defendendo uma revisão do marxismo.

 Pouco depois, surgem as correntes da esquerda, que começam a perceber que a direção da internacional (o “centro”, em que a pessoa de maior destaque era Kautsky, considerado na época o maior marxista vivo) não toma uma atitude enérgica contra a ala direita e, em vez disso, concilia com ela. A primeira expoente dessa ala direita foi a Rosa Luxemburgo, dentro do SPD. A partir da revolução de 1905 na Rússia, quando foram criados os sovietes, o conflito entre as três alas passa a acontecer em torno da estratégia para a tomada do poder.


Os dilemas estratégicos

É impossível formular uma estratégia sem analisar a estrutura da sociedade que se quer transformar. As três alas que foram mencionadas se baseavam em duas análises diferentes sobre a evolução histórica do capitalismo. Ao mesmo tempo, existiam diferenças táticas entre elas, que levaram, como vamos ver, tanto o campo a favor da guerra como o antiguerra a terem representantes de todas as alas.

A perspectiva do Marx e do Engels, desde a época do Manifesto Comunista, era de que a extensão do capitalismo iria levar a crises cada vez maiores, ao mesmo tempo em que a classe trabalhadora cresceria e se concentraria mais e mais nas grandes indústrias. Um dia, esses dois fatores iam se cruzar, e um proletariado altamente organizado seria levado por uma crise sem precedentes a tomar o poder e começar a transição para o socialismo. Logicamente, essas perspectivas se aplicavam principalmente aos países capitalistas mais desenvolvidos, os da Europa.

Essa era a perspectiva tanto do centro como da esquerda da Segunda Internacional. Inclusive Kautsky aplicou criativamente o marxismo para o caso das colônias, na sua obra Socialismo e Política Colonial, enquanto Lênin formulou a sua teoria da ditadura democrática do campesinato e proletariado para o caso da Rússia, em Duas Táticas da Socialdemocracia na Revolução Democrática. As duas teorias previam uma combinação de revoluções socialistas na Europa com revoluções democráticas e agrárias nos países atrasados e colônias.

A diferença entre o centro e a esquerda, então, não estava nas perspectivas, e sim em como chegar ao poder. Nessa diferença está toda a adaptação do centro à direita.

Porque a grande novidade do revisionismo de Bernstein era a ideia de que o desenvolvimento do capitalismo estava desmentindo ou colocando em dúvida as previsões marxistas sobre a piora das crises e a polarização cada vez maior entre burguesia e proletariado. Segundo Bernstein, a organização dos trabalhadores em cooperativas e sindicatos estava neutralizando as piores características do capitalismo, e abrindo possibilidades maiores para uma transição pacífica para o socialismo. As reformas seriam o caminho para a transformação do sistema, e elas seriam realizadas por um Estado democrático.

Na prática, a estratégia do centro era a mesma da direita. Essa estratégia era chamada de “guerra de atrito”, e também se baseava no fortalecimento dos sindicatos e cooperativas. A diferença estava só no discurso: enquanto os revisionistas falavam abertamente que o objetivo era ter mais influência sindical, cooperativa e eleitoral para mudar o Estado por dentro, o centro dizia que todo o esforço de organização era uma lenta preparação para as futuras crises e que, nessas crises, a estratégia do atrito seria trocada pela revolução.

 Como marxistas que somos, devemos sempre ter em mente que é o ser social que determina a consciência. Mais do que a expressão de “ideias erradas”, a política do centro era uma adaptação a uma situação eu já existia de fato: a burocratização e o conservadorismo da socialdemocracia, tanto nos partidos, como nos sindicatos e cooperativas.

Contra essa adaptação, a partir da revolução russa de 1905, Rosa encontrou a saída nas greves de massas. As greves colocavam em movimentos as massas desorganizadas, e por isso serviam para neutralizar a burocracia dos partidos e sindicatos, e recuperar o espírito revolucionário dos trabalhadores.

Trotsky, o dirigente do primeiro soviete, e Lênin também tiraram da revolução de 1905 a conclusão de que os sovietes eram a forma organizativa do futuro governo revolucionário. A ideia das greves de massa como alternativa, que foi popularizada pelo livreto Greve de Massas, Partido e Sindicatos, da Rosa, passou a ser majoritária na esquerda da Segunda Internacional.

(continua...)

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