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Somos uma organização marxista revolucionária. Procuramos intervir nas lutas de classes com um programa anticapitalista, com o objetivo de criar o Partido Revolucionário dos Trabalhadores, a seção brasileira de uma nova Internacional Revolucionária. Só com um partido revolucionário, composto em sua maioria por mulheres e negros, é possível lutar pelo governo direto dos trabalhadores, como forma de abrir caminho até o socialismo.

sábado, 13 de dezembro de 2014

NOTAS SOBRE UMA DIREÇÃO REVOLUCIONÁRIA (Luiz Eduardo Lopes Silva)


Introdução do Coletivo Lênin:

Recebemos esse texto de linha conselhista do companheiro Denes, do Maranhão. Estamos cedendo democraticamente o nosso blog para publicar, depois do que foi explicado por ele.



Introdução do companheiro Denes:




Aqui é o Denes do Maranhão. Como a UJC MA União da Juventude Comunista do Maranhão esconde-me a senha do seu blog, volto a reproduzir textos e análises no blog da organização “Coletivo Lênin”.
Obrigado uma vez mais.
Há braços!



NOTAS SOBRE UMA DIREÇÃO REVOLUCIONÁRIA
Luiz Eduardo Lopes Silva

            Poucas coisas me deixam tão indignados no senso comum da esquerda atual, cada dia mais decadente, que o famoso jargão:

“A revolução não triunfa atualmente por falta de uma direção revolucionária”.

            Ou, outra bem parecida, que equivale à mesma coisa:

“A culpa da revolução não triunfar é das direções traidoras”

            Essa frase é bastante reveladora quanto à concepção de história que tem esses militantes. Para eles, os rumos decisivos da história são tomados por um pequeno conjunto de pessoas, um grupo seleto de iluminados que ao decidir escolher por determinado caminho mudam o rumo da história. Dizer que essa visão de mundo e da história nada tem a ver com a visão do materialismo histórico dialético é dizer o obvio. O que não teria nenhuma problema, caso os autores dessa enormidade: “a revolução não triunfa atualmente por falta de uma direção revolucionária” não se reivindicassem adeptos desse tal materialismo histórico e dialético.  Para o materialismo histórico e dialético, teoria revolucionária criada pelos pensadores alemães Marx e Engels, os sujeitos da história, isto é, aqueles que ao agirem traçam os caminhos do desenrolar da história da humanidade são as classes, e no caso da sociedade industrial capitalista contemporânea, a classe explorada que é classe operária, apesar da posição trágica que ocupa na sociedade é, na verdade,  a responsável por produzir a riqueza do mundo social. Essa classe, é, ela mesma a responsável pela sua auto-emancipação, e por consequência dessa mudança ocorrida na estrutura societal, a emancipação da classe trabalhadora significaria a emancipação do conjunto da humanidade. Deixando de lado que isso é um péssimo resumo de 200 anos de teoria revolucionária, o importante é que esteja claro que, para Marx e Engels, a emancipação do proletariado só pode vir mediante as ações do próprio proletariado, e não pelas mãos de um grupo organizado enquanto classe separada, muito menos das mãos de meia dúzia de dirigentes. Essa visão, no entanto, não é a visão corrente entre os militantes de esquerda que se dizem adeptos das teorias de Marx e Engels. Ao observarmos com cuidado vemos que essa sentença sobre a tal traição das direções, muito comum atualmente (formulada há quase 100 anos) entre os militantes de esquerda, é tributária da visão mais conservadora que a história já teve notícia e que é claro, nada tem a ver com a visão de Marx e Engels, tem a ver sim com aquela visão da história que tributa os principais acontecimentos aos feitos das grandes personalidades. 

            Tal visão da história, como não poderia ser diferente, contamina as mais diversas interpretações dos acontecimentos da história da humanidade e inclusive da história do movimento revolucionário. Os mesmos militantes que dizem hoje que “a revolução não triunfa por conta das direções traidoras”, são os mesmos que olham para trás e dizem que o grande problema da experiência da construção do socialismo na Rússia foi à morte precoce do seu principal líder (Lênin), e, em algumas interpretações somam-se a isso, a substituição do principal líder, Lênin, por um líder nefasto (Stálin), caso o grande líder (Lênin) tivesse sido substituído por um outro líder a altura, como Trotski por exemplo, as coisas teriam caminhado de um jeito radicalmente diferente. É curioso perceber que essa visão de mundo é idêntica a visão dos senhores e das senhoras conservadoras que na época das eleições votam nos políticos tradicionais como Maluf ou Sarney, por exemplo, porque acreditam que esses são grandes líderes, e que os seus dotes individuais, quaisquer que sejam eles, farão toda a diferença. Nessa visão de mundo as classes são escamoteadas, a grande massa das pessoas comuns, as conjunturas históricas, sociais, econômicas e políticas somem e prevalece a providência do indivíduo. Na cabeça viciada pela hierarquia e abarrotada de jargões desses militantes, não cabe entender o processo de ampliação da burocracia czarista promovida pelo partido bolchevique pós tomada jacobina da máquina Estatal, crescimento da burocracia admitida inclusive pelo próprio Lênin pouco antes de morrer, com a criação de uma polícia violenta e repressora a tcheka (depois se tornaria KGB), amplas medidas autoritárias e contrarrevolucionárias que qualquer um que tenha um mínimo desejo de conhecer a história da revolução russa para além dos jargões da esquerda tradicional vai poder constatar. E que sendo Trotsky ou Stálin seu sucessor, ambos seriam representantes da classe burocrática no poder, portanto teriam que governar segundo os interesses dessa classe e continuar implementando as medidas contrarrevolucionárias, de tal forma que se sabe amplamente que muitas das propostas de Trotsky em relação, principalmente a economia russa, foram colocadas em prática por Stálin. Da mesma maneira, esses militantes são os mesmos que dizem que a Comuna de Paris não foi vitoriosa porque não havia um partido dirigente. Isto é, pouco importa a enorme superioridade bélica das forças que esmagaram os comunados. As balas da aliança franco-prussiana contra os indivíduos mais pobres de Paris pouco importa frente à falta de alguns líderes iluminados e burocraticamente organizados segundo os ditames do tal centralismo. Outras análises, como as de Marx e Engels, por exemplo, que falaram que a Comuna de Paris foi a expressão viva da tal “ditadura do proletariado”, mesmo que nenhuma de suas principais correntes políticas reivindicasse o marxismo, nada disso importa, a análise de Marx errou feio quando esqueceu de apontar a ausência de um partido centralizado, e, caso o anacronismo permitisse, um partido de tipo leninista!

            É claro que esses militantes ao alardearem como um mantra essas baboseiras só estão repetindo aquilo que os seus líderes ensinam mediante as famosas secretarias de (de)formação e em seus jornais que cada militante tem a obrigação de vender mas não necessariamente de ler (talvez ler um ou outro texto no intervalo das inúmeras tarefas). O ensinamento dessa grosseira visão de mundo, que, tais líderes, têm obviamente um enorme interesse que triunfe, visto que, colocam suas ações como o grande palco onde a história se desenrola e legitimam sua posição escondendo sua face opressora e contrarrevolucionária. Os militantes que repetem tais baboseiras como se estivessem em transe, só estão legitimando a cisão interna que suas próprias organizações trazem consigo, entre aqueles que mandam e aqueles que são mandados, entre os que dirigem e os que são dirigidos. Tal cisão que é idêntica à cisão mais geral da sociedade, é seguida acriticamente pela maioria das organizações que se dizem revolucionárias, isto é, o fato que acontece na nossa sociedade onde algumas poucas pessoas decidem o futuro de milhões a portas fechadas é seguido a risca pelas organizações que dizem que querem mudar esse mesmo mundo. Não basta que as grandes corporações, as multinacionais, os dirigentes do Estado burguês e muitas outras instituições que não estão sob o nosso domínio e que, no entanto, decidem nossa vida, propaguem essa visão (e práxis) de mundo. Os partidos ditos marxistas não acham isso o suficiente, e colocam também seus aparelhos ideológicos para que essa filosofia triunfe inclusive entre aqueles que pensam que vão mudar alguma coisa. Tais organizações repetem com grande sucesso todos os vícios da sociedade que elas dizem pretender abolir. E mal sabem seus seguidores mais honestos que, ao engajarem em tais organizações, caso venham a triunfar, o máximo que eles vão conseguir, não é uma mudança radical desse mundo, e sim, no máximo, mudar algumas coisas superficiais ao mudarem o atual pequeno grupo dirigente por outro futuro pequeno grupo dirigente, que em hipótese nenhuma, servirá de abre alas para o domínio pleno da classe trabalhadora, é o que a história tem mostrado.

             É muito irônico perceber o fato de que as pessoas que se engajam nessas organizações, a maioria delas, presumo eu, talvez sendo um pouco otimista, estão cansadas de verem suas vidas serem decidas por forças que estão totalmente alheias a sua vontade, e ao se engajarem a maioria é incapaz de perceber que essa é a exata lógica que inspira a essência dessas organizações. A situação tragicômica de milhões de pessoas em todo mundo, das pessoas comuns, dos trabalhadores em geral, é ser um pau-mandado no trabalho pelos patrões, é ser um pau-mandado na vida pública pelos políticos, e se não bastasse, quando pensam em se rebelar contra essa lógica, o caminho que lhes é apontado é tornar-se um pau-mandado nos partidos que dizem representar seus interesses. Mesmo que não chegue a entrar nesses partidos, muitos desses trabalhadores continuam sendo um pau-mandado nos sindicatos que dizem lhe representar, mas que na maioria das vezes nada mais são que aparelhos que se estendem ou dos patrões, ou dos políticos ou dos partidos que lhe usurpam a representação.

            A verdadeira crise do nosso tempo, não é de direção, como querem fazer parecer aqueles que almejam ocupar os altos postos da hierarquia que administra a luta de classes e repetem esse mantra em todos os espaços que ocupam, sejam no movimento estudantil, no movimento sindical, no movimento operário de base, na política partidária etc. Se a revolução não triunfa ou não triunfou, não foi por falta de rebeldia das massas como vemos ao longo da história. Inúmeros fatores colaboram pra isso. Mas é claro que existe sim no seio da classe trabalhadora e das suas organizações uma crise grave que é de forma de organização. Se este ou aquele levante não triunfou porque sua direção traiu, capitulou, negociou quando era pra radicalizar, é claro que há problemas desse tipo, que não é minha intenção aqui negar, há sim direções traidoras, e muitas! O que devemos tirar de lição desses acontecimentos, é indagar que forma de organização que se construiu que permitiu com que a direção desses movimentos ganhasse autonomia em relação a base? Que tipo de principio organizacional permite essa profissionalização da direção e despolitização da base? Que é o que temos visto acontecer sistematicamente no movimento operário, sindical, estudantil e político partidário. Que tipo de forma de organização permite que uma direção corrupta, pelega, imponha sua vontade frente a uma ampla base de indivíduos sérios e comprometidos com a causa e que tendiam a radicalização? Não é com a simples substituição de líderes que responderemos a estas demandas. É questionando justamente esse princípio extremamente hierárquico e extremamente centralista, típico das condições históricas da nossa época, que é seguido acriticamente pela maioria das organizações políticas, atentando para isso que chegaremos ao âmago da questão. Se uma direção minoritária consegue impor sua vontade frente a uma base majoritária, é porque criou-se condições (políticas, jurídicas, estatutárias, e até mesmo carismáticas) para que essa separação se perpetuasse e não criou-se nenhum tipo de mecanismo para que deixasse de existir essa cisão interna. Nesses tipos de organizações os indivíduos da base sempre estão sujeitos ao “bom caráter dos dirigentes”, porque quando a traição vem, estão totalmente desassistidos de instrumentos e espaços de decisão direta, sem contar a própria falta de experiência de decidir algo sem o auxílio dos líderes, muito menos contra eles.   

            Como superar esses tipos de organizações e construir organizações realmente revolucionárias? A resposta a essa pergunta não saiu da cabeça de nenhum pensador, de nenhum intelectual seja ele conservador ou revolucionário, não veio da decisão de nenhum líder ou direção revolucionária, não estava em pauta em nenhuma reunião de nenhum comitê central. Foram os próprios trabalhadores que responderam a essa demanda impulsionados pelas necessidades da luta, nos momentos onde a luta se fez mais feroz e radical durante a história da luta do proletariado moderno. Nesses momentos, vimos a classe trabalhadora se auto-organizar e se auto-representar formando seus próprios espaços de decisão política, de democracia direta, de democracia de base, colocando em prática desde já a auto-gestão da vida. É o que observamos nos conselhos operários da Comuna de Paris, nos sovietes durante as revoluções da Rússia em 1905 e 1917, na China, na Hungria, nas fábricas e universidades ocupadas na França em 1968. Formas de organização não burocráticas, não hierárquicas, onde qualquer representante eleito poderia ser destituído pelas assembleias livres a qualquer tempo. Onde entre os trabalhadores não havia distinção entre dirigidos e dirigentes. Essa é verdadeira lição que a história da luta revolucionária nos ensina, que o poder dos trabalhadores se manifesta através de seus conselhos de fábricas e de bairros, de assembleias livres de pessoas livres, de sovietes!  Enquanto os trabalhadores se auto-organizaram segundo esses parâmetros não houve traição de nenhuma direção porque não havia uma direção que distinguia, que se separava, nitidamente da base. Esses movimentos não triunfaram, porque foram esmagados por forças contrárias, e não por traição de seus pares.

            É claro que há muitos matizes em tudo isso que falei. Mas em essência traduz a minha intenção que é mostrar o quão conservadora é a visão de mundo e de história que guia a ação de muitos militantes e organizações que se auto-intitulam revolucionárias e o quanto está distante da verdadeira essência da luta promovida por milhões de seres humanos pela emancipação humana. Essa luta nos mostrou que é preciso se utilizar de meios emancipados para lutar pela emancipação, obediência cega à hierarquia e ao centralismo só pode levar a mais obediência, mais centralismo e mais hierarquia. Em vez de ficar clamando pela ação de líderes honestos é preciso repensar as organizações de luta, é preciso reconstruí-las em base autogestionárias, em bases soviéticas, no sentido primeiro da palavra, isto é, em bases conselhistas! Está numa direção revolucionária é não está sob uma direção revolucionária

“Emancipar-se das bases materiais da sociedade invertida, eis no que consiste a auto emancipação de nossa época. Nem o indivíduo isolado nem a multidão atomizada e sujeita à manipulação podem realizar essa ‘missão histórica de instaurar a verdade no mundo’, tarefa que cabe, ainda e sempre, à classe que é capaz de ser a dissolução de todas as classes ao resumir todo poder na forma desalienante da democracia realizada, o Conselho, no qual a teoria e a prática controla a si mesma e vê sua ação. Somente ali os indivíduos estão ‘diretamente ligados a história universal’; somente ali o diálogo se armou para tornar vitoriosas suas próprias condições” (Guy Debord, A Sociedade do Espetáculo). 

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