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Somos uma organização marxista revolucionária. Procuramos intervir nas lutas de classes com um programa anticapitalista, com o objetivo de criar o Partido Revolucionário dos Trabalhadores, a seção brasileira de uma nova Internacional Revolucionária. Só com um partido revolucionário, composto em sua maioria por mulheres e negros, é possível lutar pelo governo direto dos trabalhadores, como forma de abrir caminho até o socialismo.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

50 anos do assassinato de Malcolm X

A man in a suit and tie, carrying a rifle, looks out the window

Ele nasceu Malcolm Little, em 19 de maio de 1925. Seu pai era
militante da UNIA (Associação Universal pelo Progresso dos Negros).
A UNIA foi criada por Marcus Garvey, num período de desespero para os
negros estadunidenses. Depois da Guerra Civil americana, que aboliu a
escravidão, houve um período de Reconstrução. Durante esse período, os
negros acreditaram que finalmente chegaria a igualdade, mas tiveram suas esperanças
destruídas quando o governo federal decidiu abandonar
o Sul dos EUA nas mãos dos racistas, que restabeleceram várias leis
segregando brancos e negros (as leis Jim Crow, que numa tradução livre
seria Zeca Urubu). Tudo isso foi garantido pela violência da Ku Klux
Klan. Nas primeiras décadas do século XX houve um auge de
linchamentos de negros.
Diante dessa situação, Marcus Garvey não acreditava na possibilidade
da integração dos negros à sociedade americana, e defendia a volta à
África. Os negros mais conscientes aderiram à UNIA porque viram nela a
única alternativa ao racismo e à brutalidade.
O pai de Malcolm foi morto por racistas quando ele tinha seis anos. A
partir daí, sua família se desintegrou. Sua mãe começou a
desenvolver problemas mentais, e acabou sendo internada em 1938, por
uma mistura de preocupação real com as suas condições psicológicas e pela
simples intenção racista de deixá-la num depósito de gente. Os
irmãos tiveram que se separar.
Sem nenhuma perspectiva de vida, Malcon entrou para o mundo do crime e
se tornou assaltante, traficante e cafetão. Logo se tornou um dos
mais procurados na cidade, até que foi preso em 1946. Por causa de
todo seu histórico de vida, compreendia que a prisão era uma
punição racista. Começou a estudar e se tornou um destaque dentro
da prisão, participando de grupos de debates, em atividades
que os presos mesmos promoviam, sempre tentando ligar os temas que abordavam à
questão racial.
Demônios de Olhos Azuis
Até aí, essa poderia ser a história de um preso que se “regenerou” na
prisão.  Mas, através do seu irmão mais velho, Reginald, Malcon se aproximou e
se converteu a Nação do Islã.
A Nação do Islã era uma seita religiosa que, apesar do nome, não era
ligada às grandes correntes do Islã. Na década de 1930, um
caixeiro-viajante chamado Muhammad Fard viajou pelos EUA pregando que
os negros eram o povo escolhido de Deus, e que o cristianismo era uma
religião criada pelos brancos para ensinar os escravos a virarem a
outra face a seus opressores. Segundo a Nação do Islã, Fard era
simplesmente Deus encarnado.
Um dos ensinamentos mais importantes da Nação do Islã era que todos os
seres humanos tinham sido criados negros e que Yuqub (= Jacó) tinha
feito cruzamentos de seres humanos com demônios. Os cruzamentos
geravam pessoas cada vez mais brancas, até que conseguiu criar os
louros de olhos azuis, tão corrompidos que não tinham alma. Por isso
a Nação do Islã chamava os brancos de “demônios de olhos azuis”.
É fácil ver, sob a perspectiva dessa mitologia religiosa, que retratavam de 
forma contundente o racismo da sociedade americana na época. O
objetivo da Nação do Islã era de que os negros se separassem
voluntariamente dos brancos e vivessem como uma nação à parte. Daí o
nome do grupo.
Malcolm aderiu a isso de corpo e alma, abandonando o nome de Little, de origem
cristã e provavelmente dado à
sua família por senhores de escravos. Trocou pelo X, dando a entender
que não reconhecia seu nome de origem.
Com uma incrível habilidade oratória, Malcolm se tornou, em pouco
tempo, depois que saiu da prisão (1952), o principal porta-voz da
Nação do Islã, e um dos maiores representantes do povo negro no fim
dos anos 1950, quando se desenvolvia a luta pelos direitos civis.
A peregrinação
Com o tempo, começaram a surgir divergências entre Malcolm X e o líder
da Nação do Islã, Elijah Muhammad. O motivo imediato foi que Malcolm
descobriu comportamentos repreensíveis de Muhammad, como o uso dos recursos
da Nação do Islã para proveito próprio e casos extraconjugais com
mulheres do grupo.
Ao mesmo tempo, como pano de fundo, também acontecia a radicalização
do movimento pelos direitos civis. Novas organizações estavam
surgindo, como o SNCC (Comitê de Coordenação Estudantil Não-Violento),
que usavam métodos de desobediência civil para contestar as leis de
segregação racial. Além da direção do pastor batista Martin Luther
King, havia setores mais jovens que estavam abandonando o pacifismo e
partindo para ações de autodefesa contra a Ku Klux Klan. Era o caso, por
exemplo, dos Diáconos Por Democracia e Justiça, e de lideranças que
estavam se aproximando do marxismo, como Robert Willians e Stokely
Carmichael.
A Nação do Islã, com sua pregação de uma separação pacífica e
religiosa, era vista cada vez mais como uma organização
conservadora, exatamente o contrário do perfil de Malcolm. Essas
tensões chegaram ao auge depois da morte do presidente John Kennedy.
Quando Malcolm foi entrevistado, ao ser indagado sobre o que achava
do assassinato, usou a frase “the chicken came home to roost”, um
ditado popular com um sentido semelhante a “quem com ferro fere, com
ferro será ferido”.
Foi o suficiente para Muhammad pedir a cabeça de Malcolm X. Com a
crise política alimentando sua crise religiosa, e vice-versa,
pediu dinheiro emprestado a sua irmã Ella e realizou o hajj, a
viagem para Meca, que é obrigatória para todos os muçulmanos que
tiverem recursos para fazê-la.
E Foi em Meca que Malcon sofreu sua grande mudança de perspectiva
política. Viu povos islâmicos de todas as raças e países unidos na
adoração a Deus. Ao mesmo tempo, conheceu dirigentes de vários
movimentos de libertação nacional de países árabes, especialmente os
da Frente de Libertação Nacional, da Argélia, que demonstraram
máxima hospitalidade e admiração para com ele.
Unidade afroamericana
A lição que Malcolm X tirou do hajj foi de que é possível que as
diferentes raças convivam pacificamente, e o meio que ele encontrou
para isso foi a luta pela libertação nacional. Voltando aos EUA,
criou duas instituições, a Mesquita Muçulmana Inc., de caráter
religioso, agora dentro do Islã sunita, e a Organização pela Unidade
Afroamericana (OAAU, na sigla em inglês). A OAAU era inspirada, como o
próprio nome mostrava, pela Organização pela Unidade Africana, que
congregava os novos governos africanos e os movimentos ainda em luta
pela independência.
A Nação do Islã tinha ódio do que considerava a traição de Malcolm X,
ainda mais porque tinha perdido uma grande parte de seus adeptos, e
chegou a ameaçá-lo. Mas Malcon logo percebeu que estava sendo
vigiado e perseguido numa escala muito maior do que a Nação do Islã
teria condições de arquitetar.
O governo americano via que o discurso muito mais radical de Malcolm X
poderia se tornar uma alternativa diante do pacifismo de Martin Luther
King. Os próprios documentos da CIA, revelados anos depois, mostram
que o maior medo do governo era o surgimento de um líder negro que
unificasse todo a comunidade numa luta contra o Estado.
Era justamente o que Malcolm X estava começando a fazer, ao pregar a
autodefesa, como no seu famoso discurso “The Ballot or the Bullet” (O
Voto ou a Bala). Mais grave ainda: quando convidado para um debate
organizado pelo SWP, o partido trotskista americano, fora indagado sobre o que
achava do capitalismo. Foi quando Malcon pronunciou sua famosa frase
“não existe capitalismo sem racismo”, e concluiu dizendo que a maioria dos novos
governos africanos pós-independência estavam se aproximando do
socialismo, o que era significativo. Por isso, o governo americano
decidiu que ele não poderia mais continuar vivo.
Em 21 de fevereiro de 1965, durante uma palestra na Mesquita Muçulmana
Inc., Malcon foi atingido por vários tiros. Foram acusados três
integrantes da Nação do Islã, que negaram ter cometido o crime pelo
resto de suas vidas.
O legado revolucionário
Como vimos, Malcolm X nunca foi marxista. Mas, mesmo assim, através
da sua visão religiosa, tocou em temas fundamentais para a
destruição do racismo: a necessidade da autodefesa, a solidariedade
com os movimentos dos povos oprimidos, a ação de massas etc. Malcon morreu
prematuramente, e coube aos militantes que o sucederam
desenvolver  suas ideias de forma consistente.
E foi o que de fato aconteceu logo após sua sua morte e,
principalmente, depois do assassinato de Martin Luther King, em 1968,
quando se formaram dezenas de organizações marxistas no movimento pelos
direitos civis. A mais importante, evidentemente, fora Os Panteras Negras,
que nasceu em 1966, organizando ações de autodefesa em Oakland, e
se tornando a maior organização de extrema esquerda estadunidense
depois da Segunda Guerra Mundial.
Como o movimento de massas desencadeado pelo assassinato do jovem
Michael Brown em Ferguson mostrou, os negros continuam a ser o setor
mais dinâmico da classe trabalhadora estadunidense, e o setor que realiza as
ações mais radicalizadas. A eleição de Obama, assim como a de Mandela
na década de 1990, mostra ao mundo inteiro a atualidade do dilema
colocado por Malcolm X: o voto ou a bala. Ou a ilusão eterna da luta
por dentro do sistema, ou a batalha para organizar sua derrubada.definitiva.
 

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