QUEM SOMOS NÓS

Minha foto
Somos uma organização marxista revolucionária. Procuramos intervir nas lutas de classes com um programa anticapitalista, com o objetivo de criar o Partido Revolucionário dos Trabalhadores, a seção brasileira de uma nova Internacional Revolucionária. Só com um partido revolucionário, composto em sua maioria por mulheres e negros, é possível lutar pelo governo direto dos trabalhadores, como forma de abrir caminho até o socialismo.

quinta-feira, 17 de março de 2011

O Grupo Internacionalista e o compromisso dos burocratas com seu "legado"


Grupo Internacionalista / Liga Quarta Internacionalista do Brasil:
Ainda cambaleando em torno de uma “explicação séria”

O seguinte artigo foi originalmente publicado pelo Reagrupamento Revolucionário (RR) em agosto de 2009. Sua tradução para o português foi realizada pelo Coletivo Lenin em fevereiro de 2011, a partir da versão presente no site do RR.



           Enquanto critica corretamente muitas das posições atuais da Liga Espartaquista (SL) [organização dos EUA], a liderança do Grupo Internacionalista [IG – organização internacional que dirige a Liga Quarta Internacionalista do Brasil, LQB] persiste rigidamente na defesa da suposta integridade política de tal organização até o momento em que eles forma expulsos dela em 1996. Os líderes do IG escolheram construir a sua organização em torno desse mito e, mais especificamente, continuam insistindo que a SL estava “singularmente correta” ao longo dos anos ‘80 em seu entendimento distorcido das posições trotskistas sobre o stalinismo e a defesa da União Soviética. Tendo eles próprios sido antigos líderes centrais da SL, que participaram ativamente no desenvolvimento de sua linha política, a defesa do histórico da mesma sempre foi uma questão de proteção dos seus próprios legados pessoais e prestígio burocrático. Como consequência da teimosa insistência do Partido Comunista Alemão em defender a sua política, que permitiu que Hitler ascendesse ao poder sem resistência (“Primeiro Hitler, depois nós”), Leon Trotsky foi forçado a concluir que qualquer organização que colocasse o prestígio da sua liderança na frente de falar a verdade, merecia ser descartada de qualquer propósito revolucionário.
            Em política, é inevitável, quando se segue adiante com a lógica de uma posição errada em uma questão, que em última instância isso tenha consequências imprevistas em uma ou várias outras questões que poderiam parecer, num primeiro momento, não ter relação com a política original. Após o recente terremoto no Haiti, a SL colheu o que plantou quando ela, escandalosamente e de forma inesperada, acabou apoiando a ocupação do Haiti pelo exército dos Estados Unidos, acreditando nas palavras de Obama de que ele estava lá para prover ajuda às sofridas massas haitianas [ver A Liga Espartaquista apoia as tropas americanas no Haiti, de fevereiro de 2010].

Haiti, Afeganistão e Líbano
            Em uma carta recente para a SL, condenando sua demorada e incompleta autocrítica, numa questão na qual, em relação ao restante da esquerda, ela foi “singularmente” incorreta sobre o Haiti (veja “Liga Espartaquista: Nossa Linha Mudou Novamente”), a liderança do IG repreende a SL por sua tentativa de, por um lado se distanciar da sua vergonhosa posição original, enquanto por outro cambaleia na hora de repudiá-la abertamente, ao mesmo tempo em que se recusa a examinar de forma completa a “raiz da traição” em seu mais recente reconhecimento de uma ação errada.

“Vocês admitem o crime, mas falham em dar uma explicação séria das razões para ele. E isso garante virtualmente que ele acontecerá de novo [...].”

“Apesar de suas declarações arrependidas de hoje, como podemos saber que aquilo que vocês dirão amanhã não será uma continuação do que vocês disseram ontem?”
Carta Aberta do Grupo Internacionalista para a Liga Espartaquista e a ICL [organização internacional da SL], 8 de maio de 2010.
Reimpresso em The Internationalist nº21, verão de 2010

            A carta do IG para a SL defende a posição de que o Haiti foi “uma extensão de uma capitulação prévia às pressões do imperialismo americano”, apontando o repúdio aberto da SL em chamar pela derrota do imperialismo dos EUA no Afeganistão em 2002, que a SL ainda defende, como seu precedente mais significativo.

“Nessa época vocês atacaram perversamente o Grupo Internacionalista/Liga pela Quarta Internacional por nosso chamado desde o começo (em nossa declaração de 14 de setembro de 2001) pela defesa do Afeganistão e pela derrota do imperialismo americano. Vocês escreveram que nossa linha nos levava a sermos 'Os representantes do discurso anti-americano' como vocês declararam num subtítulo, e que apelávamos para uma plateia de nacionalistas 'terceiro-mundistas' para os quais 'americano bom é americano morto' [...].”

            Mas a posição da SL no Afeganistão, por sua vez, teve um precedente com a posição que ela teve no Líbano em 1983, quando se recusou a defender militarmente o mesmo lado que as forças lutando pelo fim da ocupação militar dos EUA em seu país. Já que eles ainda estavam na liderança da SL naquela época, os fundadores do IG ainda defendem aquela posição hoje em dia. De maneira similar, num livreto da SL de 1990 (também produzido quando os fundadores do IG ainda eram líderes dessa organização) intitulado Trotskismo: O Que É e O Que Não É Isso!, a SL declarou que a Tendência Bolchevique Internacional (IBT), que na época teve a posição correta (mas que desde então se degenerou burocraticamente)

“deseja assassinatos indiscriminados em massa de americanos [...].”

            (Para um comentário sobre a posterior degeneração burocrática da IBT, veja “A Estrada para Fora de Rileyville”)

            Já que a posição da SL no Líbano ainda é defendida pela liderança do IG hoje, pode-se razoavelmente perguntar a eles como, apesar de suas “declarações arrependidas de hoje”, nós podemos saber que “aquilo que vocês dirão amanhã” não será uma repetição “do que vocês disseram ontem”?

“Bússola política”: a “explicação séria” das “raízes da traição”
            Em nosso próprio texto sobre a SL e o Haiti, nós observamos:

“o IG inferiu que a SL realizou um giro diante de uma histeria chauvinista. Enquanto a SL certamente realizou tais giros no passado, como sua assustada reação ao 11 de Setembro e à guerra do Afeganistão em 2001, nenhuma atmosfera similar existe em relação ao Haiti nesse momento”.
“Desintegração no 'Período Pós-soviético': A Liga Espartaquista Apóia as Tropas Americanas no Haiti”, 15 de fevereiro de 2010

            Enquanto as duas posições foram ambas traições programáticas e de fato tem muitos paralelos uma com a outra, ao contrário do Afeganistão, a linha da SL no Haiti não é tanto um reflexo de nenhuma pressão imediata externa, e sim suas antigas contradições políticas/metodológicas e organizativas.
            Ao mostrar algumas dessas contradições, nossa declaração de 15 de fevereiro de 2010 sobre a linha pró-imperialista da SL se referiu a uma polêmica prévia com o IG sobre sua defesa do legado da SL nos anos 1980 na “questão russa”.

“Como elaborado de maneira mais completa numa polêmica anterior (IG: Programa de Transição de Trotsky ou Bússola Política de Robertson, de 6 de maio de 2009), a SL baseou praticamente toda a sua existência durante os anos de 1980 na questão da defesa da URSS. No velório da sua queda, eles construíram uma visão de mundo sob a qual, assim como previamente todas as questões eram vistas sob o prisma da defesa da União Soviética, hoje todas as questões são vistas através do estreito prisma da sua morte. Não é mais apenas a crise subjetiva de liderança que atrasa as lutas da classe operária, mas uma nova circunstância objetiva onde a questão de tomar o poder de Estado se coloca fora da agenda histórica por uma razão ou por outra.”

“Aqueles que desistem da classe operária são forçados a procurar por salvação em outras forças sociais. Durante os anos 1980, numa desorientação simétrica à de hoje, as visões e medos extremamente exagerados da SL sobre os 'perigos dos anos Reagan' combinados com o desmantelamento de suas frações sindicais, os levou a enxergar os stalinistas soviéticos e seu exército e poderio econômico como os protetores dos ataques do imperialismo. Hoje, a URSS não existe mais e Cuba não pode agir como um substituto suficiente na região.”

            Nessa polêmica com o IG, nós citamos uma intervenção em um curso aberto de tal organização que resumiu um importante aspecto da metodologia da SL sobre a questão:

“Eu concordo com muitas das atuais críticas do IG ao fato de a SL ter explicitamente abandonado o programa de transição. Eu também concordo que essa posição está relacionada à extrema desmoralização da SL após o colapso da URSS. Isso se expressou na sua recente posição na luta contra a lei de flexibilização de contratos de emprego na França, quando eles proclamaram que no ‘mundo pós-soviético’ não é provável que uma greve geral seja bem sucedida. Alguns anos atrás, quando o Afeganistão foi atacado, membros da SL argumentaram de maneira similar que no mundo pós-soviético vitórias militares de neocolônias contra os imperialistas não estava na agenda. Enquanto o colapso da URSS foi uma grande derrota, por si próprio ele não é uma explicação de nada disso. Deve-se olhar também para a história da própria SL anterior a esse colapso e seus vários zigue-zagues na questão russa, posições pelas quais a liderança do IG também é responsável por ter desenvolvido e ainda reivindicá-las hoje em dia, das quais eu só vou comentar um aspecto.”

“Ao longo dos anos 1980, a SL desenvolveu uma forte tendência a reduzir o trotskismo à questão do defensismo soviético. Esse giro foi parcialmente reconhecido na época em que eu era um membro da SYC [juventude da Liga Espartaquista], quando membros da ICL eram criticados por abandonar em parte a visão de que eles eram o partido da revolução mundial. Desde que passou a ver a defesa da URSS como a questão central em todos os lugares e ocasiões, da Nicarágua até a Austrália, surgiu uma tendência para ver o mundo a partir do estreito ponto de vista da pergunta 'Está bom assim para a Rússia?'.”

“Frequentemente se escrevia e se afirmava internamente que a defesa da URSS era a 'bússola política' da SL, que iria prevenir sua degeneração, um tipo de talismã mágico para espantar espíritos do anti-trotskismo. Em contraste, o Programa de Transição declara que a Quarta Internacional deve 'basear seu programa na lógica da luta de classes', o que é bem diferente de usar a defesa da URSS como uma bússola política. Mas o que acontece quando se continua usando tal bússola depois que ela não existe mais? (Nós descobrimos faz 2 anos que trocar acusações internamente sobre desejos de abandonar a defesa da URSS ainda é uma norma para eles). O desenvolvimento seguinte em um agrupamento propagandista passivo que o IG descreveu e a recente posição da SL na França novamente confirma isso. Mas os líderes do IG são incapazes de fazer tal análise. Eles estão determinados a defender aquelas posições, já que eles próprios são inteiramente responsáveis por ajudar a desenvolvê-las enquanto líderes da SL”.

            Nós também mostramos que tal compreensão também desempenhou um papel em distorcer a atitude trotskista diante do imperialismo durante os anos 1980.

“Em outra parte do Oriente Médio, a SL tentou encobrir o seu abandono do apoio militar para aqueles que lutavam contra a ocupação dos fuzileiros dos Estados Unidos em seu país, cinicamente perguntando 'Onde está o lado justo e anti-imperialista no Líbano hoje?' e então explicando as condições nas quais eles iriam tomar parte:

“'Se os EUA entrarem em guerra contra a Síria, uma reavaliação completa seria necessária, não menos porque tal guerra poderia se tornar um conflito real entre os EUA e a URSS, no qual os marxistas defenderiam o lado soviético'”
“'Marxismo e Banho de Sangue'
  'Workers Vanguard nº345, 6 de janeiro de 1984'”

            Enquanto o IG tem tentado explicar que todas as suas diferenças com a SL surgidas após o seu racha são originárias da desmoralização da SL após a queda da URSS, o grupo se recusa a reconhecer que essa desmoralização extrema deriva diretamente da metodologia que eles próprios são responsáveis por ter desenvolvido até o momento da sua própria expulsão.
            Nós fomos de certa forma pegos um pouco de surpresa pelo que pareceu ser um reconhecimento implícito da exatidão da nossa crítica na carta do IG.

“Tudo se origina no devastador impacto sobre a Liga Espartaquista e a Liga Comunista Internacional (ICL) da destruição contra-revolucionária da União Soviética e dos Estados operários deformados europeus em 1989-92.”

“Observem o que aconteceu após o ataque de 11 de setembro de 2001 ao World Trade Center e ao Pentágono, que claramente abalou a SL e a ICL. Mas tendo perdido a sua bússola política com o fim da União Soviética, a SL/ICL reagiu abandonando elementos chave do programa leninista-trotskista com relação à guerra imperialista” (ênfase nossa).

            Fazendo uma busca no Google, descobrimos que é a primeira vez em que uma discussão sobre a antiga “bússola política” da SL é levantada nas publicações do IG. O uso da SL da defesa da URSS como sua “bússola política”, como frequentemente declarado por ela na época, era a característica essencial da SL quando os fundadores do IG ainda eram líderes nessa organização, sendo assim uma parte central dos seus legados políticos, a qual eles seriam responsáveis por ter que honestamente reconhecer como erros. Até onde a afirmação do IG é de que a desmoralização após a queda da URSS foi a explicação chave para sua saída da SL e a justificativa para sua existência independente, tal reconhecimento também ofereceria a única explicação para a natureza altamente profunda dessa desmoralização agora, mesmo duas décadas depois do fato, quando quase todos na esquerda (com a exceção do geriátrico PC pró-Moscou) ou se recuperaram ou pelo menos estão em processo de recuperação. Parece que um reconhecimento muito mais explícito, sincero e rigoroso deveria ser cobrado, em lugar de um reconhecimento improvisado feito de maneira passageira na carta do IG. Como isso difere da maneira da SL de cambalear em repudiar abertamente a sua posição no Haiti?
            Nós desafiamos os membros de base do IG a testar a “franqueza” dos seus líderes, ou talvez mais apropriadamente, o seu próprio poder dentro da sua organização, ao tentarem fazer força para exigir um reconhecimento explícito dos seus erros.

Carma: tudo que vai, volta
            Nós não temos nenhuma confiança na habilidade ou força de vontade da liderança do IG em fazer um balanço honesto do papel que eles desempenharam na degeneração da SL. Não apenas na questão da degeneração da linha política, mas também no papel a que eles se prestaram na burocratização da SL quando eles próprios estavam na liderança, ajudando ou liderando as perseguições aos críticos para expulsá-los e depois caluniá-los.
            Enquanto reclamam de terem sido vítimas de um “ataque preventivo” de caráter organizativo engendrado, na época de sua expulsão, por Alison Spencer (cujo crédito dentro do grupo diminuiu desde então, mas que na época estava namorando com a ideia de substituir Jim Robertson como a “líder” da SL), dois anos depois do fato, o líder principal do IG, Jan Norden, ainda estava se vangloriando por tê-la ajudado num expurgo igualmente maquiavélico, típico de um Zinoviev, na seção italiana da Liga Comunista Internacional (dominada pela SL/EUA).

“Você descreve, a partir do documento sobre a Itália, que parecia que Norden havia feito um bloco com Parks (Spencer) em cima das diferenças sobre chamar, de qualquer maneira que fosse, por uma greve geral na Itália. Na Itália, eu de fato fiz um bloco com Parks contra Gino, cuja política encobria a frente popular. Naquela situação, chamar os burocratas (que eram os únicos na posição de fazer isso) a organizar uma greve geral ilimitada, significava chamar por mais militância sindical com o objetivo de estabelecer as bases para uma coalizão de centro-esquerda para substituir o governo de direita de Berlusconi e Fini. Um 'bloco' contra esse embrião de tendência, representado por Gino, que se opunha ao programa trotskista [ou seja, um 'ataque preventivo' organizativo – ênfase nossa] era não apenas principista mas obrigatório. Era extremamente necessário formar uma maioria para lutar contra a provocação frente-populista.”
“Carta do IG ao MEG”, 18 de julho de 1998
Reimpresso em “Polêmicas com o IG”
Boletim Trotskista nº6

            Não é levado em conta o fato de que, após terem sido eles próprios expulsos da SL, o IG desenvolveu críticas fundamentalmente similares às de Gino com relação ao abandono que SL/ICL fez dos chamados por greve geral, ou que eles próprios acabaram sendo vítimas dos mesmos métodos organizativos usados contra Gino. O que está envolvido é, mais uma vez, a questão dos seus legados pessoais e prestígio burocrático.
            Em contraste, grande parte dos membros de base do IG, sendo subjetivamente revolucionários, ainda podem desempenhar um importante papel em ajudar a reconstruir a Quarta Internacional. Mas eles só podem fazer isso se prestarem ampla lealdade à luta pela revolução socialista, acima da estreita lealdade à organização na qual eles estão atualmente engessados. Assim como a recente tragédia dos membros de base da SL (que unanimemente apoiaram a linha pró-imperialista no Haiti e depois passaram a unanimemente repudiá-la quando o “líder” da SL mudou de ideia) mostra que aqueles que são incapazes de se erguer contra os burocratas do seu próprio partido jamais poderão se erguer diante da classe dominante.

Leia mais!

quarta-feira, 16 de março de 2011

A Desmoralização da Liga Espartaquista e seu Apoio à Ocupação do Haiti

Desintegração no “Período Pós-soviético” 

A Liga Espartaquista Apóia as Tropas Americanas no Haiti!

[Este é um artigo publicado originalmente por Samuel Trachtenberg em 15 de fevereiro de 2010. A tradução para o português   foi realizada pelo Coletivo Lenin em fevereiro de 2011].
  
A devastação desencadeada pelo recente terremoto no Haiti atraiu consideravelmente a atenção do mundo, com a situação das massas haitianas ganhando enorme simpatia entre amplos setores da população dos EUA. A urgência imediata da situação e as ilusões de muitos americanos na boa fé de Obama deram ao governo dos EUA uma oportunidade de justificar a sua ocupação militar desse país em nome de supostamente ajudar o seu povo.
  
Enquanto no passado situações similares levaram muitos na esquerda a também perderem suas estribeiras e apoiarem intervenções militares imperialistas, do apoio dos seguidores de [Tony] Cliff à presença das tropas britânicas na Irlanda do Norte no fim dos anos 60, à chamada do Partido Socialista dos Trabalhadores [SWP] dos EUA para que fossem mandadas tropas para Boston no meio dos anos 70, ou o generalizado apoio à intervenção imperialista na guerra civil da Bósnia em meados dos anos 90, parece que dessa vez quase todos na extrema esquerda reconheceram o raciocínio imperialista do governo americano para a ocupação do Haiti e saíram em oposição. Quase todos na extrema esquerda, a não ser por uma surpreendente, se não completamente chocante exceção.
  
Na edição atual do seu jornal, a Liga Espartaquista (SL) dos Estados Unidos declarou:
  
“O exército dos Estados Unidos é a única força no mundo com a capacidade – caminhões, aviões, navios – de organizar o transporte de qualquer comida, água, apoio médico e outras provisões que estejam chegando à população do Haiti. E ele está fazendo isso na típica maneira porca do imperialismo dos EUA. Nós sempre nos opomos às ocupações dos EUA e da ONU no Haiti e em todo lugar – e pode ser que seja necessário chamar pela retirada deles do Haiti no futuro próximo – mas nós não iremos chamar pelo fim de tal abastecimento enquanto as desesperadas massas haitianas o recebem em mãos.”
  
“O Horror do Terremoto no Haiti: Imperialismo, Racismo e Fome”
Workers Vanguard #951 , 29 de Janeiro de 2009
  
Ninguém proclamando uma compreensão marxista do imperialismo, ou mesmo somente algum conhecimento de história recente, teria qualquer dúvida sobre as ambições em última instância predatórias por trás de qualquer intervenção imperialista no estrangeiro. A situação no Haiti não oferece nenhuma questão nova que seja diferente de intervenções “humanitárias” anteriores (para as quais a SL no mínimo se opôs à presença das tropas imperialistas, quando não sempre chamando por sua derrota militar) que pudesse possivelmente ser causa justificada de legítima desorientação. O artigo da SL até mesmo reconhece:
  
“Enquanto 'socialistas' reformistas como a Organização Socialista Internacional (ISO) e o Partido Mundial dos Trabalhadores (WWP) pedem para que os Estados Unidos ofereçam ajuda sem exercer o poderio militar americano, nós não temos tais ilusões. De fato, as forças americanas no Haiti fizeram da 'segurança' uma prioridade mais alta do que garantir ajuda. Enquanto muitos aviões carregando suprimentos aterrissaram no aeroporto de Porto Príncipe, que está agora controlado pelas forças americanas, outros foram criminosamente desviados já que os EUA deram prioridade de aterrissagem aos seus aviões carregando pessoal militar.”
  
Tendo sido amplamente percebidas, a obstrução pelas forças armadas americanas dos suprimentos desesperadamente necessários e a sua repressão contra o povo haitiano só deveriam tornar a situação ainda mais óbvia, mesmo para aqueles guiados por uma compreensão empírica puramente imediata.
  
Programa gera teoria, que gera programa
  
Ainda assim, o fato de a SL reivindicar o marxismo os forçou a tentar uma explicação teórica racional para o que é, no fundo, um “impulso” oportunista. Argumentar contra este impulso oportunista através de citações de O Estado e a Revolução de Lenin, ou Oportunismo e a Arte do Possível de Rosa Luxemburgo nessas circunstâncias, seria portanto estender a questão além do necessário. No entanto, mesmo em seus próprios termos, os argumentos levantados tem uma lógica política, que vai muito além da situação imediata no Haiti, que deveria estar causando ondas de choque em qualquer um com a mais remota aspiração socialista dentro do desmoralizado grupo da SL.
  
No curso de denúncias contra o Grupo Internacionalista (IG) de Jan Norden [cuja seção no Brasil é a Liga Quarta Internacionalista do Brasil – LQB], que publicou uma declaração sobre o Haiti antes deles, a SL argumentou:
  
“A desagradável realidade que o IG nega é que (a) mesmo antes do terremoto, não havia virtualmente nenhuma classe operária no Haiti; (b) logo após o terremoto, não apenas o Estado estava 'largamente reduzido a escombros', mas também estava assim a sociedade como um todo, incluindo a população desesperada e sem posses; e (c) há um poder militar no Haiti que está longe de estar 'reduzido a escombros', que é o imperialismo dos EUA.”
  
“O IG exige que “todas as forças dos EUA e da ONU se retirem”,  como se a atual presença militar dos EUA no Haiti tivesse o objetivo de suprimir um levante popular [...] O IG está cinicamente brincando com retórica, jovialmente despreocupado com o fato de que, no mundo real, se a política que eles reivindicam fosse implementada, ela resultaria em mortes em massa por inanição.” (ênfase do original)
  
A afirmação de que, mesmo antes do terremoto, não havia virtualmente nenhuma classe operária no Haiti tem muitos paralelos com o argumento stalinista sobre a China em 1927 onde, proporcionalmente falando, dificilmente a classe trabalhadora era mais desenvolvida do que no Haiti, na Bolívia ou em muitos outros países que a SL está descartando para propósitos revolucionários. Mas, ainda que hipoteticamente verdade, e que as visões de Trotsky sobre a Revolução Permanente precisassem ser reajustadas ou limitadas, como a SL está implicitamente argumentando, Marx (em sua correspondência com os revolucionários russos) e a Terceira Internacional de Lenin no mínimo tentaram mapear uma estratégia revolucionária viável para tais cenários, entendendo que seu destino final residia na vitória das revoluções nos país capitalistas avançados. No entanto, assim como a Segunda Internacional, os “marxistas” na SL argumentam em contrário:
  
“A amarga verdade é que as desesperadas condições do Haiti hoje não podem ser resolvidas dentro do Haiti. A chave para a libertação do Haiti reside na revolução proletária através do hemisfério, na qual a mobilização do considerável proletariado haitiano refugiado pode prestar um papel central.”
  
Isso deixa os revolucionários haitianos com poucas opções a não ser esperarem passivamente serem socorridos pelas lutas revolucionárias em outros países ou então emigrarem. Qualquer um dos meios deixaria as massas haitianas como um todo e suas lutas em completo abandono, caso a SL tenha algum interesse na questão. Como os revolucionários deveriam se orientar, por exemplo, com relação às lutas passadas (e futuras) como o “descontentamento de massas que retirou 'Baby Doc' Duvalier do poder”? Será que esse evento, de acordo com a SL, teve alguma importância no grande esquema que ela propõe?
  
Apontar para a verdade no fato de que o destino final do Haiti (por sinal de qualquer país, por mais economicamente desenvolvido que seja) reside, em última instância, na vitória da revolução mundial é usado pela SL como um mecanismo para abandonar a estratégia da Revolução Permanente de Trotsky (ou qualquer outra estratégia revolucionária alternativa) para a maior parte do Terceiro Mundo. É claro, a SL não está fazendo uma reavaliação teórica séria, com todas as consequências políticas consistentemente levadas adiante, mas sim uma racionalização do seu atual clima de desesperança e acomodação.
  
Se, mais uma vez hipoteticamente falando, não houvesse nenhuma classe operária no Haiti, fosse industrial, rural ou de qualquer outro tipo, então isso significaria que não haveria também classe capitalista suficientemente desenvolvida, fosse nativa ou estrangeira. Isso levanta algumas questões sobre a natureza da economia haitiana. Também, exatamente quais interesses de classe o Estado haitiano estava defendendo? Denunciando outros na esquerda por seguirem Aristide de maneira oportunista, a SL comete um deslize ao citar uma declaração antiga que diz que Aristide iria “desempenhar o papel de instrumento de camuflagem para a burguesia haitiana” (“Haiti: Avalanche Eleitoral de um Pastor Radical”, WV número 517, 4 de janeiro de 1991)
  
Deixando de lado a questão da estrutura de classes do Haiti, o que a SL, após a sua atual posição, propõe que as massas haitianas defendam, se não figuras burguesas populistas como Aristide? Ela obviamente não está chamando pela formação de um partido trotskista no Haiti, com qualquer estratégia que seja, como uma alternativa. Os stalinistas ofereceriam às massas haitianas a sua estratégia de duas etapas, é claro. Qual seria a resposta da SL?
  
A SL aponta que em 2004 “Nós mostramos que a ocupação do Haiti pelos EUA também representava um perigo para o Estado operário deformado cubano, assim como para o proletariado militante da República Dominicana, que divide com o Haiti a Ilha de Hispaniola (veja 'Haiti: Fora Tropas dos EUA e da ONU!', WV número 821, 5 de março de 2004).” Esses perigos subitamente desapareceram? A defesa da revolução cubana não começa mais em Porto Príncipe (para parafrasear o antigo slogan da SL)?
  
A SL escreve ainda mais além:
  
“Para liberais desapontados com a política da administração Obama no Afeganistão e no Iraque, o terremoto no Haiti foi visto como uma oportunidade para os Estados Unidos mostrarem uma face benévola. Isso foi ecoado pelos incentivadores reformistas um tanto desiludidos de Obama, como a ISO e o WWP. A ISO exige que 'Obama imediatamente interrompa a ocupação militar do Haiti' enquanto chama os Estados Unidos a 'encherem o país com médicos, enfermeiros, comida, água e material de construção' (Socialist Worker online, 19 de janeiro). Da mesma forma, uma declaração de 14 de janeiro no Workers World Website exige 'a remoção de todas as tropas de combate da ONU' enquanto defende que 'todos os bônus de executivos das instituições financeiras que receberam dinheiro do pacote de ajuda econômica sejam doados ao Haiti'.”
  
“A noção de que o imperialismo americano pode ser pressionado para servir às necessidades dos oprimidos, e não às dos seus próprios interesses de classe, mostra ilusões sem limites nos bons préstimos da voraz classe dominante americana. Reformistas como a ISO e o WWP levantaram chamados em protestos contra a guerra americana no Iraque, exigindo que houvesse uma mudança na prioridade dos gastos do governo americano, passando da guerra para os serviços sociais como educação. Mas a dominação neocolonial e o enriquecimento são inerentes ao imperialismo e nenhuma quantidade de pressão e súplica pode mudar isso.”
  
Mas se “a noção de que o imperialismo americano pode ser pressionado para servir às necessidades dos oprimidos” mostra “ilusões sem limites”, então por que a SL não está se opondo à ocupação militar dos Estados Unidos no Haiti? Obviamente a SL não acredita que isso seja uma ilusão, já que ela é a favor de que as tropas permaneçam precisamente porque afirma que elas estão servindo às necessidades imediatas dos oprimidos. Em que outras partes do mundo o imperialismo americano pode prestar ajuda? Mais estritamente aquelas que a SL afirma não possuírem uma classe operária nativa mensurável, como o Afeganistão? Ou talvez ainda mais amplamente através da história? O argumento dos seguidores de Cliff sobre a Irlanda do Norte em 1969 parece muito similar ao da SL hoje:
  
“O fôlego fornecido pela presença das tropas britânicas é curto, mas vital. Aqueles que chamam pela retirada imediatas das tropas antes que os homens atrás das barricadas possam se defender estão chamando por um extermínio que irá atingir primeiro e mais duramente os socialistas.”
  
Socialist Worker, 11 de setembro de 1969
  
Finalmente, que atitude iria tomar a SL na circunstância de uma luta dos haitianos para retirar as tropas americanas do seu país? Iria a SL simplesmente se abster de chamar pela derrota do imperialismo dos EUA como eles fizeram no Afeganistão em 2001, chamar para que as vidas dessas tropas fossem salvas como eles fizeram no Líbano em 1983, ou possivelmente ainda pior, especialmente sob a luz desse papel benéfico que a SL afirma que as tropas estão desempenhando nesse momento?
  
Num informe sobre a sua décima terceira conferência nacional, elaborado para preparar os leitores para uma possível futura expulsão de Rachel Wolkenstein e sua base de apoio no Comitê de Defesa Partidário [que realiza ações em defesa do preso político americano Mumia Abu Jamal], a SL afirma:
  
“As pressões do período ajudaram a gerar tentativas de achar uma maneira de 'ficar rico fácil', ou seja, de liquidar nosso programa revolucionário, proletário e internacionalista para se associar a forças maiores, hostis à classe trabalhadora e ao nosso propósito revolucionário”.
  
“Dias de Cão do Período Pós-Soviético”
WV #948, 4 de dezembro de 2009
  
Parece um pouco perverso denunciar os críticos internos por se “associarem” a “forças maiores, hostis à classe trabalhadora” (o grupo bastante pequeno e sincero, ainda que em muitas ocasiões politicamente errado, de ativistas de Mumia Abu Jamal, muitos dos quais sem dúvida ainda têm uma posição sobre o Haiti melhor que a da SL) quando a “força maior” a qual se está associando é a sua própria burguesia.
  
Por quê?
  
Perguntas têm sido levantadas por muitos sobre os possíveis motivos por trás da mais recente posição da SL. Alguns afirmam que é uma tentativa da liderança da SL de encontrar um modo de se diferenciar artificialmente do restante da esquerda. Reclamações da base da SL sobre as dificuldades de se diferenciarem de outros grupos de esquerda desde a queda da URSS tem, de fato, sido frequentes. Outros acreditam que, no contexto de seu recente estremecimento interno, a liderança da SL esteja usando a questão organizativamente, como um teste de lealdade. Aqueles que foram bem sucedidos em passar no teste da SL mostram que a sua verdadeira lealdade ao doentio culto é organizativa, ao invés de expressar qualquer pretensão que a SL tenha sobre revolução socialista. Por último, o IG inferiu que a SL realizou um mergulho diante de uma histeria chauvinista. Enquanto a SL certamente realizou tais mergulhos no passado, como sua assustada reação ao 11 de Setembro e à guerra do Afeganistão em 2001, nenhuma atmosfera similar existe em relação ao Haiti nesse momento.
  
Como elaborado de maneira mais completa numa polêmica anterior [IG: Programa de Transição de Trotsky ou Bússola Política de Robertson, 6 de maio de 2009, disponível em inglês no site do Reagrupamento Revolucionário], a SL baseou praticamente toda a sua existência durante os anos 1980 na questão da defesa da URSS. No velório da sua queda, eles construíram uma visão de mundo sob a qual, assim como previamente todas as questões eram vistas sob o prisma da defesa da União Soviética, hoje todas as questões são vistas através do estreito prisma da sua morte. Não é mais apenas a crise subjetiva de liderança que atrasa as lutas da classe operária, mas uma nova circunstância objetiva onde a questão de tomar o poder de Estado se coloca fora da agenda histórica por uma razão ou por outra.
  
Aqueles que desistem da classe operária são forçados a procurar por salvação em outras forças sociais. Durante os anos 1980, numa desorientação simétrica à de hoje, as visões e medos extremamente exagerados da SL sobre os “perigos dos anos Reagan” combinados com o desmantelamento de suas frações sindicais, os levou a enxergar os stalinistas soviéticos e seu exército e poderio econômico como protetores dos ataques do imperialismo. Hoje, a URSS não existe mais e Cuba não pode agir como um substituto suficiente na região. A recente crise no Haiti e a reação da SL são, no fundo, uma expressão do fato de eles terem desistido da classe operária e, por conclusão, de terem desistido de si mesmos.
  
Wohlforth e Robertson
  
Ao menos de alguma forma parece que o líder da Liga Espartaquista, Jim Robertson, chegou aos mesmos resultados, embora com velocidade diferente, que seu antigo arqui-inimigo Tim Wohlforth. Além do fato de que ambos começaram como oposicionistas ao giro do Partido Socialista dos Trabalhadores (SWP) ao revisionismo pablista no começo dos anos 60, e que ambos tragicamente acabaram liderando cultos burocráticos anti-trotskistas, parece que Jim Robertson está agora finalmente chegando às visões de Wohlforth sobre um imperialismo “humanitário”.
  
Um artigo de 1995 da SL, intitulado provocativamente (e sem intenção humorística) “Wohlforth: Quem é Esse Cadáver Fedorento?” (Spartacist #52, outono de 1995), declarou que “Jovens navegando pela internet podem estar se perguntando quem é esse maníaco solto no ciberespaço dando vivas de 'Bom Trabalho!' às forças da OTAN bombardeando os Sérvios-bósnios...” Wohlforth também estendeu seu apoio para a “humanitária” intervenção imperialista em outros países na época, como a Somália (que pelos atuais critérios da SL também não tinha classe operária e, talvez em retrospectiva, merecesse a benevolência imperialista) e, coincidentemente, o Haiti. Robertson ainda não é tão abertamente grotesco, ele tem seguido os passos de seu arqui-inimigo a um ritmo mais lento. Sendo bastante velho, é provável que ele morra antes que o alcance. Mas talvez as pessoas navegando na internet devam se fazer a pergunta (com a inflexão cômica e o encolher de ombros apropriados) “Jim Robertson: quem é ESSE cadáver fedorento? E POR QUE ele apóia o envio de tropas americanas para ocuparem o Haiti?”
  
Um navio que afunda
  
O informe da décima terceira conferência nacional da SL em alguns momentos soa quase como um auto-obituário. Após reconhecer que “Nós talvez não tenhamos uma perspectiva imediata” a SL proclama que sua “tarefa central” é “armar o partido programática e teoricamente, da publicação de Spartacist à manutenção do arquivo do Comitê Central, a Biblioteca de Pesquisa Prometheus, e a realização de todo tipo de formação política ao longo de nosso trabalho”. Em outras palavras, preservar o legado de Jim Robertson para futuros arquivistas.
  
Esse é o resultado lógico de abandonar, implícita ou explicitamente, a revolução socialista como uma perspectiva realista para nossa época. Então um líder pode estabelecer um horizonte mais baixo a partir do objetivo “realista” de usar a organização para manter e preservar o seu legado pessoal como “nota de rodapé na história”.
  
Essa evidente desmoralização, um drástico corte no número de membros, o estremecimento com Rachel Wolkenstein e o mais recente mergulho durante uma questão internacional contemporânea e fundamental indicam que a SL é um navio que afunda e há grande percepção interna desse fato, por todas indicações.
  
Em sua transformação de um grupo de propaganda revolucionário para um culto sectário, a SL não apenas destruiu muitos revolucionários em potencial, mas também conseguiu recrutar pessoas tendo como base seu antigo legado, uma pequena minoria que ainda não abandonou subjetivamente suas aspirações revolucionárias. A liderança do Grupo Internacionalista nunca fez um balanço político honesto da história da SL e do papel que eles desempenharam nela. Também não o fez, de forma semelhante, a liderança da Tendência Bolchevique Internacional (particularmente em relação às questões envolvendo Bill Logan, mas também sem dúvida com relação ao seu atual burocrata chefe, Tom Riley) e, após um promissor início, ela tem seguido com incrível velocidade pela sua própria “Estrada para Rileyville” por mais de uma década agora (veja “A Estrada para Fora de Rileyville”, de Samuel Trachtenberg, 25 de setembro de 2008). Nenhum desses grupos merece qualquer confiança política.
  
Enquanto a nave-mãe está naufragando, e seus rebentos permanecem estagnados sob suas próprias lideranças geriátricas permanentes, nós apelamos para que discutam conosco todos aqueles genuinamente interessados em avançar (em oposição ao que na realidade é apenas “preservar”) tudo que havia de revolucionário no legado da Liga Espartaquista.
Leia mais!

terça-feira, 8 de março de 2011

Líbia: o Conselho Nacional Provisório é a cova da revolução!

Por P. Araújo

Em 26 de fevereiro, a oposição líbia, que tomou a parte leste do país, se organizou. Devido à ausência de uma direção da classe trabalhadora, o Conselho Nacional Provisório criado pela oposição, e dirigido por advogados, dissidentes do governo e empresários, conseguiu unificar todas as massas populares em revolta.

Os marxistas têm um nome para esse tipo de organização: Frente Popular.

Em situações de crise revolucionária, muitas vezes, a burguesia se alia com as organizações dos trabalhadores para criar uma unidade artificial por cima das classes para impedir que o controle do movimento passe para as mãos dos trabalhadores.

Foi assim, por exemplo, na França, em 1945, depois da expulsão dos nazistas. Foi o que aconteceu no Chile, durante o governo Allende. E esse recurso está sendo usado agora, na Líbia, para manter a dependência em relação aos EUA e à União Europeia, e para impedir que se faça a justiça popular contra todos os responsáveis pelo regime de Khadafi.
Se a Frente Popular conseguir chegar ao poder, as perspectivas para o povo Líbio são sombrias. Eles vão desarmar o povo, massacrar qualquer oposição potencial e apenas "reciclar" o regime anterior. Isso, nós marxistas chamamos de transformismo, ou seja, a classe dominante muda as formas da dominação para garantir que o conteúdo continue o mesmo.

Diante disso, organizações pessimistas como a LBI acham que devemos nos abster de intervir no movimento de massas contra o ditador. Nós achamos que a chave é defender a política de Trotsky em relação à Frente Popular: lutar contra o Conselho Nacional Provisório, e tentar fazer o movimento dos trabalhadores romper com ele, e criar seus próprios órgãos de poder, no calor da luta armada pelo poder.

Essa foi a posiçãoda corrente internacional que reivindicamos, o espartaquismo, diante dos movimentos no Irã que levaram Khomeini ao poder, em 1979. Na época, a palavra de ordem da Liga Espartaquista foi: "Abaixo o Xá  (o rei do Irã), Nenhum apoio aos Mulás" (a oposição fundamentalista)!

Nos outros países, devemos lutar contra qualquer possibilidade de intervenção dos EUA e da União Europeia na revolução líbia: tirem as mãos da Líbia!

Aqui vai a declaração do Conselho Nacional Líbio (em inglês), em que inclusive eles namoram com uma intervenção "humanitária" da "comunidade internacional":  

Founding statement of the Interim Transitional National Council

The Interim Transitional National Council (The council) held its first meeting on Saturday 5th of March 2011 in the city of Benghazi, the temporary location, till the liberation of Tripoli the Capital City and the permanent location of The Council.
The Council derives its legitimacy from the city councils who run the liberated cities, and who had been formed by the revolution of the 17th February to fulfil the revolutionary gains in order to achieve their goals. The Council is headed by Mr Mustafa Abdeljeleel and the meeting is attended by:
  1. Mr. Othman Suleiman El-Megyrahi (Batnan Area)
  2. Mr. Ashour Hamed Bourashed (Darna City)
  3. Dr. Abdelallah Moussa El-myehoub (Qouba Area)
  4. Mr. Zubiar Ahmed El-Sharif (Representative of the political prisoners)
  5. Mr. Ahmed Abduraba Al-Abaar (Benghazi City)
  6. Mr.Dr. Fathi Mohamed Baja (Benghazi City)
  7. Mr. Abdelhafed Abdelkader Ghoga (Benghazi City)
  8. Mr Fathi Tirbil and Dr. Salwa Fawzi El-Deghali (Representative of youth and women)
The council concluded the following:
  1. The Council emphasised that the most important role is the one played by the youth. They were the base of foundation of the revolution and the focal power for the Libyan to reach where they stand today to be able to demand the termination of the dictatorial regime.
  2. The Council Declares that it is the sole representative of all Libya with its different social and political strata and all its geographical sections. Its membership is open to all Libyans and thus received the members of the following cities: Misurata, Zentan, Zawya, Zwara, ,Nalout, El-Jabel El-Gharbi (West Mountain) Gaat, and Kufra and their names will not be declared for safety reasons till the liberation of all Libya. The council is waiting for the delegations from Tripoli , the south Areas and Middle areas of Libya to join it.
  3. The council declares Mr. Omer El-Hariri as its representative of the Military Affairs for Safety and Security of Libya.
  4. The Council also declares the information of the Executive Team to administrate the crisis and to deal with currant situations. The function of the Executive Team is to run all foreign matters and to represent the foreign affairs of Libya. It is headed by Dr. Mohamed Jebril Ibrahim El-Werfali and Dr Aziz Al-Eisawi as the reprehensive of the Foreign affairs of Libya. The council declares that there will be more members to the Executive Team to run the main vital sectors of the country after further discussions between the head of the Executive Team and the Council.
The council delegates to Dr. Mohamed Jebril and Dr Ali El-Esawi the right to negotiate and communicate with all members of international communities to accomplish international recognition of all the Council, and both members have the right to take all the necessary measures to reach this goal.
The council affirms that all Libyan delegations to the UN, Arab League, International and regional organizations and members of all the Libyan embassies who joined the revolution are considered legitimate representatives of the Council. The other representatives of the fallen regime should take the above stance.
Finally, even though the balance of power is uneven between the defenceless protestors and the tyrant regime’s mercenaries and private battalions, we will relay on the will of our people for a free and dignified existence. Furthermore, we request from the international community to fulfil its obligations to protect the Libyan people from any further genocide and crimes against humanity without any direct military intervention on Libya soil.
Long live Libya, free and united
The Interim Transitional National Council
5th of March 2011
Leia mais!

quinta-feira, 3 de março de 2011

Abaixo o machismo e a homofobia! Libertação sexual através da revolução socialista!

Por L. Torres

Uma recente pesquisa da Fundação Perseu Abramo (Mulheres brasileiras nos espaços público e privado) mostrou que no Brasil cinco mulheres são espancadas a cada dois minutos. Porém, as garras do machismo não se restringem apenas às mulheres. No final do ano passado isso ficou claro, quando chegou à grande mídia uma série de ataques à GLBTTs pelo país, logo após as Paradas Gays, e inciados com uma agressão a um homosexual na Av. Paulista (SP), em plena luz do dia (confira artigo de novembro sobre o assunto aqui). Hoje, mais um caso de violencia (esse contra um travesti) chegou à grande mídia (confira aqui).

Nós do Coletivo Lenin sempre damos destaque para a questão das opressões específicas em nossos materiais, pois encaramos ser impossível acabar com tal realidade dentro dos limites do capitalismo (como acreditam muitos ativistas sinceros do movimento feminista e do movimento negro, por exemplo). Nossa visão se baseia no fato de que as opressões não estão simplesmente "pairando no ar" dentro da sociedade capitalista, essas ideologias possuem bases materiais mais do que reais, que não podem ser destruídas sem que antes se destrua a ordem burguesa.

Historicamente, as classes dominantes necessitaram recorrer a esse tipo de ideologia para criar castas super-exploradas entre as classes dominadas, com o intuito de organizar a produção  de forma mais "lucrativa" (isso fica muito claro no caso da escravidão no século XIX, impossível de ser separada do racismo). No capitalismo então, as opressões cumprem um duplo papel: além de criarem tais castas (que variam de país para país de acordo com a opressão dominante), elas também dividem e deixam inseguros aqueles oprimidos pelo capital, dificultando asism a organização de sua resistência. É fácil observar, por exemplo, como que, no Brasil, os trabalhadores negros recebem menos em comparação com os de outra etnias, e como são empurrados para as categorias mais frágeis em termos de direitos trabalhistas (os funcionários de emrpesas terceirizadas, por exemplo, podem ser demitidos sem a menor dificuldade caso resolvam reclamar das suas condições precárias de trabalho), além é claro de cumprirem jornadas mais longas. O mesmo ocorre com as mulheres e GLBTTs.

Assim, uma vez que as opressões às mulheres, negros e GLBTTs estão ligados à uma necessidade da burguesia de aumentar seus lucros (através da super-exploração de setores da classe trablhadora), não há como separar a luta contra as opressões da luta contra o capitalismo. Por isso dizemos que os companheiros dos "movimentos feministas" e "movimentos GLBTT" estão equivocados ao defender que os mesmos sejam abertos à membros da pequena burguesia e mesma da burguesia, encarando o problema como uma simples demanda democrática. A libertação sexual só pode ser realizada pela classe trabalhadora, através da sua luta revolucionária pelo fim da opressão econômica do capital e da burguesia. Assim, a luta contra as opressões deve ser travada prioritariamente nos próprios espaços de trabalho, através de estruturas já existentes (como os sindicatos) e outras mais dinâmicas (como comissões organizadas por local de trabalho). Além da luta contra a opressão ideológica dentro das próprias fileiras da classe trabalhadora, é fundamental que o movimento operário também organize comissões de auto-defesa em casos de ameaça de violência física a algum trabalhador, seja ele negro, mulher ou GLBTT. Nesse artigo de uma organização dos EUA, a Liga Espartaquista (SL), é dado um belo exemplo do que estamos falando. Mas além da conscientização e da organziação das auto-defesas quando necessário, o papel fundamental que o movimento operário pode cumprir, mas esses "movimentos amplos" não, é o de levantar demandas que ataquem as bases materiais da opressão, como exigir salário igual para trabalho igual, nivelado a partir dos mais altos. Essa, por exemplo, é uma demanda que um movimento que conte com empresários em suas fileiras jamais poderá defender, já que significa um ataque direto aos lucros dos patrões.

E como a super-exploração desses setores pela burguesia é algo central para a continuação do funcionamento capitalista, dizemos que eles possuem um papel estratégico na luta pelo socialismo. É daí que tiramos nossa palavra de ordem de "Por um partido revolucionário com maioria de negros e mulheres", porque uma organização que não seja capaz de reunir os setores mais explorados pelo capital, não será capaz de levar à frente seu programa revolucionário, que será então apenas uma folha de papel sem significado.

Por último, é importante lembrar que o fim do capitalismo não significará o fim imediato das opressões. Suas raízes históricas são fortes a ponto de mantê-las existindo durante muito tempo, porém o fim de suas bases materiais reduz a questão à uma luta pela conscientização dos trabalhadores, apenas, e não mais uma luta estrturual contra um sistema inteiro. Pela libertação sexual das mulheres e GLBTTs! Pela revolução socialista!
Leia mais!

quarta-feira, 2 de março de 2011

Uma Explicação Marxista sobre o Fim da URSS

Reagrupamento Revolucionário
As “Revisões de Teoria Básica” da LRP

A seguir está uma edição levemente atualizada de um rascunho não publicado feito por Samuel Trachtenberg. Originalmente escrito para ser distribuído como uma declaração da Tendência Bolchevique Internacional (IBT) no debate público da Liga pelo Partido Revolucionário (LRP) com a Liga Espartaquista (SL) em 10 de maio de 2003, em Nova Iorque, ele foi feito como uma resposta a “Teorias do Colapso Stalinista”, publicado na edição do outono de 2002 de Proletarian Revolution. A não ser quando indicado, as citações da LRP foram retiradas deste artigo.

A tradução para o português foi realizada pelo Coletivo Lenin em fevereiro de 2011 a partir da versão disponível no site do Reagrupamento Revolucionário (RR).

No curso da troca de polêmicas realizadas até seu debate com a LRP, a SL havia respondido a muitos dos desafios polêmicos propostos pela LRP sobre uma ampla variedade de questões. Um artigo da LRP ao qual eles não responderam, no entanto, foi uma polêmica sobre a questão russa, tradicionalmente uma questão central para a SL e um ponto chave separando os dois grupos. Observando a análise da SL sobre a vitória da contrarrevolução capitalista na URSS, o artigo afirma:

“Na URSS, o contragolpe de Ieltsin foi o evento chave no afastamento do Partido Comunista do poder. Nesse conflito entre alas da classe dominante capitalista burocrática, os stalinistas 'linha-dura', liderados pelo vice-presidente Gennady Yanaiev, tentaram tomar o poder só para si e pôr fim ao delicado equilíbrio de poder mantido por Gorbachev, envolvendo eles e os privatistas mais firmes [...]”

“Quando a revolta da 'linha dura' fracassou, a obra de equilíbrio de Gorbachev entrou em colapso e Ieltsin emergiu para o topo. O seu triunfo inaugurou um período indisfarçável de pilhagem capitalista que enriqueceu um punhado e empobreceu milhões. Embora o time de Yanaiev também estivesse dedicado às reformas de 'livre mercado', seu curso esperado era mais lento. Assim, qualquer um que sustentasse a teoria do Estado operário deformado deveria ter defendido o lado de Yanaiev, apesar de sua ameaça imediata de esmagar os trabalhadores – como uma questão de princípio, não apenas tática. No entanto, poucos o fizeram. A maioria apoiou Ieltsin em cima de dúbias bases democráticas, provando mais uma vez que sua teoria do Estado operário é fraseologia vazia [...]”

“Os espartaquistas viveram um momento particularmente difícil decidindo quando o 'Estado operário' soviético tinha sido perdido. Eles anunciaram retroativamente no final de 1992 que a contrarrevolução havia vencido havia algum tempo, permanecendo obscuro exatamente quando. (Veja 'Espartaquistas Eliminam o Estado Operário Russo Não com um Estrondo, Mas com um Choramingo' PR nº43). Uma 'teoria' que permite aos seus defensores não perceberem a queda de um Estado operário – a terra da revolução bolchevique, ou não mais – quando os eventos decisivos ocorrem diante do mundo inteiro, é inútil para a classe operária...”

“Eles não deveriam ter tido problemas em apoiar o golpe de Yanaiev contra Gorbachev em 1991. Mas nessa ocasião eles não tomaram partido. Eles fizeram contorcionismo teórico para evitar fazer isso por uma razão, porque isso teria significado admitir que os seus arquirrivais, a Tendência Bolchevique Internacional (IBT), estavam 'certos' enquanto eles errados. Para todo o alardeio de seu suposto apego bolchevique ao programa, os espartaquistas são frequentemente motivados por pequenas necessidades organizativas.”

“Teorias do Colapso Stalinista”
Proletarian Revolution nº65, Outono de 2002
Argumentando de uma perspectiva muito diferente da IBT [1], a LRP está ecoando sua afirmação correta de que a única posição defensista soviética consistente era a de ficar do mesmo lado militar dos stalinistas contra Ieltsin, e demonstra a lógica reformista da teoria da SL de contrarrevolução “aos poucos” na URSS. Esses são todos pontos em que a SL tem consistentemente falhado em explicar quando levantados.

A força da posição da LRP reflete o fato de que, enquanto a SL afirma reivindicar o defensismo soviético em teoria, no momento mais crucial ela renunciou-o na prática. Em contraste, a LRP teve mais consistência (relativamente à SL) ao renunciar em ambos.

Previsões sobre a estabilidade stalinista

Desde a polêmica inicial da IBT com a LRP sobre a questão russa (1917 nº6), o mundo assistiu ao colapso do stalinismo na URSS e no Leste Europeu. A LRP diz que, na esquerda, apenas a sua teoria do capitalismo de Estado lhes permitia prever a queda do stalinismo com antecedência. Isso é falso já que a IBT (assim como outros na esquerda) concordavam com a previsão de Trotsky de que:

“ou a burocracia, tornando-se ainda mais o órgão da burguesia mundial no Estado operário, vai destruir as novas formas de propriedade e lançar o país de volta ao capitalismo; ou a classe trabalhadora vai esmagar a burocracia e abrir o caminho para o socialismo.”

Programa de Transição (1938)
Em resposta à inesperada expansão do stalinismo no Leste Europeu no período pós-guerra, e as vitórias de lutas guerrilheiras de base camponesa lideradas por stalinistas na Ásia, ambas resultando na liquidação das relações de propriedade capitalistas, Michel Pablo, então líder da Quarta Internacional (assim como escritores como Isaac Deutscher) impressionisticamente previram que o stalinismo era a onda do futuro. O corolário era que o programa da revolução política contra os stalinistas, como defendido por Trotsky, estava ultrapassado, que os partidos stalinistas agiriam como arma suficiente, embora “cega”, para o socialismo, e que o papel dos trotskistas deveria ser se liquidarem dentro das organizações deles para “afiarem” as armas cegas. As previsões promissoras de Pablo para os stalinistas, descritas como “séculos de Estados operários deformados” por seus oponentes na época, foram de fato descreditadas. Como a LRP deveria saber, a IBT, assim como seus predecessores políticos, que se opuseram à destruição revisionista da Quarta Internacional realizada por Pablo, sempre defenderam a visão de Trotsky sobre o caráter transitório e instável da burocracia stalinista.

“Aqueles que não são capazes de defender as conquistas antigas”

Durante o tempo de vida de Trotsky existiam tendências em sua organização que, assim como a LRP, acreditavam que a URSS já tinha deixado de ser um Estado operário. Enquanto reconhecia que a diferença teórica no curso dos eventos poderia (e inevitavelmente iria) ter consequências programáticas, Trotsky acreditava que a chave para colaboração política na questão era acordo sobre a necessidade de derrubar os stalinistas combinada com a necessidade de defender a URSS contra a restauração capitalista, sob quaisquer bases teóricas.

A LRP buscou um meio termo teórico entre teorias do capitalismo de Estado tradicionais e a teoria de Trotsky, enquanto na prática geralmente tira as mesma conclusões que os seguidores das primeiras. De acordo com a visão um tanto única da LRP [2] a URSS era um Estado capitalista presidindo sobre formas de propriedade nacionalizadas. Eles reconhecem a propriedade nacionalizada como um importante ganho ainda deixado pela revolução de outubro e que devia ser defendido. Os stalinistas, nesse intervalo, eram vistos agindo como uma burguesia “regente”, virando a propriedade estatal contra a classe trabalhadora e explorando-a com ela, enquanto secretamente esperava (por mais de 80 anos) pela oportunidade certa de restaurar o capitalismo de mercado convencional. Apesar da teoria mais do que falha, a LRP ainda foi capaz de corretamente previr, na época da crise stalinista, que:

“Entretanto, se o poder econômico da burocracia e seus novos aliados reformistas e burgueses ocidentais não for quebrado, os trabalhadores do Leste Europeu verão suas revoluções se virarem contra eles, e se tornarão vítimas de exploração ainda mais profunda do que antes.”

“Revolução Varre a Europa”
PR nº36 (Inverno de 1990)

No seu mais recente artigo, eles corretamente criticam Tony Cliff:

“Em 1998, Cliff publicou um artigo intitulado “O Teste do Tempo” para dizer que sua teoria do capitalismo de Estado tinha sido comprovada. Lá ele repetiu a análise do “passo para o lado”. É remotamente concebível que em 1990 observadores deixassem passar despercebida a ameaça a todos os direitos dos trabalhadores e níveis de vida que estavam vinculados à privatização e pilhagem da propriedade estatal. Mas não no fim da década. Cliff e Cia. nunca aceitaram que qualquer ganho da classe operária tinha sobrevivido sob o stalinismo e assim olharam complacentes enquanto eles iam por água abaixo.”
Fazem as observações corretas de que:

“as 'revoluções' em nome da liberdade devastaram as classes trabalhadores e as levaram para um período de comparativa passividade.”
E (numa passagem previamente citada):

“o seu triunfo [de Ieltsin] inaugurou um período de indisfarçável pilhagem capitalista que enriqueceu um punhado e empobreceu milhões.”
Para um grupo que parece reconhecer o valor e a necessidade de defender as formas de propriedade nacionalizadas, poderia-se supor que o corolário político lógico fosse o defensismo soviético, ainda que na base de um teoria confusa e imprecisa. No entanto, como a maioria das outras organizações que reivindicam ser trotskistas, aqueles com teorias “ortodoxas”, assim como aqueles do “terceiro campo”, a LRP apoiou todas as “revoluções populares” pró-capitalistas, do Solidariedade na Polônia de 1981 em diante que, por acaso, destruíram as formas de propriedade nacionalizadas junto com os stalinistas. Essa experiência deveria forçar qualquer pessoa para a conclusão, ainda que tardiamente, que não se poderia defender a valiosa propriedade nacionalizada sem ao mesmo tempo defender aqueles Estados que se baseavam nessa propriedade contra as forças políticas que buscavam a privatização. No entanto, a LRP ainda argumenta:

“Na URSS, o contragolpe de Ieltsin foi o evento chave no afastamento do Partido Comunista do poder. Nesse conflito entre alas da classe dominante capitalista burocrática, os stalinistas 'linha-dura', liderados pelo vice-presidente Gennady Yanaiev, tentaram tomar o poder só para si e pôr fim ao delicado equilíbrio de poder mantido por Gorbachev, envolvendo eles e os privatistas mais rápidos. O golpe colocava um agudo perigo para a classe trabalhadora, já que seus líderes anunciavam uma imediata proibição das greves e uma retração dos limitados ganhos democráticos cedidos por Gorbachev na campanha da 'glasnost' (abertura) na meia década anterior. Então os trabalhadores revolucionários teriam se oposto ao golpe e teriam taticamente entrado num bloco militar com Ieltsin para derrotar a ameaça imediata aos interesses dos operários.”
(Numa seção do seu artigo que nós citamos anteriormente, a LRP castigou os grupos que “apoiaram Ieltsin em dúbias bases democráticas”).

Em contraste, Trotsky corretamente indicou:

“Nós não devemos perder de vista nem por um instante o fato de que a questão de derrubar a burocracia soviética é para nós subordinada à questão de preservar a propriedade estatal dos meios de produção na URSS; que a questão de preservar a propriedade estatal dos meios de produção na URSS é subordinada para nós à questão da revolução proletária mundial”.

Em Defesa do Marxismo (1942)
Para a LRP, a questão de defender a propriedade estatal dos meios de produção é subordinada à derrubada dos stalinistas. Subordinar a linha de classe ao democratismo pequeno-burguês parece ser o substrato da substituição que a LRP faz da análise marxista pelo moralismo em muitas de suas posições erradas, da questão russa à questão nacional.

Propriedade nacionalizada

A LRP busca criar o que, nesse caso, é uma falsa e artificial distinção, argumentando que a sua defesa era limitada à propriedade nacionalizada, mas não ao Estado. De uma maneira similar, eles dizem que defenderiam reformas estatais socialdemocratas e liberais de bem-estar social, ou nacionalizações realizadas por regimes burgueses no terceiro mundo, pelo propósito do desenvolvimento econômico etc. Entretanto, muitas seções da classe dominante reconhecem que serviço postal público, transporte público de massa, educação pública e outros setores estatais não são apenas ganhos obtidos pela classe operária, mas também os requisitos mínimos para o funcionamento apropriado da economia capitalista. Intervenções estatais na economia capitalista são particularmente importantes em períodos de crise econômica e guerra. Mas dizer que a as relações de propriedade nacionalizada que existiam na União Soviética e outros Estados operários eram de caráter similar exige vontade de não querer ver.

A LPR às vezes parece reconhecer isso, quando escreve:

“Trotsky não pensava que a burguesia tradicional pudesse na prática nacionalizar completamente a economia. Ele estava certo: isso exigia a revolução proletária, posteriormente usurpada pela burocracia stalinista”. [3]
A diferença entre uma sociedade capitalista com vários traços “sociais” e a URSS é o mesmo que a diferença entre a NEP de Lenin e o capitalismo.

O Estado e a contrarrevolução

A LRP corretamente expõe a inabilidade da SL (e de outros) de dizer quando a contrarrevolução triunfou na URSS. Tendo sido neutra na luta entre Ieltsin e os burocratas stalinistas em agosto de 1991, é compreensível o porquê de a SL buscar negar o significado da vitória de Yeltsin.

A LRP está certa em afirmar que essa é uma questão teórica muito séria a qual os marxistas devem responder. Ao argumentar que Ieltsin gradualmente, no decorrer de um tempo indeterminado, realizou de maneira bem sucedida uma contrarrevolução “aos poucos”, a SL, como ela havia previamente argumentado quando ainda uma organização revolucionária, tinha realizado um:

“abandono da teoria leninista sobre o Estado em favor de uma concepção linear, burguesa, como a de um termômetro que gradualmente passa de 'Estado burguês' para 'Estado operário' por pequenos incrementos, sem uma mudança qualitativa. Tal metodologia é a pedra angular do Pablismo.”

“Carta para o CORQUI e a OCI”
Spartacist nº22, Inverno de 1973-74
Tal compreensão teórica reformista, como Lenin apontou em obras como O Estado e a Revolução e A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky, desempenharam um importante papel quando a socialdemocracia cruzou a linha de classe em 1914. Esse abandono teórico também foi evidente, como a LRP corretamente percebe, no entendimento que a Quarta Internacional tinha nos anos 1940 sobre a criação de Estados operários deformados no Leste Europeu e China.

A IBT havia anteriormente criticado esse ponto em relação à SL (veja “Entendendo a Rússia Certo” por S. Trachtenberg, 1917 nº16, 1995) assim como para outros grupos, como o Esquerda Comunista da Nova Zelândia (hoje Grupo Operário Comunista/NZ):
“É notável que cada onda maior de revisionismo no marxismo atingiu a concepção marxista sobre o Estado. De Bernstein, para Kautsky, para Stalin – todos tentaram minar a concepção do Estado como força armada em defesa de uma forma de propriedade da classe dominante. Assim, o revisionismo substitui o marxismo por Estados 'de duas classes', Estados 'sem classes', Estados 'intermediários', e Estados 'de transição'....”

“Um Estado 'de duas classes' é inevitavelmente um Estado burguês, assim como uma frente popular 'de duas classes' é inevitavelmente uma frente burguesa. Em última instância, o programa comunista em relação a um Estado 'de duas classes' e a uma frente popular 'de duas classes' se reduz à questão da linha de classe. As dificuldades do Esquerda Comunista nas duas questões derivam de uma mesma fonte: a sua incapacidade de distinguir a linha de classe.”

Contra o Centrismo (1993)
Esse ponto também foi colocado contra a Liga por uma Internacional Comunista Revolucionária (hoje Liga pela Quinta Internacional)
“Harvey pensa que 'o caráter de classe do Estado' no caso de tais oscilações pode ser determinado pela atividade de tal regime a qualquer instante determinado – quando ele age para os capitalistas, ele é um Estado capitalista, mas, se ele tomar alguma ação em favor do povo trabalhador, ele se torna um Estado operário. O tipo de 'marxismo' que 'entende' tais noções é chamado kautskismo.”
“Lenin atacou a idéia de que um Estado burguês possa ser transformado em um instrumento para servir aos interesses dos oprimidos:
'Que o Estado é um órgão do poder de uma classe definida que não pode ser reconciliado com o seu antípoda (a classe que se opõe a ele) é algo que os democratas pequeno-burgueses nunca serão capazes de entender' – O Estado e a Revolução'”
“Lenin categoricamente rejeitava a idéia de que um regime pequeno-burguês oscilante (ou qualquer outra coisa) possa transformar um Estado capitalista em um instrumento para revolução social:
'Revolução consiste não em uma nova classe comandando, governando com a ajuda da antiga máquina de Estado, mas nessa classe esmagando tal máquina e comandando, governando com a ajuda de uma nova máquina. Kautsky denigre essa idéia básica do marxismo, ou ele falhou grotescamente em entendê-la'”
“Cuba, LRCI & Teoria Marxista”
1917 nº13, 1994
A LRP colocou o que parece ser um argumento similar numerosas vezes:

“As mudanças governamentais hoje [em relação ao pós-guerra no Leste Europeu] vão na direção reversa: os stalinistas estão sendo substituídos por tipos que pretendem ser burgueses. ('Burguês' se refere ao capitalismo tradicional do Ocidente, como distinto da versão estatizada do Leste). Ambas as transformações aconteceram sem confrontações forçosas entre os dois elementos dominantes. Chamá-las de revoluções sociais leva ao reformismo, a noção de que o poder pode ser transferido de uma classe para outra pacificamente e gradualmente. Isso contradiz o ensinamento central da teoria marxista de que o Estado é o instrumento de uma classe dominante particular e defende a ordem e as formas econômicas dessa classe com seu poder armado.”
“A Agonia Mortal de uma Teoria Deformada”
PR 39, Inverno de 1991
e no artigo mais recente:

“Marxistas que acreditam que a URSS e Estados aliados eram não-capitalistas antes de 1989 mas que são capitalistas agora terão que responder à pergunta para cada país: quando a contrarrevolução aconteceu? Nós já mencionamos que trotskistas ortodoxos nos anos 1940 tinham problemas consideráveis com a 'questão da data' daquele tempo: quando os países do Leste Europeu, China, etc. se tornaram Estados operários? O problema reverso após 1989 foi igualmente problemático” [4]
A solução da LRP é argumentar que a contrarrevolução triunfou nos anos 1930, como consequência dos Julgamentos de Expurgo. A LRP argumenta que os expurgos representaram uma “guerra civil preventiva” e que portanto sua análise resgata a teoria marxista da necessidade de uma contrarrevolução violenta:

“A degeneração acelerou nos anos 1930. Durante os Grandes Expurgos na segunda metade da década, os stalinistas aniquilaram os elementos revolucionários sobreviventes no partido e destruíram as unidades de oficiais do Exército Vermelho. O núcleo essencial do poder de Estado – seu exército, polícia e poderes jurídicos foi expurgada e expurgada novamente até que todos os vestígios de bolchevismo fossem apagados. Assim, o aparato de Estado foi esmagado e reconstituído numa ferramenta da alta burocracia – uma nova classe capitalista, uma classe dominante regente no lugar da burguesia destruída. Isso significou a conclusão da contrarrevolução: o Estado operário foi destruído.”
Enquanto houve uma contrarrevolução violenta na URSS em agosto de 1991, é verdade que em muito do Leste Europeu tal confrontação não ocorreu; no lugar os stalinistas e uma classe operária desorientada abdicaram do poder. Como Trotsky notou:

“Se um exército capitula ao inimigo numa situação crítica sem lutar, então essa capitulação toma completamente o lugar de uma 'batalha decisiva', na política como na guerra.”
A Terceira Internacional Depois de Lenin (1928)
Como um precedente histórico na outra direção, a República Soviética Húngara de 1919 chegou ao poder quando o governo e Estado burguês similarmente abdicaram do poder sem luta. Marx, Engels, Lenin e Trotsky todos reconheceram a possibilidade teórica, se não a probabilidade, de uma obtenção pacífica (em oposto a gradual) do poder de Estado [5]. Em escritos tais como A Guerra Civil na França e O Estado e a Revolução, a principal questão não era o nível de força e violência usada para uma revolução e, por implicação, contrarrevolução, bem sucedida, mas sim que “a classe trabalhadora não pode simplesmente tomar posse da máquina de Estado pronta e usá-la para seus próprios propósitos”.

No entanto, isso é precisamente o que a teoria da LRP (como a da SL) implica; que os stalinistas/capitalistas nos anos 1930 (ou Ieltsin em 1991-92) tomaram posse da “máquina de Estado pronta” e então prosseguiram para usá-la na restauração do poder capitalista através da morte e do expurgo de elementos comprometidos com as formas de propriedade socialistas. Para usar uma analogia, usando essa metodologia pode-se então teoricamente argumentar que o caminho para o socialismo reside em se infiltrar secretamente nos partidos Democrata e Republicano e, uma vez retendo posições de poder, usá-lo para gradualmente expurgar aqueles comprometidos com o capitalismo a partir de dentro do aparato de Estado.

Embora usada num diferente contexto, a afirmação de James Cannon (frequentemente citada pela LRP) é muito bem adequada nesse assunto:

“Eu não acho que você possa mudar o caráter de classe de um Estado por manipulações no topo. Isso só pode ser feito por uma revolução que seja seguida por uma mudança fundamental nas relações de propriedade... Se você começa a brincar com a idéia de que a natureza de classe do Estado pode ser mudada por manipulações nos altos círculos, você abre a porta para todos os tipos de revisões de teoria básica.”
Boletim Interno do SWP, outubro de 1949 (citado no artigo da LRP) [6]
Leninismo vs. economicismo

Um argumento central colocado pela LRP é de que se a URSS fosse um Estado operário, então a classe operária teria se levantado para defendê-la. Já que não houve insurreições da classe operária contra os stalinistas nos anos 1930, o período no qual a LRP considera que a contrarrevolução capitalista triunfou, a LRP deveria logicamente chegar à conclusão de que a URSS nunca foi um Estado operário.

A raiz dessa teoria facilmente desmentida é a rejeição pela LRP do entendimento de Lenin de que a consciência socialista não é um reflexo automático dos interesses materiais da classe operária, mas que devemos lutar por ela entre a classe operária a partir de fora, com a intervenção de um partido de vanguarda. Se os trabalhadores fossem espontaneamente socialistas, então a revolução teria triunfado há muito tempo, trabalhadores jamais apoiariam frentes populares, guerras imperialistas, ideologias racistas etc. Assim como a classe trabalhadora recebe uma infusão de falsa consciência burguesa pelos burocratas sindicais e socialdemocratas reformistas, ela também a recebeu por décadas de desgoverno stalinista, mentiras e repressão.

A LRP argumenta nesse artigo que:

“Trotsky uma vez disse sobre a União Soviética que aqueles que não fossem capazes de defender os ganhos passados da classe trabalhadora jamais poderiam obter novos. O mesmo é verdade sobre aqueles que não podem compreendê-los.”
Usando esse critério correto, ambos a LRP e seus parceiros de debate mostraram tanto incapacidade de defender quanto compreender.

Notas de rodapé

[1] Nos anos 1940, Max Shachtman, de maneira similar, também foi capaz de fazer astutas observações sobre as cambalhotas teóricas da Quarta sobre as extensões stalinistas no pós-guerra, enquanto mantinha ele próprio uma análise incorreta.

[2] A LRP desenvolveu uma teoria do capitalismo de Estado que é unicamente sua, e não parece ver a ironia de, por um lado, fazer uma mistura de todos aqueles que revindicam ser trotskistas “ortodoxos”, exultando:
“Depois da queda, apesar de sua teoria comum, eles não podiam concordar sobre como ou quando os ex-Estados stalinistas tinham se tornado capitalistas. A 'teoria' acabou não sendo nenhuma base para análise, mas simplesmente um distintivo para sociedades que certa vez tinham aparentado livres da crise do capitalismo.”
Enquanto observam sobre o “clube” que defende a teoria capitalismo de Estado, a qual alguns argumentam que eles pertencem:
“Outros erros a parte, nenhuma dessas correntes lidou adequadamente com a histórica dimensão da 'mudança de regime' na URSS: como e quando o Estado operário soviético tinha sido desfeito? Todos eles disseram ou deixaram implícito que os stalinistas tinham acabado com o Estado operário no momento em que se consolidaram no poder nos anos 1920 ou no começo dos anos 1930.”
[3] Essa visão não conta para a criação de economias completamente nacionalizadas nos Estados geridos pelos stalinistas fora da URSS.

[4] A confusão da Quarta naquela época foi parcialmente um reflexo de observar as formas de propriedade dominantes, que foram gradualmente modificadas, mais do que o poder armado, o núcleo do Estado, que era o Exército Soviético ocupando esses países. Os governos “populares” que incluíam figuras burguesas não tinham poder real, estando o poder efetivo nas mãos das tropas de ocupação soviéticas que instalaram e retiraram esses governos conforme quiseram. Na maioria dos países os capitalistas foram expropriados; em outros, como a Áustria, eles não foram, sendo o resultado no final o produto das decisões soviéticas (decisões forçadas sobre eles pela pressão militar imperialista). No período de intervalo, o que existia era uma força militar ainda não comprometida com a propriedade capitalista ou coletivizada. Ou seja, não havia Estado no sentido marxista do termo.

[5] Marx e Engels na ocasião argumentaram sobre a possibilidade, sob circunstâncias históricas diferentes no passado, de uma transição pacífica nos Estados Unidos e na Inglaterra. No período imediato precedendo a revolução russa, Lenin discutiu a remota possibilidade de isso também ocorrer na Rússia:
“Antes de 4 de julho [...] transferir o poder aos Sovietes então existentes [...] poderia ter sido feito pacificamente, sem Guerra Civil. Porque não havia ocorrido atos de violência sistemática contra as massas, contra o povo”
“Agora e apenas agora, talvez durante apenas alguns dias ou uma semana ou duas, tal governo possa ser estabelecido e consolidado de um modo perfeitamente pacífico. Com toda probabilidade ele poderia assegurar o avanço pacífico de toda a revolução russa [...]” (ênfase no original)
Citado em “Lenin em 1917” de Victor Serge
Revolutionary History, Vol. 5 No.3
[6] Apesar das melhores intenções da LRP de evitar as armadilhas das “revisões de teoria básica” ao postular a mudança do caráter de classe do Estado através de “manipulações no topo”, parece que a lógica de tentar afirmar, contra a verdadeira realidade histórica, a restauração do capitalismo nos anos 1930 forçou a LRP a cair precisamente nessa arapuca enquanto buscava responder à “questão da data”:
“A culminância formal da contrarrevolução veio no 18.º Congresso do Partido em março de 1939. Lá o triunfante PC santificou as novas relações sociais e abertamente se consagrou à intelectualidade burocrática. Após esse ponto era impossível dizer que o Estado era dominado pelos interesses da classe operária, ainda que numa forma distorcida [...]”
“Onde a Constituição de 1936 tinha simbolicamente substituído o proletariado em favor de 'todo o povo', agora o Congresso do Partido dava poder à nova burocracia [...]”

“Dirigindo-se ao Congresso, o capanga de Stalin, Zhdanov, declarou que a preferência até então dada aos militantes que estavam no partido provenientes da classe operária tinha acabado: 'O sistema existente, como prescrito nas Regras do Partido, de admitir novos membros no Partido de acordo com quatro categorias diferentes, dependendo do status social [ou seja, classe] do candidato, é obviamente incompatível com as mudanças na estrutura de classe da sociedade soviética resultante da vitória do socialismo na URSS.”

A Vida e a Morte do Stalinismo, de Walter Daum
Páginas 183-184
Muitos irão reconhecer este esquema arbitrário como tendo muito em comum com a reivindicação maoísta de que a URSS se tornou capitalista em 1956, logo depois que Kruschev fez seu famoso “Discurso Secreto” reconhecendo muitos dos crimes de Stalin.
Leia mais!