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Somos uma organização marxista revolucionária. Procuramos intervir nas lutas de classes com um programa anticapitalista, com o objetivo de criar o Partido Revolucionário dos Trabalhadores, a seção brasileira de uma nova Internacional Revolucionária. Só com um partido revolucionário, composto em sua maioria por mulheres e negros, é possível lutar pelo governo direto dos trabalhadores, como forma de abrir caminho até o socialismo.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Educação, Verdade e Revolução (David Rehem)


O companheiro David Rehem, da Bahia, nos mandou esse texto, com a seguinte mensagem: "Um texto meu, com algumas preocupações sobre o que chamamos de educação... Aberto para discussões".

Nós reproduzimos aqui, não só pelo tema fundamental da valorização da educação (ainda mais num período de greve das  universidades), mas também porque a concepção de educação faz parte da disputa pela hegemonia na sociedade, entre a classe trabalhadora (incluindo as suas organizações) e a burguesia. Se uma nova educação, não é possível criar o Homem Novo nem uma sociedade socialista.



Educação, verdade e Revolução

David Rehem

Escrevo esse texto a partir de experiências recentes enquanto educador, tanto em sala de aula quanto técnico.

São inúmeros os problemas vividos hoje na educação do nosso país que vão desde questões profissionais a estruturais. Neste ano profissionais da educação de escolas da educação básica e do ensino superior público e privado passaram por greves que pautaram desde questões salariais até estrutura física e condições de trabalho. Os problemas não param por aí, existem ainda questões que estão ligadas ao investimento público, violência no espaço escolar, currículo e mais uma interminável lista.

Soluções aparecem a todo momento. Dentre essas propostas de solução a que hoje tem maior visibilidade e pauta as discussões sobre educação em nosso país é o movimento “Educação para Todos”, criado em 2006 e que possui cinco metas a serem alcançadas até 2022, sendo elas:

Meta 1: Toda criança e jovem de 4 a 17 anos na escola
Meta 2: Toda criança plenamente alfabetizada até os 8 anos
Meta 3: Todo aluno com aprendizado adequado à sua série
Meta 4: Todo jovem com o Ensino Médio concluído até os 19 anos
Meta 5: Investimento em Educação ampliado e bem gerido

Quem encabeça a lista de apoiadores deste projeto são, não por acaso, multinacionais de diversas áreas e bancos privados[1], incluindo, aí, duas dos mais influentes e conservadores meios de comunicação: a Globo e a Editora Abril. Na sua direção estão membros representantes dessas diversas empresas e tem sua atuação estruturada em três pilares: geração de conhecimento técnico, mobilização e comunicação, e articulação institucional.

Num primeiro olhar é uma atitude nobre e despretensiosa, feita por bons empresários, preocupados com o futuro do país, mas basta acompanhar as ações e programas implementados para ver que não é bem por aí.

Em primeiro lugar as ações estão todas voltadas para a formação técnica, ou seja, educação voltada para suprimento da mão de obra desses empresários. No ano passado o jornal Hoje, da Rede Globo, apresentou uma série de documentários sobre a educação em nosso país, mostrando diversos problemas, sempre de comentários de profissionais da área. Mas, não eram “qualquer” profissionais. Em sua maioria estavam ligados ao projetos desenvolvidos pelo “Educação para Todos” . Em uma dessas entrevistas a pedagoga (que não me recordo o nome) afirmou que a necessidade de uma reforma curricular partia da necessidade de se contextualizar a demanda dos estudantes da escola. Até aí, nada demais. Mas, para ela, essa contextualização deveria prever quais as “oportunidades profissionais” daquele público para que se construísse um currículo técnico ou humanista. Não está explícito, mas o que ela sugeria é que para um filho de pedreiro, o ensino técnico; para de um “dotô”, o ensino reflexivo. Para um o enquadramento social e sua perpetuação, para o outro a liberdade de escolha.

Em segundo lugar, a meta 5, que se refere à investimento em Educação, não está ali por acaso. Não é de agora que a iniciativa privada visa mercantilizar nossa educação, tornando-a como mais um produto de consumo e não como uma necessidade estratégica para garantia da formação humana de cada um. Cabe um breve histórico. Não é a toa que a hoje chamada educação básica se tornou universal e obrigatória no mesmo período dos primeiros acordos entre o Ministério da Educação e United States Agency for International Development (USAID)[2], conhecido como acordo MEC-USAID; também “coincide” com o momento em que se inicia o sucateamento da educação pública (que agora receberá os filhos da classe trabalhadora) e a ascensão do ensino privado, antes conhecido como pagou passou.

Agora se vende outro engodo. Os tentáculos da iniciativa privada não mais se contentam com a fatia que lhe foi destinada na década de 1970, agora ela tenta avançar no ensino público, propondo e formatando-o segundo seus interesses, fruto do assentamento da hegemonia burguesa pós-Guerra Fria. A falta de financiamento na educação pública em todos os níveis “confunde” a autonomia universitária com autonomia de estabelecimento de PPP’s (Parcerias Público-Privadas), dando à iniciativa privada o conhecimento gerado em nossas universidades e que, como públicas, deveria ter como fim o interesse público. Some-se a isso a expansão das chamadas UNIESQUINAS por todo o país, sob investimento público que têm servido apenas para aumentar o índice de pessoas com nível superior junto aos estudos sobre o progresso [sic] da educação no país.

Mas tais atitudes não me espantam. O que me espanta é como educadores compram (literalmente) essa idéia, sem refletir o que está por trás dela. É como se essa receita mágica fosse resolver o problema do estímulo ao estudante em ficar em sala de aula e aprender algo. Dados poderão até ser apresentados comprovando isso, mas não significa que essa é uma “tendência natural” das coisas, já que muitas vezes somos induzidos a acreditar que basta ter uma formação técnica para garantirmos que será solucionado, dessa forma, o problema das desigualdades sociais.[3] Ledo engano...

Soma-se às discussões de uma formação tecnicista a defesa de uma tal “cultura da paz”. Essa cultura da paz defende a necessidade de pensarmos formas de conviver harmonicamente em nossa sociedade, buscando as soluções para os problemas dentro das escolas e discutindo cidadania. Vamos por partes...

Comecemos pelo fim. Cidadania... Em primeiro lugar, o que é a noção de cidadania em uma sociedade capitalista, pautada pela exarcerbação do individualismo, senão a mentira de que é possível se viver de forma equânime em uma sociedade pautada pela diferença de classe? Mas essa discussão é permeada e vista esperançosamente como a solução dos nossos problemas de “civilidade” e acesso e garantia a nossos direitos. Quando, enquanto educadores, defendemos tal concepção estamos reproduzindo o discurso mentiroso de que essa é a nossa única possibilidade de ver o mundo e de se relacionar com ele. É dizer que não podemos pensar outras formas de garantir a cidadania plena, a não ser escamoteando nossas diferenças de classe e que é possível viver em uma sociedade em que o acesso aos direitos sejam iguais para trabalhadores e burguesia/classe dominante.

Essa defesa do discurso da harmonia social está ligada direitamente a uma perpetuação da idéia defendida pelos estadunidenses (a partir dos historiadores Fukuyama e Huntington) quando do fim da União da Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e a queda do muro de Berlim, de que a História teria chegado ao fim e que o nosso ápice de forma de organização social era o capitalismo e não há como ser diferente. Tornou-se vergonhoso, perigoso e, na maioria das vezes, loucura falar de Revolução, de alternativas ao capitalismo, de luta de classes... Foi uma mentira dita muitas vezes que se tornou verdade, no bom estilo Goebbels, na elaboração de sua propaganda nazista. E nós, educadores, profissionais “reflexivos” de nosso passado, presente e futuro simplesmente dissemos amém ao que foi plantado como verdade universal e absoluta.

Tudo passou a ser apenas problemas de desrespeito e intolerância, mas de fácil solução pela cultura da paz. Falar em luta de classes era (e é encarado dessa forma) defasado e trazia a palavra LUTA que teria um sentido negativo, já que seria possível superar essas diferenças pela paz, pelo diálogo... Depois de vinte anos é mais do que visível que desrespeito e intolerância são inerentes a uma forma de organização social baseada na exploração do ser humano, do individualismo, do consumismo, do ter e não do ser. Mais incrível é que teóricos que defendiam a educação como instrumento de libertação e reflexão, como Paulo Freire, Vigotsky e Gramsci, são hoje utilizados como validadores dessa falsa harmonia.

O resultado são materiais e palestras que retrocedem a soluções simplistas. Textos muito bonitos que falam da igualdade, que dizem apontar para solução de problemas, mas não a partir da libertação problematizadora-reflexiva, do debate de possibilidades de verdades, de projetos políticos diferenciados, universais e específicos, mas da re-produção de mentiras de que é possível viver sem conflitos em uma sociedade baseada em conflitos. A metodologia parece resgatar a mesma lógica da educação tradicional de formatar, ditar o que se deve aprender, escamoteado em propostas de atividades que parecem reflexivas, mas que traçam um caminho visivelmente definido de qual é o objetivo final: docilização de corpos e mentes.

O problema é quando há o despertar para essas mentiras... O caminho mais comum, infelizmente, não é o da tomada de consciência da necessidade de reflexão-transformação, a partir de uma perspectiva de ruptura revolucionária; infelizmente o caminho normalmente tomado é o da violência contra outras vítimas, professores agredindo estudantes e vice-versa; a ilusão da cidadania, onde o culpado do não exercício da mesma não é visto como um problema sistêmico, mas sim como uma boa vontade individualizada do trabalhador, do setor público ou privado

Não a educação como bem de consumo! Não a educação como bem de consumo! Não a educação como bem de consumo!

Termino meu texto, repetindo essa frase, para que ao menos uma vez uma verdade dita milhares de vezes possa se tornar... verdade.


[2] Agência para o Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos – tradução livre do autor.
[3] É um recurso bastante comum a utilização de dados como demonstradores da verdade, como se não fossem passíveis de interpretação ou análises.

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