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Somos uma organização marxista revolucionária. Procuramos intervir nas lutas de classes com um programa anticapitalista, com o objetivo de criar o Partido Revolucionário dos Trabalhadores, a seção brasileira de uma nova Internacional Revolucionária. Só com um partido revolucionário, composto em sua maioria por mulheres e negros, é possível lutar pelo governo direto dos trabalhadores, como forma de abrir caminho até o socialismo.

domingo, 13 de julho de 2014

Palestina/Israel, uma coexistência impossível (Denise Oliveira e Rodrigo do Ó)


Reproduzimos aqui o artigo escrito pelos companheiros, e revisado pela companheira Lenna Valendorf, que dá uma explicação didática sobre as raízes e história do conflito na região. O blog da companheira Denise é este aqui.



Palestina/Israel,uma coexistência impossível


Para entender o conflito permanente entre o Estado fortemente armado de Israel, contra  foguetes artesanais da Palestina, precisamos entender como foi desenhada a configuração da coexistência entre as duas nações. Por mais que a ONU não reconheça, a Palestina é uma nação. E, mais do que sempre, é necessário o reconhecimento, e a delimitação do Estado da Palestina.


Um histórico

A região que hoje abriga o Estado de Israel era habitada pelos povos árabes desde a Antiguidade. Por conta das várias Diásporas do povo israelita, causada pelas perseguições e escravidão imposta no período do Império Romano, essa região foi sendo  efetivamente ocupada pelos muçulmanos.

 Os judeus se tonaram um povo de comerciantes desde a destruição do Segundo Templo, em 70 d. C. O cristianismo já nasceu fazendo polêmicas religiosas contra a religião judaica, mas esse antijudaísmo só virou o que conhecemos hoje como antissemitismo depois no final do século XIX, quando o motivo da perseguição deixou de ser religioso e se tornou étnico.

Durante toda a Idade Média, os judeus foram perseguidos, tanto por motivos econômicos (as riquezas que eles conseguiam através do comércio), como por motivos religiosos, porque a própria existência desse povo colocava em dúvida os dogmas da Igreja sobre o Antigo Testamento ter sido abolido e Jesus ser o Messias.

Com a formação dos Estados modernos, as monarquias usaram da perseguição religiosa para se apoderar dos bens dos judeus, como aconteceu através da Inquisição em Portugal e na Espanha.

Sem mudar a situação de marginalização, no século XVIII surge o movimento de reforma no judaísmo, muito influenciado pelos ideais iluministas, com o objetivo de que os judeus fossem assimilados nas sociedades europeias. No século XIX, a maioria dos judeus concentrava-se no Leste Europeu e dedicavam se ao comércio e ao empréstimo de dinheiro a juros. Com o desenvolvimento das burguesias nacionais e da Revolução Industrial, no entanto, os judeus foram responsabilizados pelo desemprego em massa e pela concorrência com as classes dominantes. A partir daí, foram confinados a guetos, sofreram várias perseguições e massacres. O resultado disso foi a emigração para a Europa Ocidental. Durante todo o século XIX, houve uma assimilação crescente dos judeus, e entre os judeus da classe trabalhadora, essa assimilação era ligada à participação no movimento socialista.

O sionismo surgiu no final do século XIX, por causa da contradição colocada à tentativa de assimilação pelas ondas periódicas de antissemitismo. Foi neste cenário que o jornalista judeu Theodor Herzl, em 1896, criou o movimento sionista, cujo objetivo era estabelecer um lar judeu na Palestina. Este povo começou a colonizar o país em 1897, ano da fundação da Organização Sionista Mundial. O objetivo do sionismo, o retorno dos judeus a Sião (Jerusalém), era uma aspiração de uma pequena minoria dos judeus.

Vale ressaltar que Herzl era portador de ideias racistas, próprias do seu tempo, onde o etnocentrismo vigorava a pleno vapor, e ele investiu na emigração de judeus para a Palestina, iria civilizar a região, pois acreditava que o povo árabe era atrasado cultural e socialmente.

Sem apoio popular suficiente, os sionistas vão buscar ajuda nos governos imperialistas. Durante a Primeira Guerra Mundial, em que o Reino Unido lutou contra o Império Otomano, o secretário de Assuntos Estrangeiros Arthur James Balfour, num documento que se tornou conhecido como Declaração de Balfour, de 1917, prometeu aos judeus o território da Palestina se o Império Otomano fosse derrotado. Quando isso aconteceu, a Palestina se tornou um Mandado britânico.

Durante o período entre guerras, e mais profundamente na década de 1930, e durante toda II Guerra, o movimento sionista colaborou com os nazistas, forçando a ida de judeus deportados, para a Palestina, a fim de ocupar a área. O que era muito bom, tanto para os nazistas que queriam se livrar da concorrência  judaica na economia, quanto para os sionistas, que queriam ocupar uma das partes mais disputadas economicamente pelo capitalismo.

A partir do fim da guerra, houve um aumento da imigração de judeus para a Palestina, mas, até a década de 1930, eles ainda eram uma minoria (como foram durante séculos). A Liga das Nações (organização criada ao final da I Guerra Mundial, e antecessora da ONU), declarou a região da Palestina como Mandato Britânico, com obrigação de conciliar os grupos árabes e judeus. Entre 1917-1938, incentivados pelo Lorde Balfour, milhares de judeus foram para a Palestina, compraram terras e se estabeleceram em núcleos cada vez maiores. Neste período, começaram os choques entre judeus e árabes, que assistiam os judeus conquistarem boa parte das terras boas para o cultivo.

Os judeus criaram um exército clandestino (Haganah) para proteger suas terras e, à medida que crescia a emigração judaica para a Palestina, aumentavam os conflitos. Durante a 2ª Guerra Mundial - em função da perseguição alemã e do Holocausto -, a emigração judaica para a região aumentou vertiginosamente e a tensão chegou a níveis insuportáveis: os britânicos, na época, tomaram partido dos Aliados e os árabes, do Eixo.

Em 1936, quando os judeus já constituíam 34% da população na Palestina, estourou a primeira revolta árabe. Bases e instalações inglesas foram atacadas e judeus foram assassinados. A Inglaterra esmagou a rebelião e armou 14 mil colonos judeus para que pudessem defender suas colônias.

Pouco tempo depois, a Grã-Bretanha tentou controlar a emigração judaica para a área e, desta vez, os judeus atacaram os ingleses. Em 1946, o quartel-general dos britânicos foi dinamitado e 91 pessoas morreram.

Em 1947, os Aliados, incluindo a União Soviética, votaram na ONU pela repartição da Palestina e pela formação do Estado de Israel. A perseguição e extermínio em massa dos judeus na Europa, reforçou, ao fim da Guerra, a criação de um estado que protegesse o povo judeu. Imediatamente, os governos árabes da região tentaram impedir militarmente a independência. Israel, com o apoio imperialista, conseguiu se estabelecer através de uma resposta violentíssima, inclusive com a expulsão de vilarejos inteiros da população árabe, na guerra de 1948. Esse acontecimento é chamado pelos povos árabes de Nakba (Catástrofe). Desde então, uma das reivindicações do povo palestino é o direito de retorno às terras que eles ocupavam antes. A outra parte do território Palestino é dividida entre o Egito (Gaza) e a Jordânia (Cisjordânia).

Durante os anos de Guerra Fria, o Estado de Israel, foi de suma importância para a manutenção dos interesses do bloco capitalista no Oriente Médio. Portanto, receberá um apoio bélico dos mais modernos advindos dos EUA, principal parceiro de Israel na região. Com a promoção de vários conflitos e alargando seus domínios sobre os países árabes, Israel vai tomando um corpo muito maior, tanto pelo crescimento populacional, como o fortalecimento bélico:

Guerra de Suez, Egito X Israel, 1956: conflito gerado pela nacionalização do Canal de Suez e o fechamento do Porto de Eilat, que prejudicava a economia do Egito.

Os palestinos lutaram pela sua autodeterminação, formando em 1964 a OLP (Organização pela Libertação da Palestina), que incluía vários setores nacionalistas e socialistas, sendo os principais a Al-Fatah (A Abertura), nacionalista de esquerda, a Frente Popular pelaLibertaçãoda Palestina (FPLP), marxista-leninista, e a Frente Democrática pela Libertação da Palestina, maoísta. Desde a época, a OLP era dirigida por Yasser Arafat. A OLP defendia o fim do Estado de Israel, e o estabelecimento de um Estado Palestino democrático e laico, no território anterior à repartição. E imediatamente começou a guerra de guerrilhas contra Israel, com o apoio dos governos nacionalistas árabes.

Setores de extrema-esquerda de Israel, como o Partido Comunista Israelense, formado em 1948 a partir do antigo Partido Comunista da Palestina, e o Matzpen (Organização Socialista em Israel), marxista revolucionária, defendiam um Israel socialista e não-sionista que reconhecesse a autodeterminação do povo palestino na “outra metade” do antigo Mandato Britânico. 

Diante da pressão nacionalista, principalmente do governo de Nasser, no Egito, a resposta de Israel foi militarizar completamente a sociedade. Em 1967, as IDF (Forças de Defesa Israelenses), o Exército de Israel, fizeram uma operação-relâmpago, que ficou conhecida como Guerra dos Seis Dias, em que tomaram a outra parte do território repartido (Gaza e Cisjordânia), além da Península do Sinai e das Colinas de Golã, pertencentes respectivamente ao Egito e ao Líbano.

Nos anos 1970, o Egito e a Síria fazem um ataque surpresa nas regiões invadidas em 1967, durante o feriado judaico do Yom Kippur (o Dia do Perdão). A Guerra do Yom Kippur mostrou que a supremacia militar israelense não era absoluta. Na mesma década, a OLP é aceita na ONU como legítima representante do povo palestino, e os países produtores de petróleo, organizados na OPEP, fazem um embargo aos países aliados a Israel.

Todos esses fatores levam Israel a negociar com o Egito, nos Acordos de Campo David, em 1978, em que Israel devolve a Península de Sinai ao Egito. É a primeira vez que um país árabe reconhece Israel.

Em 1982, Israel intervém na guerra civil libanesa, para debilitar as forças palestinas que estavam baseadas na região. Acontece o Massacre de Sabra e Chatila, um ataque ao campo de refugiados palestinos pelas tropas israelitas no sul do Líbano, que resultou no extermínio de milhares de pessoas.

Primeira Intifada (Rebelião), 1987: rebelião que explodiu na Faixa de Gaza e Cisjordânia, após o atropelamento de quatro palestinos por um caminhão israelense. Os palestinos atacaram o Exército de Israel com paus e pedras. A resistência acaba forçando uma rodada de negociação entre Israel e OLP. A OLP, na mesma época, passa a defender a política de Dois Estados, ou seja, reconhece a existência do Estado de Israel, mas reivindica um Estado Palestino formado pela Cisjordânia e por Gaza.

Nos acordos de Oslo, em 1993, em contra partida, são iniciadas as conversações para o reconhecimento da Palestina. O primeiro passo é a criação da Autoridade Nacional Palestina, criada em 1994, como primeiro passo para o novo Estado. O primeiro-ministro israelense Yitzak Rabin foi assassinado em 1995 por um israelense de extrema-direita contrário ao processo de paz. Isso levou a situação novamente a se estagnar.

A Segunda Intifada começou em 2000, e foi o resultado da frustração com a paralisação das negociações de paz. Nesse período, a política israelense se torna mais dura ainda, com a construção do Muro separando Israel e Palestina. Desde então, a situação de tensão permanente se estabeleceu na região, e periodicamente acontecem crises como a atual.


Século XXI, e o impasse continua

Durante a Primeira Intifada em 1987, nasce o Hamas (Movimento de Resistência Islâmico), fundado pelos xeques Ahmed Yassin, Abdel Aziz al-Rantissi e Mohammad Taha, com orientação sunita, da ala palestina da Irmandade Muçulmana do Egito. O braço político e beneficente da Irmandade Muçulmana é então reconhecido oficialmente por Israel. O grupo se concentrava na ajuda social e em projetos religiosos, com uma intensa ação social e comunitária. Não podemos negar que o Hamas é um movimento fundamentalista Islâmico, e que, dentro do seu entendimento político, as ações terroristas e de extremismo religioso também são válidas.

Nas eleições de 2006, o Hamas chega ao poder, derrotando o Fatah (grupo político majoritário da OLP), que tem uma aberta aceitação norte-americana e israelese). Desde a vitória do Hamas, os conflitos acirram: O Hamas se conflita com o Fatah, e preconiza a luta armada e a destruição do Estado de Israel.

No início de junho, três jovens estudantes judeus, são sequestrados e mortos.  O governo israelense atribui o crime a integrantes do Hamas, em resposta á morte de um adolescente palestino causada por extremistas judeus. Até agora, não existe nenhuma prova que aponte os autores dos assassinatos. Esse foi o estopim para o que vemos há uma semana, ataques totalmente desproporcionais que o Exército de Israel tem imposto a Gaza, em sua maioria, atacando a população civil, com mais de 70 mortos até o momento, incluindo mulheres e crianças.


Denise Oliveira e Rodrigo do Ó - julho de 2014

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