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Somos uma organização marxista revolucionária. Procuramos intervir nas lutas de classes com um programa anticapitalista, com o objetivo de criar o Partido Revolucionário dos Trabalhadores, a seção brasileira de uma nova Internacional Revolucionária. Só com um partido revolucionário, composto em sua maioria por mulheres e negros, é possível lutar pelo governo direto dos trabalhadores, como forma de abrir caminho até o socialismo.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Egito: um golpe é um golpe é um golpe!

Nós copiamos no título a frase da escritora Gertrude Stein ("uma rosa é uma rosa é uma rosa"), da mesma forma que os Panteras Negras fizeram a versão deles ("um policial é um policial é um policial"), também pra defender uma posição que deveria ser óbvia. Na verdade, isso é mais um sintoma da regressão da consciência da classe trabalhadora, e das tentativas da esquerda de rebaixar o seu programa, para não se "distanciar" das massas.
Todos os que lêem jornal ou notícias na Internet podem verificar que, depois de uma manifestação de milhões de pessoas pela queda do presidente Muhammad Morsi, a cúpula das Forças Armadas egípcias deu um golpe e derrubou o primeiro presidente eleito da história do país, em 30 de julho. Morsi era da Irmandade Muçulmana, organização fundamentalista islâmica, que tomou várias medidas impopulares contra os trabalhadores e as mulheres, além de ter votado uma constituição autoritária, em apenas um ano de mandato.
Tudo isso acontece numa situação de alta da inflação, que transformou o Egito no país com o maior número de greves do mundo esse ano, uma quantidade comparável com a do Brasil na década de 1980. Ao mesmo tempo, a Irmandade durante todo esse período lutou contra o movimento de mulheres (uma das expressões mais gritantes do machismo na sociedade egípcia são os estupros e ameaças sofridos pelas mulheres manifestantes) e homossexuais, e atacou fisicamente as religiões minoritárias, principalmente os cristãos coptas (um rito oriental que faz parte da Igreja Católica).
Quando os militares derrubaram Morsi, era evidente o significado da ação: um golpe preventivo para impedir que os trabalhadores fizessem isso com as próprias mãos, caso em que poderiam ser tomadas medidas radicais contra as instituições da ditadura de Mubarak, que não foram desmanteladas quando ele caiu em 2011. Também era óbvio que os militares iam destruir todas as formas de oposição, pra que os trabalhadores na rua não derrotassem o golpe.
Infelizmente, a regressão da consciência provocada pelo fim desastroso da URSS e pelo discurso de "fim do comunismo", fez com que os trabalhadores egípcios, em grande parte,apoiassem o golpe. As manifestações contra o golpe, que tinham que ser apoiadas, foram quase que todas da Irmandade Muçulmana. No dia 14 de agosto, a exército mostrou serviço massacrando mais de 800 militantes da Irmandade, e começando a reprimir as greves à bala.
Os apologistas do imperialismo como os Revolucionários Socialistas e o PSTU
Isso foi o que aconteceu de acordo com os meios de comunicação empresariais e alternativos do mundo inteiro. Parece que aconteceu diferente no mundo imaginário de algumas organizações de extrema-esquerda que acabaram apoiando a política dos militares.
O pior caso foi da única organização marxista revolucionária egípcia, os Revolucionários Socialistas, que fazem parte da IST, a corrente internacional do SWP inglês e da corrente Revolutas do PSOL. Desde 2011, eles apoiaram todas as ilusões dos trabalhadores egípcios, chegando ao extremo de chamar voto no Morsi nas eleições passadas! Em 30 de julho, eles usaram a mesma desculpa dos golpistas e falaram que o exército derrubou Morsi para realizar a "vontade popular". Agora, depois do massacre, parece que eles perceberam que o governo atual é uma ditadura... até eles se iludirem com outra coisa.
Aqui no Brasil, o papel do PSTU tem sido de capitulação total. A declaração (http://www.pstu.org.br/node/19547) do PSTU precisava ser lida várias vezes, porque a argumentação mudava ou se invertia várias vezes no texto. Mas o principal da posição do PSTU é o seguinte: a derrubada do Morsi representa uma "segunda revolução" (ou seja, eles consideram a derrubada do Mubarak uma revolução, mesmo sem organismos de dualidade de poderes nem armamento dos trabalhadores), em que o Exército teve que intervir para tirar o presidente e preservar o regime.
A conclusão disso é que o retorno de Morsi seria reacionário e, por isso, o PSTU defende a proibição da Irmandade Muçulmana e é contra os atos que denunciam o golpe. Se eles são contra o assassinato dos militantes da Irmandade, é por uma questão de pacifismo, porque todas as medidas repressivas do Exército eles apoiam. Dessa forma, o PSTU, que enche a boca pra falar de democracia, não defende as medidas democráticas mais básicas no caso de um golpe, ou seja, lutar contra a perseguição política da oposição ao regime.
Acreditamos que nem mesmo o próprio Nahuel Moreno (o dirigente que criou a corrente internacional do PSTU, a LIT) defenderia isso, já que a CST/PSOL, que também é morenista, denunciou o golpe claramente.
No caso dos companheiros do Espaço Socialista, de quem reproduzimos a declaração (http://espacosocialista.org/portal/?p=2143) no nosso blog e no jornal, a posição deles é umabstencionismo diante do golpe, declarando que os dois lados são burgueses sem fazer uma distinção tática como prioridade do movimento proletário em combater politicamente e militarmente as frações burguesas golpistas e depois combater militarmente Morsi e os fundamentalistas da Irmandade Muçulmana.
Além disso, eles não defendem as liberdades democráticas para os militantes da Irmandade Muçulmana, enquanto dizem que a solução para o Egito é o socialismo. Ou seja, defendem a estratégia correta pelo socialismo, no entanto sem têm tática nem política transitória concretas para o movimento operário egípcio, como forma de organizar as lutas e alcançar o socialismo. Como não é a primeira vez em que isso acontece (foi o mesmo caso na Líbia e na Síria), queremos discutir essa questão com os companheiros.
Qual o caminho para derrotar o golpe?
A luta imediata contra o golpe é a tarefa central para os trabalhadores egípcios, e nós vamos participar de todas as atividades de solidariedade internacional que forem realizadas. O governo da Irmandade Muçulmana foi uma catástrofe para os trabalhadores, mas os militares mostraram que não vão tolerar nem as mínimas liberdades democráticas conquistadas com a rebelião popular de 2011.
Por isso, lutando militarmente contra o golpe numa frente única com a Irmandade ou outros setores burgueses, devemos manter a luta política permanente contra eles dentro da frente, e defender a necessidade de que os trabalhadores organizados em seus partidos e sindicatos estejam na linha de frente da luta contra a ditadura.
Isso significa que, mesmo que a gente concorde com grande parte da posições do PCO sobre o golpe no Egito, nós somos contra a palavra de ordem, que eles usam, de "retorno de Morsi". Como já falamos quando aconteceram os golpes em Honduras e no Paraguai, se o movimento for capaz de derrubar uma ditadura nas ruas e com os métodos de luta da classe trabalhadora, ele também é capaz de formar um governo dos trabalhadores.
Mas, é claro, o caminho para isso ainda é muito longo. O Egito nunca teve um partido operário de massas. Mas, ao mesmo tempo, está vivendo um ascenso de greves gigante. Nessas condições, a melhor forma de dar expressão política às lutas é através da formação de um partido operário independente.
Essa foi a política defendida no Brasil no final da ditadura por organizações como a CS (que hoje é o PSTU), a DS e O Trabalho, no processo de formação do PT, mas desgraçadamente não teve o seu complemento necessário: a luta para que esse partido tenha um programa revolucionário. Se os revolucionários egípcios fizerem o mesmo, na melhor das hipóteses vai surgir um partido reformista, que vai se degenerar conforme for entrando na estrutura do Estado (qualquer semelhança com PT, PSOE, PSF e etc, não seria mera coincidência).
E, hoje, um programa revolucionário para o Egito deve defender medidas contra a inflação e o desemprego, como:
reajuste salarial mensal de acordo com a inflação!
redução da jornada de trabalho sem redução de salários!
Além de medidas contra a opressão das mulheres:
formação de autodefesas contra estupradores!
legalização do aborto!
revogação de todas as leis baseadas da Charia (lei religiosa islâmica)!
E de defesa das minorias religiosas:
Separação entre Estado e religião!
Autodefesas contra a violência fundamentalista contra igrejas cristãs!
A partir da luta pelas reivindicações que será possível dar uma orientação revolucionária ao nascente movimento dos trabalhadores egípcio. A luta contra o golpe tem que ser uma escola para a luta pela revolução socialista, que é a única forma do povo egípcio alcançar a sua libertação, pela qual tem lutado permanentemente desde 2011.

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