QUEM SOMOS NÓS

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Somos uma organização marxista revolucionária. Procuramos intervir nas lutas de classes com um programa anticapitalista, com o objetivo de criar o Partido Revolucionário dos Trabalhadores, a seção brasileira de uma nova Internacional Revolucionária. Só com um partido revolucionário, composto em sua maioria por mulheres e negros, é possível lutar pelo governo direto dos trabalhadores, como forma de abrir caminho até o socialismo.

domingo, 23 de setembro de 2012

E quando os inimigos dos EUA são piores do que eles?


Bem na luta
contra o inimigo principal
fui abatido
por meu inimigo secundário

não pelas costas, traiçoeiramente
como exigem seus inimigos principais
mas francamente, na posição
que há muito tempo ele ocupa

e de acordo
com suas intenções declaradas
de que eu não duvidava
e negligenciava

É por isso que a minha própria morte
não perturbou seu espírito
Meu único alvo continuará
a ser lutar contra o inimigo principal

(Erich Fried)


Os processos da Líbia, da Síria, do Irã tem dividido as correntes de esquerda. De um lado, os que defendem a luta popular pela democracia, colocando em segundo plano o fato de que os países imperialistas intervêm e, em alguns casos, dirigem esses processos. Do outro, os que colocam a necessidade de isolar os setores proimperialistas acima até mesmo da existência de movimentos de massas nos países em questão.

A polêmica entre esses grupos geralmente assume a forma babaca de "capituladores ao imperialismo x puxa-sacos de ditadores", justamente porque o que nenhum dos dois lados reconhece é que esse dilema é criado pela mudança radical das coordenadas estratégicas desde 1979.

Essa situação ficou mais atual ainda (se é que isso existe) depois dos protestos gigantes contra as embaixadas dos EUA, em vários países islâmicos. O motivo foi o protesto contra o filme de baixo orçamento e qualidade menor ainda, Inocência dos Muçulmanos, feito por idiotas de extrema-direita no melhor padrão Hermes & Renato (as cenas foram redubladas, os atores brancos passaram óleo pra ficarem com a pele mais escura dos árabes etc), que ridiculariza o Islã e o seu Profeta, Muhammad.

Obviamente temos que ser contra essa baixaria racista, islamofóbica e xenófoba. Mas os protestos não são pra isso. Eles são contra as embaixadas dos EUA. Parece que só são possíveis três interpretações: 1) ou eles estão exigindo que os EUA censurem o filme, 2) ou eles acham que os EUA estão numa cruzada contra o Islã (o que é uma bobagem, porque os EUA apoiam várias correntes fundamentalistas para contrapor aos fundamentalistas anti-EUA), 3) ou confundem o governo e o povo dos EUA.

De qualquer forma, os atos são reacionários, porque desviam a luta antiimperialista para o terreno religioso da "guerra de civilizações". Esses setores são os mesmo que exigem a censura de programas "antiislâmicos" na TV dos seus países. 

Nós devemos lutar contra a islamofobia desse filme ridículo, mas defender a censura a esse filme seria o mesmo que voltar ao tempo das leis contra a blasfêmia. As pessoas devem poder criticar qualquer religião, mesmo que seja da forma imbecil dos palhaços que fizeram esse filme idiota.

Apoiar os fundamentalistas, porque eles queimam a bandeira dos EUA, como fazem muitos setores da esquerda (caso do PSTU, da LER e da LC, que dizem que os protestos expressam distorcidamente a revolta contra o imperialismo), não só é idiotice, como é a maior expressão de indiferença diantes dos trabalhadores oprimidos pelo fundamentalismo, principalmente as mulheres!

Uma coisa é um movimento amplo, em que participam setores fundamentalistas (como foi a Revolução Iraniana de 1979). Nesse caso, realmente pode existir um conteúdo antiimperialista que é distorcido - justamente pelos fundamentalistas. Outra coisa muito diferente é quando uma organização fundamentalista organiza um ato com uma pauta diretamente religiosa (como "defender a honra do Profeta). Nesse caso, é óbvio que se trata de um ato religioso reacionário, e seria absurdo apoiá-lo.

Até os setores liberais proamericanos da Líbia foram contra o ato que matou o embaixador dos EUA, e mais ainda contra a existência de milícias fundamentalistas. E, nesse ponto, estavam agindo por  um instinto de defesa contra um setor que quer impor a Charia, uma legislação baseada numa interpretação severa do Islã, que é incompatível com as menores liberdades individuais consagradas pela democracia burguesa, como os direitos iguais para as mulheres, a defesa da liberdade de expressão etc. 

Isso nos traz ao objetivo da postagem: o que os comunistas devem fazer quando quem luta contra o imperialismo é mais reacionário que ele?


Marxismo, Liberalismo, Conservadorismo

Pra começar, temos que entender que o critério marxista não é "esquerda x direita". Ao contrário, o marxismo usa um critério genético/histórico para avaliar as correntes políticas, baseado na sua posição desde a revolução burguesa.

Quando começa a revolução francesa, surge uma corrente de defensores do Antigo Regime, como De Maistre e Edmond Burke. Pela sua posição, eles são chamados de contrarrevolucionários. Ideologicamente, são eles que criam o que hoje chamamos de conservadorismo.

O núcleo do pensamento conservador é o organicismo, ou seja, a ideia de que a sociedade é formada por partes que têm funções diferentes (como os órgãos de um corpo) e está acima das partes. Então, os conservadores acham que a sociedade tem que ser preservada acima dos indivíduos. Na prática, limitam os direitos individuais de acordo com a sua concepção de sociedade.

Por isso, quando você vê alguém ser contra o casamento gay, a legalização das drogas, defender o ensino religioso, é exatamente a concepção conservadora. O nazismo (que cumpriu, no começo, o papel de uma contrarrevolução preventiva) se intitulava uma "revolução nacional e conservadora".

Os liberais são a corrente que saiu vitoriosa das revoluções burguesas. No começo, o liberalismo se reduzia à defesa da  livre empresa e do governo constitucional, que garantisse os direitos dos cidadãos. Mas, depois de mais de duzentos anos de lutas (que continuam até hoje, no Norte da África, no Oriente Médio e em vários outros países), a noção de liberdade foi se ampliando até os direitos políticos, civis e sociais que temos hoje nas democracias burguesas.

A base do liberalismo é a concepção de uma sociedade formada por indivíduos, e que a sociedade não é uma entidade superior - ao contrário, ela deve ser organizada para a satisfação das necessidades dos indivíduos que a formam.


Viva o comunismo e a liberdade!

O marxismo critica as concepções liberais porque a liberdade no capitalismo é formal.

"O limite da emancipação política manifesta-se imediatamente no fato de que o Estado pode livrar-se de um limite sem que o homem dele se liberte realmente, no fato de que o Estado pode ser um Estado livre sem que o homem seja um homem livre. (...) Não há dúvida que a emancipação política representa um grande progresso. Embora não seja a última etapa da emancipação humana em geral, ela se caracteriza como a derradeira etapa da emancipação humana dentro do contexto do mundo atual. É óbvio que nos referimos à emancipação real, à emancipação prática.(...) Somente quando o homem individual real recupera em si o cidadão abstrato e se converte, como homem individual, em ser genérico, em seu trabalho individual e em suas relações individuais; somente quando o homem tenha reconhecido e organizado suas "forces propres" como forças sociais e quando, portanto, já não separa de si a força social sob a forma de força política, somente então se processa a emancipação humana". (A Questão Judaica)

Isso coloca a relação entre o marxismo e o liberalismo. Mesmo depois de quase cem anos de tradição stalinista no movimento, fica claro pela história do comunismo, que os marxistas defendem as liberdades democráticas e a liberdade individual em geral contra os setores conservadores. Nessa luta, o lado dos comunistas não é junto com as pessoas que temem as "consequências sociais" da censura (inclusive à pornografia), da restrição da liberdade sexual, do direito ao uso de drogas etc, e sim junto com os liberais mais extremos e individualistas.

Ou seja, a linha geral dos marxistas pode ser resumida no famoso verso da canção antifascista Bandera Rossa: "Viva il Comunismo et la libertà!".


A URSS e o antiimperialismo

O stalinismo destruiu o aspecto progressista do marxismo. Junto com a sua política de colaboração de classes, os regimes  e partidos stalinistas defenderam como norma para a sociedade "socialista" um estado policial, onde as mais básicas liberdades políticas eram negadas com o argumento de que eram "individualismo pequeno-burguês". Todo mundo sabe das perseguições aos judeus, homossexuais, testemunhas de Jeová, minorias nacionais etc nos "países socialistas". Ou seja, nesses regimes a liberdade para os trabalhadores era muito menor que nas democracias capitalistas.

O terror burocrático dos stalinistas foi a causa principal não só dos trabalhadores dos países imperialistas na sua maioria rejeitarem a luta contra o capitalismo (já que eles viam que nos países capitalistas avançados pelo menos existia liberdade de organização e expressão, que permitiam a organização como classe, o que era impossível na URSS), como também foi o que criou a confusão ideológica que levou os movimentos do Leste Europeu em 1989 a lutarem contra o socialismo, que eles achavam que era a mesma coisa que o stalinismo.

Apesar de tudo isso, nos países semicoloniais a situação já era de ditadura, mas sem as conquistas da revolução (pleno emprego, educação e saúde públicas etc). Por isso, os militantes desses países se espelhavam na URSS na sua luta contra o imperialismo. O prestígio da URSS depois da vitória contra o nazismo também fez com que setores democráticos se aliassem à URSS, inclusive dependendo do seu apoio econômico. Por isso, quando organizações stalinistas usam nomes como "Frente Democrática", "Democracia Popular" etc, não é simplesmente uma ironia macabra. É o resultado das contradições reais da luta antiimperialista. 

É por isso que os setores que lutavam pela terra, pela independência nacional, contra ditaduras apoiadas pelos EUA, pelas minorias nacionais etc, eram pró-URSS e estavam à frente da luta antiimperialista.

Ainda assim, a URSS apoiava regimes nacionalistas autoritários, como Nasser no Egito, Kadafi na Líbia, Nkrumah em Gana etc, por causa da sua política de revolução por etapas. Foi essa a base que permitiu a mutação do antiimperialismo, que aconteceu em 1978-1979.


O deslocamento do eixo antiimperialista

No final da década de 1970, três fatores internacionais mudaram todo o eixo antiimperialista.

O primeiro foi a estagnação dos países onde a burguesia tinha sido expropriada. Como Ernest Mandel e outros marxistas que analisaram as economias planificadas disseram, se não houvesse mecanismos democráticos para determinar as necessidades da produção e do consumo, já que não existia mercado, seria impossível a economia planificada funcionar. Assim, depois do período da industrialização da URSS e dos países mais atrasados do Leste Europeu (década de 1950), começou um longo período de estagnação, que durou até o fim dos regimes stalinistas.

Além de acabar com a ilusão de que a URSS "marchava para o comunismo", que o regime "socialista" tinha resolvido os problemas econômicos, a crise também levou a uma diminuição dos recursos que os soviéticos mandavam para os movimentos de libertação nacional.

Em segundo lugar, a guerra entre o Camboja e o Vietnã fez com que a grande maioria da esquerda deixasse de defender o regime genocida de Pol Pot. O que passou a ser discutido é que o regime do Khmer Vermelho foi uma coisa sem precedentes, comparável somente com o nazismo. O regime massacrava médicos, esvaziou as cidades, matava quem usava óculos (!!!) e transformou o país inteiro num campo de trabalhos forçados. O discurso que via os regimes stalinistas como um ponto de progresso perdia cada vez mais credibilidade.

Essas condições permitiram que a revolução iraniana contra o Xá proamericano, apesar da participação de várias correntes comunistas, fosse hegemonizada pelos fundamentalistas, que em poucos meses massacraram qualquer corrente de oposição e instituíram um regime teocrático ditatorial que dura até hoje. Desde então, a hegemonia das lutas contra as potências imperialistas passou para organizações completamente reacionárias, que desviam o conteúdo antiimperialista para um "choque de civilizações", em que eles são a ala mais declaradamente reacionária e passadista.

O que vemos, no final das contas, é que, em vários países, os setores que são considerados "antiimperialistas" são antiiluministas, reacionários, que querem que a sociedade volte para um estágio anterior ao capitalismo. Por isso, muitos setores das sociedades em que existem essas correntes veem os EUA e a Europa Ocidental como uma alternativa progressista, enquanto boa parte da esquerda pede que se faça uma aliança com esses restos da Idade Média. Muitas vezes, isso leva as correntes de esquerda a acusarem os setores secularistas e feministas desses países (ou seja, a esquerda de lá) de proimperialistas!


E então, o que fazer?

Em primeiro lugar, não sermos idiotas etnocêntricos. As contradições de classe também dividem os paises semicoloniais. Quando por exemplo, um idiota diz que ser contra o governo do Irã adotar pena de morte para adultério é favorecer o imperialismo, temos que lembrar que não existe uma coisa homogênea chamada "os iranianos", e sim que temos que nos apoiar nos setores da sociedade iraniana que levantem demandas iluministas/democráticas que estendam a liberdade individual. Ou seja, temos que fazer exatamente o contrário do "multiculturalismo" idiota da esquerda que fica glorificando o atraso dos países como se isso fosse antiimperialismo!

Também temos, seguindo esse raciocínio, que colocar as necessidades reais da luta em cada processo acima da estupidez geopolítica. A geopolítica é uma ideologia (e pseudociência) quer trata os países e blocos de países como um todo homogêneo, e analisa a realidade internacional como uma disputa entre esses blocos. Mais uma vez, quando você é contra uma revolta na Síria porque eles financiam a OLP, isso é escolher a burocracia, em vez de ficar do lado do povo em luta.

Pra fazer isso, é fundamental a gente entrar em contato com as organizações marxistas ativas nesses países. É muito sério a gente conhecer mais a Irmandade Muçulmana ou o Talibã do que, por exemplo, a LGO (Liga de Esquerda Operária) da Tunísia, o LPP (Partido Operário do Paquistão), o Lalit (Luta) das Ilhas Maurício, ou os Socialistas Revolucionários do Egito, mesmo com todas as diferenças políticas que a gente tenha com eles. O contato com esses grupos pode fazer evaporar em segundos qualquer ilusão nos setores que são muito mais retratados na mídia. Isso faz parte da "descolonização" da esquerda, porque muitas vezes as nossas referências são somente a América Latina e a Europa.

Finalmente, é bom lembrar que frente única antiimperialista se faz com setores antiimperialistas. Isso não tem nada a ver com protestos organizados por pessoas que são contra os EUA porque são um país "infiel". Seria a mesma coisa que ir pra um protesto do Tea Party contra o Barack Obama porque ele é "socialista"! Quando a Internacional Comunista defendeu a frente única antiimperialista, o tipo de movimento que existia eram correntes nacionalistas secularistas, que hoje a gente chamaria de nacionalistas burgueses, ou, no máximo, correntes islâmicas ou de religiões locais liberais, como o Sarekat Islam (Indonésia) ou o Cao Dai (Indochina). Totalmente diferentes das correntes sexistas, xenófobas e antioperárias como o Talibã e a Al Qaeda.

Mesmo quando é necessário estar no mesmo campo militar que os fundamentalistas, como na luta contra uma invasão imperialista, temos que ter clareza de que existe uma luta entre os setores que estão no mesmo campo e que, mais cedo ou mais tarde (geralmente mais cedo) vai se tornar mais importante que a luta contra o "inimigo comum". Isso exige retomar as lições do PC chinês depois de ser massacrado pelos seus "aliados" do Kuomitang: total independência política e organizativa (atos separados, se houver braço armado, também seja separado, organizações totalmente independentes), e denúncia constante do "aliado" (coisa que o PCC não fez a maior parte do tempo).

Se, por um lado, se abster de uma luta real contra uma intervenção militar seria o fim de qualquer organização revolucionária e, no final, isso serviria para fortalecer o setor reacionário com uma imagem "antiimperialista", por outro lado, se confundir e capitular diante de setores reacionários, patriarcais, fundamentalistas e xenófobos torna qualquer organização imprestável para a tarefa de se enraizar  nos setores mais oprimidos, como as mulheres e minorias nacionais, que são os setores que mais precisam de liberdade de expressão e organização. 

2 comentários:

  1. Vc é contra o alcorão tb? O conteúdo é altamente xenofóbico, racista, sexista, prega o ódio contra os infieis (qq pessoa que não seja muçulmana) e almeja fazer o mundo inteiro seguir suas crenças, mesmo q através de mortes.... Talvez se vc lesse o alcorão veria q o filme, apesar de mal feito, retrata com alguma fidelidade a realidade de maome

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  2. Anônimo,

    não somos "contra" ou "a favor" de um livro. Para nós, a religião, na grande maioria das situações, foi usada como um instrumento para justificar a dominação das massas populares, "prometendo" que os problemas da vida seriam resolvidos só após a morte.

    Isso é uma coisa. Outra, bem diferente, é ser "contra" um livro. O Alcorão retrata a cultura da sociedade em que foi escrito. Por isso, prega a inferioridade das mulheres e diz que os politeístas vão ser punidos no inferno.

    Mas é pura islamofobia dizer que só o Alcorão é assim. A Bíblia é muito mais violenta do que o Alcorão. É só ler o livro de Josué, que fala sobre como os hebreus massacraram os outros povos da sua região. A Bíblia também prega a submissão da mulher ao homem, tanto no Antigo Testamento como no Novo. E certamente houve muito mais mortes com a desculpa do cristianismo do que do Islã.

    Quando um cristão fundamentalista como os autores do filme atacam o Alcorão, deveriam saber do "telhado de vidro" que têm...

    Eu, particularmente (o militante que está respondendo) li o Alcorão (e boa parte da Bíblia), o que me permite ver até melhor como o filme é tendencioso e foi feito só pra atiçar o ódio religioso.

    Mesmo assim, é ridículo defender a proibição de um livro. Ser contra o Alcorão é como ser contra a Divina Comédia, as pirâmides do Egito, a pintura abstrata etc. Uma incompreensão do papel da cultura, e uma tentativa pseudomarxista de tentar "disciplinar" ela.

    Isso só serviria para reforçar os setores religiosos mais reacionários. Somos a favor da total liberdade de expressão e de religião.

    Para os marxistas, o combate à alienação religiosa não deve ser feito através da proibição à religião, e sim através do esclarecimento científico, desmentindo as explicações mitológicas da religião sobre a origem da vida, do ser humano etc, e da mudança das condições sociais que fazem as pessoas procurarem desesperadamente pelas soluções religiosas.

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